
Imagem do cartaz de uma exposição dos alunos de Educação Moral e Religiosa Católica do Agrupamento de Escolas Abade de Baçal, de Bragança, 2020. Foto © Dina Pinto
“Noite após noite, continuei a interrogar-me: o que significa tudo isto?
Os assassinos matavam, as vítimas morriam, os fogos ardiam e
um povo inteiro ansioso por eternidade transformava-se em cinzas,
aniquilado por uma nação que, até então, era considerada
a mais instruída, a mais culta do mundo.
Diplomados pelas melhores universidades, amantes da música
e da pintura, médicos, advogados (…) participavam na solução final
e tornaram-se cúmplices da morte. Académicos e engenheiros
inventaram métodos mais eficientes para exterminar massas em tempo recorde.
Como foi isto possível? Não sei a resposta.”
(Elie Wiesel no julgamento de Klaus Barbie, 2 de junho de 1987)
O texto acima citado (alusivo à memória das vítimas do nazismo) é um breve fragmento do depoimento de Elie Wiesel, no julgamento de Klaus Barbie. Trata-se de um excerto usualmente abordado no âmbito da Unidade Letiva “Política, Ética e Religião” na disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica do ensino secundário.
No testemunho vivo de quem questiona a existência do mal e a sua banalização, este depoimento propõe-nos um autêntico roteiro pedagógico, verdadeiramente útil para, em contexto escolar, conduzir a reflexão acerca do que é a condição humana e daquilo que a tipifica. Podemos, através dele, fazer pedagogia de três dimensões cruciais para a humanização da vida social: a dimensão política, a dimensão ético-moral e a dimensão religiosa.
Abordá-lo a partir da sua dimensão política apela para a compreensão de quais são os verdadeiros fins da política, tarefa nobre que deveria centrar-se mais no serviço do que na ideologia, no primado da pessoa e na promoção do potencial individual e comunitário, lutando contra todas formas de perversão.
A educação da dimensão política implica o reconhecimento de que cabe a cada um de nós o destino comum da comunidade humana. O bem-estar de uns deve implicar o bem-estar de todos, assim como o mal-estar de uns deve incomodar a consciência de todos. Uma verdadeira educação política cria as condições para uma verdadeira construção da cidade, contribuindo para a edificação da vida coletiva. Uma cidade que confere a todos, sem exceção, o nome de cidadãos munidos de uma dignidade singular, que não pode ser reduzida a um número, a uma categoria ou a um voto. Abdicar dessa condição de cidadão, por comodismo, indiferença ou desinteresse é romper a própria teia social e tornar-se cúmplice do que, por incúria, pode corromper ou degradar a vida social.
Uma segunda dimensão deste roteiro pedagógico diz respeito à dimensão ético-moral. É por ela que podemos compreender esta verdade profundamente pedagógica: conhecimento não é sabedoria, apenas instrução. As mentes que idealizaram e puseram em prática a tragédia da Shoah, a que aquele relato faz alusão, eram mentes brilhantes. O que levanta uma interrogação básica e importante: a escola deve dar à vertente do ensino a primazia ou deve focar-se, com igual afinco, na valorização da cidadania ativa e na assunção de um papel formador de uma humanidade compassiva e solidária?
Dito de outro modo: queremos formar mulheres e homens para serem academicamente brilhantes ou queremos torná-los cidadãos e cidadãs empenhados no Bem Comum? A ética do cuidado pelo outro e a ideia, muito cristã, de uma família humana fundada na fraternidade dever-nos-ia servir de farol para evitarmos outras tragédias, sendo aqui recordada esta mesma preocupação por parte daquelas e daqueles que sobreviveram à barbárie e à perversão de uma ideologia totalitária.

Cartaz de uma exposição dos alunos do Agrupamento de Escolas Abade de Baçal em 2020. Foto © Dina Pinto
“Nunca mais” e “Faça-se memória” figuram entre as suas interpelações, refletindo o duplo desejo de que, pela memória, não sejam repetidos os erros do passado e se tirem lições para o presente e o futuro. Hoje, como ontem, a indiferença pode matar e originar novos “holocaustos”, melhor dizendo “catástrofes”, já que tais massacres nada têm de sagrado, atentando contra o mais elementar dos princípios: a dignidade humana. Não se mostra digno da própria humanidade ter de voltar a repetir a mesma pergunta do autor daquele depoimento: Como foi isto possível?
A terceira dimensão deste tripé é a religiosa. Dimensão que apela para a transcendência e que permite reconhecer que a existência humana é ela própria chamada a transcender-se e a compreender que a vida é um princípio acima de quaisquer considerações morais. A própria palavra “religião” remete-nos para uma religação entre nós e o sagrado, tomando como elo de ligação a proximidade e o cuidado uns dos outros. Por isso, esta dimensão religiosa interpela-nos na pergunta dirigida na Bíblia por Deus a Caim “Onde está o teu irmão?”, fazendo desta geografia existencial, simultaneamente, espaço de culto, de promoção humana e de salvação.
Como disse o Papa Francisco antes da Páscoa de 2020, naquela icónica imagem da Praça de São Pedro vazia, ou nos salvamos todos ou perecemos todos. Não conseguimos compreender o drama humano quando nos remetemos ao silêncio cúmplice e descartamos responsabilidades.
Perante a interrogação “como foi possível?” responderemos: foi possível porque baixámos a guarda e lavámos as mãos como Pilatos. A democracia, o respeito pelo outro e a defesa da dignidade humana são tarefas de todos e de todos os dias. Cada um de nós apenas tem de fazer a sua parte. Pelo bem de todos!
Dina Pinto é professora de Educação Moral e Religiosa Católica no Agrupamento de Escolas Abade de Baçal, de Bragança.










