No seu novo livro O Oeste Hipster, Francisco Teles da Gama percorre os meandros do distrito de Leiria, área Oeste de Portugal. Esta região tão afetada pelas catástrofes naturais entre janeiro e fevereiro, serve de palco a uma vida intelectual e cultural que floresce entre lendas ancestrais e o património da Humanidade.
Esta obra é composta por contos curtos, herdeiros da tradição de Jorge Luis Borges e influenciada pelo testemunho de Irene Vallejo. A sessão de lançamento de O Oeste Hipster, contará com uma conversa com o autor Francisco Teles da Gama, moderada por mim, no dia 30 de abril, em Lisboa (ver abaixo). Quatro escritores foram convidados a escolher e a ler contos da obra, que abordam temáticas da história, arte, mitologia, ténis e cinema: o premiado autor Nelson Nunes, os poetas Zé Bernardo da Fonseca e Pedro Brum da Silveira e o professor e curador Tomás Agostinho. O microfone ficará ainda disponível para quem se aventurar a ler uma das narrativas de Oeste Hipster.
O momento incluirá ainda o primeiro passo da FITA Press, nova casa editorial da instituição cultural FITA – Friends In The Arts, onde todos têm uma morada literária. A FITA Press dedica-se à publicação de obras literárias, do romance à poesia, e académicas, da monografia aos estudos interdisciplinares, movendo-se na constelação das Artes e Humanidades. Livros, revistas e catálogos que ecoam as vozes de escritores, artistas e investigadores internacionais, constroem uma ponte entre o gesto e a memória, num arquivo transversal que convoca o diálogo entre culturas e o avanço do conhecimento.
Francisco Teles da Gama nasceu na Batalha. Licenciado em História, é mestre em História Medieval e doutorando em História da Arte. Investigador no Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras de Lisboa e na Red Europea de Investigación del Tardogótico, desenvolveu trabalho de arquivo e investigação em museus e monumentos como a Peggy Guggenheim Collection, o Mosteiro da Batalha, o Museu de Lisboa, entre outros. Integrou a comissão para a candidatura de Leiria a Capital Europeia da Cultura 2027. Tem publicado contos e poemas em revistas e jornais como o Evelyn Waugh Studies. Fundador e diretor da FITA – Friends In The Arts e editor da revista internacional de artes e cultura FITA Magazine, foi o diretor musical de todas as edições do festival FITA Kiosk. O seu poema Soneto Espelhado do Poeta Eterno, integrado na peça The Banquet of Eternity, esteve em exposição no Pavilhão da Croácia, na Bienal de Veneza de 2024. No mesmo ano, publicou o romance de estreia Cantiga para Poeta em Águas-Furtadas.
Nesta conversa com a moderadora do debate de apresentação do livro, diz que os contos mostram momentos que ajudaram em Portugal a moldar a cultura hipster, que pretende propor um estilo de vida baseado em comportamentos não massificados. Através dos contos, diz, Teles da Gama procura “representar um mundo mais inclusivo e aberto”.
PERGUNTA – Francisco, o que te motivou a publicar um livro de contos sobre as raízes da cultura hipster?
FRANCISCO TELES DA GAMA – Acompanhei de perto o desenvolvimento da cultura hipster do século XXI, com o surgimento de escritores, bandas e artistas contrariados com a cultura de massas. Estava atento ao que melhor se produzia na música e literatura, procurando pelos nomes menos referidos na comunicação social.
Neste percurso, fui publicando contos em periódicos como o Jornal da Batalha, a convite do seu diretor Carlos Ferreira, e revistas, de que é o maior exemplo a FITA Magazine. Em quase todas essas histórias havia um denominador comum: a minha presença na narrativa. Eu era uma personagem ativa.
Este facto faz sentido, porque parte destas aventuras têm um fundo de verdade, portanto o leitor terá oportunidade de vislumbrar momentos insólitos e que ajudaram a moldar o percurso dos hipsters em Portugal.
A que espaço geográfico te referes? O Oeste Hipster é real?
Ao longo dos anos, várias pessoas questionaram-me de onde vinha, sendo um ser exterior a Lisboa. A minha resposta era a vila da Batalha e a cidade de Leiria, centro da região Oeste de Portugal. Por norma, ripostavam com a seguinte constatação: “Claro que és, vocês hipsters vêm todos de lá!”
Mesmo que eu não me insira em qualquer subcultura urbana, a sociedade afirma que sou hipster. A associação de Leiria com esta cultura é algo geral entre a geração millennial, obviamente, por boas razões. Leiria tem trazido a palco músicos irreverentes desde a década de 1990, dos Silence 4 aos First Breath After Coma. Além disso, é uma cidade que aposta na poesia, literatura e em festivais inovadores no nosso país. O Oeste Hipster é a região de Leiria, mas também Portugal, que se localiza no ponto mais a Oeste da Europa. Portanto, este lugar lendário representa-nos a todos.

Francisco Teles da Gama, autor de “O Oeste Hispter”. Foto: Direitos reservados
De que forma os teus contos foram recebidos e ecoaram na opinião dos leitores?
O Oeste Hipster contempla uma coletânea de trinta e oito contos, escritos entre 2016 e 2026, sendo as reações dos leitores das mais diversas e díspares. Lembro-me de ter escrito histórias completamente ficcionais que alguns leitores acreditaram ser reais. No conto Carta de Maputo, onde relatava o testemunho de um repórter de guerra em Moçambique, foi a primeira vez que percebi que este facto acontecia.
Mais tarde, escrevi sobre uma arqueóloga que descobria a espada do rei D. Dinis numa escavação do Castelo de São Jorge, em Lisboa, em O Conto das Portas de Veneza. Este acontecimento histórico teve lugar no Convento de Odivelas, mais de um ano depois de ter publicado a sua descrição.
Já o meu conto As Lentes Bifocais, foi lido pela [escritora espanhola] Irene Vallejo, [autora de O Infinito num Junco], que se viu refletida nas páginas, onde relatava casos de bullying na escola. Estes são apenas alguns exemplos da forma como a minha escrita impactou quem a leu.
Que influências literárias e musicais podemos encontrar nas páginas deste novo livro?
No campo da literatura, a mais evidente é Jorge Luis Borges, mas também Nikolai Gogol, Graham Greene, Jerome K. Jerome e Daphne Du Maurier. Se pensarmos em referências contemporâneas, não posso esquecer Amor Towles, Ilja Leonard Pfeijffer e Haruki Murakami.
Na música, é inegável o papel que bandas como The Kooks, Capitão Fausto ou Luís Severo ocupam na minha escrita. Também o jazz é fonte de grande inspiração para mim, através das composições de Chet Baker, Oscar Peterson e Miles Davis. De facto, a forma repentina e improvisada que emprego na escrita leva a que alguns leitores a apelidem de jazzística.
O que esperas que os leitores descubram neste velho novo Oeste?
Um espaço fértil de liberdade e criação artística, onde o humor é uma prioridade. Aqui, no Oeste Hipster, todos somos bem-vindos, ninguém fica para trás, porque na literatura não existem barreiras. Através dos meus contos, procuro representar um mundo mais inclusivo e aberto.
Apresentação do livro O Oeste Hipster, de Francisco Teles da Gama
30 de abril de 2026, 19h00
Livraria Good Company Books
Avenida Visconde de Valmor, 2
1000-291 Lisboa
Entrada livre
Edição do livro: Book Cover Editora e FITA Press










