O Vaticano pede paróquias missionárias, mas insiste na norma jurídica e na predominância do padre
Um documento do Vaticano aponta um “sentido missionário” e um impulso renovador às paróquias católicas, mas gasta mais de metade do texto a repetir normas jurídicas já conhecidas. Chovem as críticas.

Missa numa paróquia católica em Portugal: o documento da Congregação do Clero insiste num modelo centrado no padre. Foto © Arlindo Homem/Ecclesia
É um documento que quer as paróquias católicas com um impulso renovador “no sentido missionário”, desafiando-as à “criatividade” e a ser comunidades inclusivas e atentas aos mais pobres, porque as mudanças sociais devem levar a respostas novas, capazes de “transformar tudo”. Mas, apesar desses objectivos, mais de metade da instrução pastoral sobre “A conversão pastoral da comunidade paroquial a serviço da missão evangelizadora da Igreja” repete normas jurídicas sobre nomeações, organização e administração, reafirmando que os leigos não podem ter qualquer papel de liderança e reduzindo vários organismos a um papel consultivo dos párocos.
A instrução, publicada pela Congregação para o Clero (CC), do Vaticano, segunda-feira, 20 de Julho, começa por enunciar um conjunto de boas intenções e princípios, citando várias afirmações do Papa Francisco sobre a necessidade da criatividade ou de desclericalizar estruturas e ideias, por exemplo. Este já pode ser um indicador: o actual Papa fica a perder para o Código de Direito Canónico, que é citado 87 vezes (quase sempre directamente), num total de 183 notas, algumas das quais remetem também para outros documentos normativos da Igreja. Ou seja, abunda visão jurídica, falta visão pastoral, teológica, bíblica e espiritual.
O documento repete “frases feitas e recordações canónicas, sem trilhar propostas novas”, comenta ao 7MARGENS o padre João Alves, responsável da paróquia da Vera-Cruz, em Aveiro. “Parte de uma compreensão canónica da paróquia que limita” a abertura a novos entendimentos para além do território, que ele próprio critica, e não tem em conta “novas abordagens” e experiências: “Parece ser mais uma instrução apologética da ortodoxia do direito do que alimento de outros caminhos, tentando porventura até bloqueá-los”, afirma, estranhando desde logo porque é que um texto sobre paróquias é publicado pela Congregação para o Clero, como se pode ler neste outro texto publicado no 7MARGENS.
Na Alemanha, onde alguns bispos têm começado a tentar novas experiências de orientação paroquial, vários deles manifestaram-se “irritados” com os “padrões anteriores” que o texto traduz e que não ajudam a travar a desmotivação de muitos leigos, criticando a forma e o conteúdo do documento, como se dá conta nesta outra notícia.
Mas, no mesmo país, onde a Igreja Católica iniciou um Caminho Sinodal, o cardeal Walter Kasper, que chegou a presidir ao Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos, e noutras ocasiões apareceu como muito crítico de organismos do Vaticano, apoia a instrução e o seu objectivo da “conversão pastoral a um caminho missionário”. A ideia é cara ao Papa Francisco, diz, e um elemento central para o catolicismo contemporâneo, tendo em conta “o número de pessoas que deixam a Igreja Católica na Alemanha” – só entre 2018 e 2019, foram mais 272.771.
“Olhar para quem precisa de Deus”
O cardeal Beniamino Stella, prefeito da CC e principal responsável pelo documento, justifica o texto com as ideias de responder à escassez de clero no Ocidente e ao facto de os limites geográficos das paróquias terem desaparecido. Ao Vatican News, Stella disse que a mobilidade e as necessidades das pessoas devem levar a olhar para lá “da paróquia tradicional”, e a olhar para “o mundo juvenil, o mundo daqueles que precisam de Deus, mas não sabem qual estrada tomar”. Mas as reformas, avisava, não podem surgir apenas do “gosto” ou do “capricho de competentes e especialistas”.
No documento, começa por afirmar-se que as paróquias devem estar mais vocacionadas para a evangelização do que para a autopreservação, e encontrar formas de proximidade em relação a todas as pessoas que vivem no seu território, olhando também para lá desse confim: “A crescente mobilidade e a cultura digital dilataram os confins da existência.”
