O padre Arnaldo de Pinho, professor da Universidade Católica e cónego da Sé do Porto, morreu no passado dia 15 de maio, quinta-feira, aos 82 anos. Nascido em 22 de junho de 1942, em Moldes (Arouca), deixou um legado de pensamento, reflexão e acção cultural ímpares na Igreja Católica e na diocese do Porto que ultrapassam os limites da instituição eclesiástica. O 7MARGENS publica a seguir o segundo texto de uma evocação da sua personalidade e do seu pensamento.
O Doutor Arnaldo de Pinho (1942-2025) não era fácil de abarcar. Por isso, era colocado a uma certa distância por uns, era prudentemente evitado por outros. Ambos os grupos lhe temiam a lucidez. Mas ele era próximo de todos, sobretudo dos simples, embora sofresse com a lentidão alheia. Os que melhor o conheceram não dispensavam a sua companhia e sempre se tirava uma lição da sua sagaz observação da vida e do seu arguto juízo sobre os seus titulares mais visíveis, quer eclesiásticos, quer dos outros. Ave de voo crepuscular como a coruja de Minerva, sempre foi mantido numa prudente distância pelos homens de Igreja do seu tempo e nunca ousaram confiar-lhe missões mais altas. Ele teria sido um óptimo bispo, se houvesse mais grandeza de alma nos decisores que têm palavra nessas misteriosas escolhas. Poderia ter dado mais, se a tanto tivesse sido chamado. Mas as coisas são como são e a vida é o que é.
Na hora da sua morte, podemos dizer que ele serviu a Igreja do nosso tempo. Serviu sobretudo o apostolado da inteligência o que não é dizer pouco. A isso foi chamado e a isso correspondeu de forma superlativa.
Formado na teologia dos nossos seminários maiores, foi destinado ao estudo e ao ensino pelo Bispo do Porto de então, D. António Ferreira Gomes, tendo desenvolvido os seus estudos na Universidade de Estrasburgo. Aí contactou com as formas de fazer teologia, sobretudo pelos caminhos da fenomenologia e da hermenêutica. O seu centro de interesse não eram já os enunciados da fé e o seu rigoroso conteúdo, mas os actos de enunciação. Quer dizer, o centro da sua atenção começou a ser não o enunciado mas a enunciação, quer dizer, o modo existencial pelo qual o sujeito crente se instala no mistério da Palavra que se faz vida e história. Nesse sentido a sua teologia é moderna no melhor sentido. Não se trata de fundar o sujeito absoluto, mas de abrir o sujeito ao que o precede e o fundamenta. É o advento do sujeito pela escuta do texto e pela conformação com o Verbo que lhe está na origem. Muitos tiveram medo que esse caminho caísse no subjectivismo, mas não há outro caminho para o acto de fé. A cultura moderna tem virtualidades para crescer na fé e foram esses que Arnaldo de Pinho abriu de forma exemplar.

Essa formação deu-lhe meios para pensar a teologia e a pastoral como até agora mais ninguém fez entre nós. Foi essa opção que lhe deu meios para se abeirar do povo simples com a sua religiosidade popular e a purificar, para pensar a Igreja como comunidade confessante estruturada em serviços e ministérios diversos, na celebração da fé como forma estética da vivência do mistério divino. Foi também com esse método de escura que se abeirou da tradição portuguesa, fazendo uma análise do fenómeno da descrença dos nossos pensadores, do seu cepticismo em relação à fé e a Igreja histórica, distinguindo entre o anticlericalismo e a recusa de Deus, que não são a mesma coisa. Os seus estudos sobre Amorim Viana, sobre Leonardo Coimbra aí ficam como testemunho de uma teologia situada e que alguma vez hão-de dar frutos no futuro.
O trabalho de apostolado intelectual de Arnaldo de Pinho foi imensamente fecundo, não apenas na Faculdade de Teologia da Universidade Católica no Porto, de que é o principal fundador, mas também ao nível do contacto com os círculos de gente do que o Papa Francisco chama as periferias. Muitos amigos dele podem testemunhar a sua aproximação à fé. Poetas, artistas e intelectuais se aproximaram da fé por seu intermédio. Não por proselitismo, mas por verem como a obra de arte verdadeira se origina na experiência religiosa que é a fonte de todas as outras experiências. Muitos descrentes, como é o caso de Mário Soares, o tinham numa grande estima, pois encontraram na sua sábia companhia uma forma de entendimento humano que mostra como não se está longe do Reino quando se busca a autenticidade da vida.
O descanso eterno do Doutor Arnaldo, após meses de sofrimento inesperado, ficará na memória dos que o acompanharam e beberam da sua lucidez e da luz da sua palavra certeira e do seu juízo arguto. Até sempre!
Jorge Cunha é professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (UCP Porto) e membro do Cabido da Sé do Porto.










