AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

O Vaticano pede paróquias missionárias, mas insiste na norma jurídica e na predominância do padre

| 29/07/2020

O Vaticano pede paróquias missionárias, mas insiste na norma jurídica e na predominância do padre

by | 29 Jul 20 | Cristianismo, Destaques, Igreja Católica, Newsletter diária - título, Últimas, Vaticano/Santa Sé

Um documento do Vaticano aponta um “sentido missionário” e um impulso renovador às paróquias católicas, mas gasta mais de metade do texto a repetir normas jurídicas já conhecidas. Chovem as críticas.

Paróquia São Brás. Missa.

Missa numa paróquia católica em Portugal: o documento da Congregação do Clero insiste num modelo centrado no padre. Foto © Arlindo Homem/Ecclesia

 

É um documento que quer as paróquias católicas com um impulso renovador “no sentido missionário”, desafiando-as à “criatividade” e a ser comunidades inclusivas e atentas aos mais pobres, porque as mudanças sociais devem levar a respostas novas, capazes de “transformar tudo”. Mas, apesar desses objectivos, mais de metade da instrução pastoral sobre “A conversão pastoral da comunidade paroquial a serviço da missão evangelizadora da Igreja” repete normas jurídicas sobre nomeações, organização e administração, reafirmando que os leigos não podem ter qualquer papel de liderança e reduzindo vários organismos a um papel consultivo dos párocos.

A instrução, publicada pela Congregação para o Clero (CC), do Vaticano, segunda-feira, 20 de Julho, começa por enunciar um conjunto de boas intenções e princípios, citando várias afirmações do Papa Francisco sobre a necessidade da criatividade ou de desclericalizar estruturas e ideias, por exemplo. Este já pode ser um indicador: o actual Papa fica a perder para o Código de Direito Canónico, que é citado 87 vezes (quase sempre directamente), num total de 183 notas, algumas das quais remetem também para outros documentos normativos da Igreja. Ou seja, abunda visão jurídica, falta visão pastoral, teológica, bíblica e espiritual.

O documento repete “frases feitas e recordações canónicas, sem trilhar propostas novas”, comenta ao 7MARGENS o padre João Alves, responsável da paróquia da Vera-Cruz, em Aveiro. “Parte de uma compreensão canónica da paróquia que limita” a abertura a novos entendimentos para além do território, que ele próprio critica, e não tem em conta “novas abordagens” e experiências: “Parece ser mais uma instrução apologética da ortodoxia do direito do que alimento de outros caminhos, tentando porventura até bloqueá-los”, afirma, estranhando desde logo porque é que um texto sobre paróquias é publicado pela Congregação para o Clero, como se pode ler neste outro texto publicado no 7MARGENS.

Na Alemanha, onde alguns bispos têm começado a tentar novas experiências de orientação paroquial, vários deles manifestaram-se “irritados” com os “padrões anteriores” que o texto traduz e que não ajudam a travar a desmotivação de muitos leigos, criticando a forma e o conteúdo do documento, como se dá conta nesta outra notícia.

Mas, no mesmo país, onde a Igreja Católica iniciou um Caminho Sinodal, o cardeal Walter Kasper, que chegou a presidir ao Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos, e noutras ocasiões apareceu como muito crítico de organismos do Vaticano, apoia a instrução e o seu objectivo da “conversão pastoral a um caminho missionário”. A ideia é cara ao Papa Francisco, diz, e um elemento central para o catolicismo contemporâneo, tendo em conta “o número de pessoas que deixam a Igreja Católica na Alemanha” – só entre 2018 e 2019, foram mais 272.771.

 

“Olhar para quem precisa de Deus”

O cardeal Beniamino Stella, prefeito da CC e principal responsável pelo documento, justifica o texto com as ideias de responder à escassez de clero no Ocidente e ao facto de os limites geográficos das paróquias terem desaparecido. Ao Vatican News, Stella disse que a mobilidade e as necessidades das pessoas devem levar a olhar para lá “da paróquia tradicional”, e a olhar para “o mundo juvenil, o mundo daqueles que precisam de Deus, mas não sabem qual estrada tomar”. Mas as reformas, avisava, não podem surgir apenas do “gosto” ou do “capricho de competentes e especialistas”.

No documento, começa por afirmar-se que as paróquias devem estar mais vocacionadas para a evangelização do que para a autopreservação, e encontrar formas de proximidade em relação a todas as pessoas que vivem no seu território, olhando também para lá desse confim: “A crescente mobilidade e a cultura digital dilataram os confins da existência.”