É “urgente envolver todo o Povo de Deus” no rejuvenescimento da Igreja, adequando o serviço “às exigências dos fiéis e das alterações históricas”, lê-se também. A paróquia é ainda chamada a fazer “propostas diversificadas” na acção pastoral e na aproximação à palavra bíblica e deve superar actividades “sem incidência na vida das pessoas concretas”, na “tentativa estéril de sobrevivência, diversas vezes acolhida pela indiferença geral” e que se arrisca a ser “autorreferencial” e a “esclerosar-se”.
A instrução pastoral propõe “a redescoberta da fraternidade” e da “cultura do encontro”, de modo a “desenvolver uma verdadeira e própria ‘arte da proximidade’ que ajude a superar a solidão. E a paróquia deve ser, em síntese, uma “comunidade de comunidades”, “inclusiva, evangelizadora e atenta aos pobres”.
O documento sugere, assim, que a mudança de estruturas exige antes de mais “uma mudança de mentalidade e uma renovação interior. Critica a “clericalização da pastoral”, diz que “o sujeito responsável da missão é toda a comunidade”, uma vez que “a Igreja não se identifica somente com hierarquia” e que o presbítero “não pode” substituir o povo.
Corresponsabilidade dos leigos… no sustento das paróquias e dos padres

Moradores de rua na paróquia de S. Miguel, rua Taquari, em São Paulo (Brasil): o texto fala em paróquias inclusivas e atentas aos mais pobres. Foto © Tony Neves
Engana-se quem queira retirar destes princípios um maior envolvimento dos crentes nos processos de participação e decisão das paróquias. Toda a segunda parte do texto (capítulos VII a XI, do parágrafo 42 ao 121) se limita a enunciar normas jurídicas sobre a junção de paróquias, a sua liderança pastoral, os cargos e ministérios, os organismos de corresponsabilidade eclesial e as ofertas para a celebração dos sacramentos.
O documento chega mesmo a referir a possibilidade de vários párocos poderem viver em comum – há estudos e inquéritos que apontam a solidão como um dos principais problemas de muitos padres –, mas diz que isso não é uma “obrigação”. Nem sequer reflecte sobre o modelo de formação dos seminários, que muitos teólogos e especialistas têm “culpado” como causa da incapacidade de muitos padres viverem em pequenas comunidades.
Aos leigos, recorda-se que “não podem em nenhum caso proferir a homilia durante a celebração da eucaristia”, e aqueles que integram os conselhos económicos paroquiais fazem-no apenas título “consultivo” – o pároco é quem preside e toma as decisões. No capítulo dos “organismos de corresponsabilidade eclesial”, as regras para os conselhos dos assuntos económicos vêm, aliás, antes das que se referem aos conselhos pastorais – por definição, a estrutura de decisão e programação mais importante da paróquia.
Se os fiéis não podem aspirar a ter mais participação e corresponsabilidade nas decisões, já a sua parte na manutenção das paróquias e dos seus párocos não é esquecida: os sacramentos não são para pagar como se houvesse um “imposto sobre sacramentos”, mas os fiéis devem contribuir para “o sustento dos ministros” do culto e das actividades paroquiais. Por isso, devem sentir a paróquia como “coisa sua” e que serem sensibilizados para a necessidade do contributo. Mas, chama-se ainda a atenção, os padres devem fazer bom uso do dinheiro e ter uma “vida sóbria e sem excessos em nível pessoal”, a par de uma “gestão dos bens paroquiais transparente”.
O documento chega ainda a sugerir expressões de linguagem a evitar, que possam levar a um entendimento exagerado do papel dos leigos ou outros colaboradores. Por exemplo, “confiar o cuidado pastoral de uma paróquia”, “presidir a comunidade paroquial” são expressões que se referem apenas ao “ministério sacerdotal, que compete ao pároco”.
Na conclusão, o texto retoma as propostas iniciais, para insistir em que a paróquia não pode ficar presa do “imobilismo ou duma preocupante repetitividade pastoral” e se deve redescobrir “como lugar fundamental do anúncio evangélico, da celebração da eucaristia, espaço de fraternidade e caridade, de onde se irradia o testemunho cristão para o mundo”.
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