É “urgente envolver todo o Povo de Deus” no rejuvenescimento da Igreja, adequando o serviço “às exigências dos fiéis e das alterações históricas”, lê-se também. A paróquia é ainda chamada a fazer “propostas diversificadas” na acção pastoral e na aproximação à palavra bíblica e deve superar actividades “sem incidência na vida das pessoas concretas”, na “tentativa estéril de sobrevivência, diversas vezes acolhida pela indiferença geral” e que se arrisca a ser “autorreferencial” e a “esclerosar-se”.

A instrução pastoral propõe “a redescoberta da fraternidade” e da “cultura do encontro”, de modo a “desenvolver uma verdadeira e própria ‘arte da proximidade’ que ajude a superar a solidão. E a paróquia deve ser, em síntese, uma “comunidade de comunidades”, “inclusiva, evangelizadora e atenta aos pobres”.

O documento sugere, assim, que a mudança de estruturas exige antes de mais “uma mudança de mentalidade e uma renovação interior. Critica a “clericalização da pastoral”, diz que “o sujeito responsável da missão é toda a comunidade”, uma vez que “a Igreja não se identifica somente com hierarquia” e que o presbítero “não pode” substituir o povo.

 

Corresponsabilidade dos leigos… no sustento das paróquias e dos padres

Moradores de rua na paróquia de S. Miguel, rua Taquari, em São Paulo (Brasil): o texto fala em paróquias inclusivas e atentas aos mais pobres. Foto © Tony Neves

 

Engana-se quem queira retirar destes princípios um maior envolvimento dos crentes nos processos de participação e decisão das paróquias. Toda a segunda parte do texto (capítulos VII a XI, do parágrafo 42 ao 121) se limita a enunciar normas jurídicas sobre a junção de paróquias, a sua liderança pastoral, os cargos e ministérios, os organismos de corresponsabilidade eclesial e as ofertas para a celebração dos sacramentos.

O documento chega mesmo a referir a possibilidade de vários párocos poderem viver em comum – há estudos e inquéritos que apontam a solidão como um dos principais problemas de muitos padres –, mas diz que isso não é uma “obrigação”. Nem sequer reflecte sobre o modelo de formação dos seminários, que muitos teólogos e especialistas têm “culpado” como causa da incapacidade de muitos padres viverem em pequenas comunidades.

Aos leigos, recorda-se que “não podem em nenhum caso proferir a homilia durante a celebração da eucaristia”, e aqueles que integram os conselhos económicos paroquiais fazem-no apenas título “consultivo” – o pároco é quem preside e toma as decisões. No capítulo dos “organismos de corresponsabilidade eclesial”, as regras para os conselhos dos assuntos económicos vêm, aliás, antes das que se referem aos conselhos pastorais – por definição, a estrutura de decisão e programação mais importante da paróquia.

Se os fiéis não podem aspirar a ter mais participação e corresponsabilidade nas decisões, já a sua parte na manutenção das paróquias e dos seus párocos não é esquecida: os sacramentos não são para pagar como se houvesse um “imposto sobre sacramentos”, mas os fiéis devem contribuir para “o sustento dos ministros” do culto e das actividades paroquiais. Por isso, devem sentir a paróquia como “coisa sua” e que serem sensibilizados para a necessidade do contributo. Mas, chama-se ainda a atenção, os padres devem fazer bom uso do dinheiro e ter uma “vida sóbria e sem excessos em nível pessoal”, a par de uma “gestão dos bens paroquiais transparente”.

O documento chega ainda a sugerir expressões de linguagem a evitar, que possam levar a um entendimento exagerado do papel dos leigos ou outros colaboradores. Por exemplo, “confiar o cuidado pastoral de uma paróquia”, “presidir a comunidade paroquial” são expressões que se referem apenas ao “ministério sacerdotal, que compete ao pároco”.

Na conclusão, o texto retoma as propostas iniciais, para insistir em que a paróquia não pode ficar presa do “imobilismo ou duma preocupante repetitividade pastoral” e se deve redescobrir “como lugar fundamental do anúncio evangélico, da celebração da eucaristia, espaço de fraternidade e caridade, de onde se irradia o testemunho cristão para o mundo”.

 

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

Dez anos depois da “Amoris laetitia”, Papa reúne bispos e famílias para que Igreja aprenda com elas

Encontro no Vaticano

Dez anos depois da “Amoris laetitia”, Papa reúne bispos e famílias para que Igreja aprenda com elas novidade

“Que tipo de Igreja as pessoas encontram precisamente quando estão mais frágeis?” A pergunta, lançada por Leão XIV, marcou a abertura, esta quarta-feira, 7 de outubro, do encontro internacional que reúne no Vaticano presidentes de conferências episcopais, representantes das Igrejas Católicas Orientais, casais, especialistas e responsáveis da pastoral familiar, dez anos depois da publicação da exortação apostólica “Amoris laetitia”.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Apelo ao Governo

Cristãos do Bangladesh querem feriado no Domingo de Páscoa e maior representação na vida pública

Um cordão humano com mais de 100 pessoas exigiu, durante toda a manhã de dia 31 de março, em frente ao Clube Nacional de Imprensa, em Daca, que o Domingo de Páscoa fosse reconhecido pelo Governo do Bangladesh como feriado nacional. A concentração organizada pela Associação Cristã de Bangladesh reivindicou também lugares na vida pública reservados à representação dos cristãos e de outras minorias.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana

Apelo de Metz

Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana

Os representantes das principais tradições religiosas presentes em França comprometeram-se esta segunda-feira, na cidade de Metz, a aprofundar o diálogo entre si, a educar as novas gerações para o conhecimento mútuo e a permanecerem unidos na promoção da justiça e da paz.

É notícia

[Mãos à Obra]

Projeto da Escola Básica e Secundária de Vialonga distinguido

Quando a tecnologia está nas bocas do mundo não pelas melhores razões, nada melhor para do que descortinar sinais de esperança que nos levam a ter uma outra visão sobre a mesma. As boas notícias, mesmo as tecnológicas, também fazem parte do nosso quotidiano. Hoje queremos dar-vos a conhecer o CDI – Center of Digital Inclusion através de algumas das suas iniciativas, nomeadamente o projecto Apps for Good Portugal.

Dia dos Mártires

Igreja na Índia recorda massacre de 2008

Treze anos depois da onda de violência que varreu o Estado de Orissa, na Índia, provocando mais de 100 mortos, a justiça é ainda uma miragem, denuncia a Fundação AIS. Desde 2016 que é celebrado pela Igreja em Orissa o dia dos Mártires. 

Fundação AIS

Padre haitiano morto a tiro

Um padre que dirigia um orfanato no Haiti foi morto a tiro, Andrè Sylvestre, de 70 anos de idade, foi assassinado na tarde de segunda-feira, 6 de setembro, durante uma tentativa de assalto, revelou a Fundação AIS. 

Entre margens

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber

[Entre Margens]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber novidade

Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

[Entre Margens]

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

Cultura e artes

a importância que uma farda tem (1)

a importância que uma farda tem (1)

“Tomo um verso de Guimarães Rosa: todo o dia é véspera, para breves glosas da nossa circunstância”, diz Luís Soares Barbosa, poeta e professor na Universidade do Minho, que a 24/25 de cada mês, assinalando a data da implantação da democracia em Portugal, publica um poema que é, “uma espécie de comentário sobre a nossa circunstância portuguesa”.

Sete Partidas

Vinte e cinco anos depois

7Partidas

Vinte e cinco anos depois

Em 2001, vivíamos em San Francisco. Naquela segunda-feira, dia 11 de Setembro, fomos acordados pelo meu sogro, que nos ligava da Alemanha para avisar que os EUA estavam a ser atacados. Em San Francisco era ainda madrugada; em Nova Iorque passava das nove da manhã, e as duas torres já estavam a arder. [Texto de Helena Araújo].

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

[ai1ec view=”agenda” events_limit=”3″]

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado

Diocese de Portalegre – Castelo Branco

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado novidade

No fim do processo, “nem um centímetro” da Diocese de Portalegre – Castelo Branco deve “ficar sem ser coberto por um conselho pastoral paroquial” (ou interparoquial se necessário e conveniente). Foi o desafio do bispo Pedro Fernandes à diocese de que assumiu a tarefa de pastor ainda não há um ano. Esta é talvez a melhor síntese do que foi a “Assembleia Diocesana”, no dia 6 de outubro, em Ponte de Sor, a que várias centenas de pessoas responderam participando de um modo ativo.

Arquidiocese no Missouri leva práticas do ICE a tribunal

EUA

Arquidiocese no Missouri leva práticas do ICE a tribunal novidade

A arquidiocese de St. Louis, no Missouri (EUA), intentou uma ação contra o Governo federal por ver os seus padres impedidos de distribuir a comunhão e ouvir em confissão os detidos pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, no acrónimo em inglês) internados no Centro de Detenção do Condado de Ste. Genevieve.

“Depressa passas de bestial a besta”

[Lugar (in)comum]

“Depressa passas de bestial a besta” novidade

“Na era dos ecrãs e da comunicação imediata, construímos expectativas irrealistas, esperando infalibilidade de quem está sob o holofote. Chega a ser irónica a facilidade com que se eleva alguém a um estatuto quase divino para em seguida lhe ser exigido um comportamento humanamente irrepreensível.” [Texto de Júlia Costa]

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.