O videoclipe da JMJ quer “chegar a todos”, mas há críticas porque “a família não está toda representada”

| 3 Fev 21

Hino JMJ, videoclipe

Imagem do videoclipe do hino da JMJ: “Os que aparecem deveriam continuar a aparecer, mas faltam lá muitos outros”, diz o padre António Pedro Monteiro. 

 

“Incomoda-me a invisibilidade. Se o vídeo é um cartão de visita, a família não está toda representada.” O padre António Pedro Monteiro, 37 anos, assistente espiritual no Centro Hospitalar e Universitário Lisboa Central, explica desta forma ao 7MARGENS a sua reacção ao vídeo de apresentação do hino da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), na sequência de um artigo que publicou no jornal digital Observador, criticando o que considera as “omissões” do filme.

Duarte Ricciardi, secretário executivo da JMJ, responde que este é o primeiro de vários vídeos e que o objectivo deste filme era chegar a todos, convidar os jovens do mundo a vir a Lisboa e mostrar uma imagem de alegria.

No texto citado, António Pedro Monteiro – de quem o 7MARGENS reproduz semanalmente o podcast Aquele que Habita os Céus Sorri – perguntava: “Quantos ‘bairros sociais’ tem a área metropolitana de Lisboa? Segundo o videoclipe, zero. Como se caracteriza o estereótipo ‘jovem católico de Lisboa’ no videoclipe? É branco, veste muito bem…”

Agora, diz o capelão hospitalar: “Se a JMJ é de todos para todos, falta lá mais gente… Os que aparecem deveriam continuar a aparecer, mas faltam lá muitos outros… Os que aparecem são os que têm mais poder, meios, oportunidades e possibilidades.”

No artigo, o capelão exemplificava os muitos jovens que, sendo católicos, não coincidem com a imagem tipo que aparece no vídeo. Mas, critica, “a opção foi levantar um obelisco à futilidade da juventude católica” e por isso se envergonha e não se revê na narrativa.

“Lamento que não se dê importância a miúdos dessas periferias todas”, comenta gora ao 7MARGENS. “Perdemos uma oportunidade de os envolver, perpetuando a ideia de que não é ainda a vez deles; à frente deles estão os normais, os habituais, os que têm sempre as melhores oportunidades…”

 

Com outros vídeos, haverá outras coisas
JMJ, Jornadas Mundiais da Juventude, hino, videoclipe

Gravação do hino das JMJ Lisboa 2023, em Torres Vedras, em Agosto de 2020. Foto © Filipe Amorim/JMJ.

O vídeo, geralmente muito elogiado nas páginas da JMJ nas redes sociais – Facebook, YouTube, Twitter, Instagram –, também recebeu alguns comentários críticos nessas páginas. Luís Almeida escrevia: “Muito bom! Mas penso que no vídeo deverão incluir outras etnias, já que é Jornada Mundial da Juventude e a Igreja Portuguesa é bem diversificada… Pensem nisso, será uma grande mais valia.” Júlio Travassos Júnior acrescentava: “Mostrou muito bem as belezas de Lisboa, mas senti falta de outras etnias/raças no clipe. Não há pessoas negras, por exemplo.”

No Público, a jornalista Inês Duarte de Freitas escreveu também um outro artigo, sem conhecer o do padre António Pedro, como esclarece ao 7MARGENS. Nele escreve: “O filme cumpre o propósito de mostrar uma Lisboa bonita e cheia de luz, como a conhecemos, mas falha no de mostrar outros tantos pontos fundamentais, não só do catolicismo, como do cristianismo, em geral.” E pergunta: “Onde está a oração? Onde fica a caridade? Onde está a diversidade do povo de Deus?

“Para nós, é fundamental a mensagem de que a JMJ é para todos”, responde Duarte Ricciardi ao 7MARGENS, confrontado com as críticas – que, diz, “devem ser usadas para aprender”. E acrescenta: “A JMJ é aberta a toda a gente e tudo o que fazemos é para ser inclusivo do maior número de pessoas, independentemente de onde estão ou da sua condição.”

Ricciardi, 36 anos, gestor no grupo Mello Saúde, agora a trabalhar a tempo inteiro para a JMJ, diz que este é o primeiro de outros vídeos, que mostrarão que a jornada é “para todos”.

Mas entre este filme e um vídeo promocional do Turismo de Lisboa, qual é a diferença? Ricciardi diz que não tem “capacidade técnica para responder”, mas o que se queria “comunicar era a alegria, a cidade e as pessoas, era convidar a vir a Lisboa”. Com outros filmes, haverá outras coisas, garante. E neste não se escolheram os protagonistas ou os lugares por serem “ricos ou pobres, mas por serem típicos” de Lisboa.

 

“Um vídeo para uma viagem de finalistas”
João Paulo Vaz, Pedro Ferreira, JMJ, hino

João Paulo Vaz (esqª) e Pedro Ferreira, autores do hino da JMJ Lisboa 2023: “A letra e a melodia lançam os jovens para a realidade”, diz o padre João Paulo. Foto JMJ Lisboa 2023. 

 

Sobre o vídeo, a produtora Inês Leitão, que já realizou vários documentários, entre os quais O Padre das Prisões e As Mulheres de Deus, diz que a sua mensagem é igual à do videoclipe de apresentação da JMJ, divulgado em Outubro.

“Os jovens vão à praia, dão bolos à senhora, é essa a juventude católica que temos? Não vejo um cigano, um negro… A realidade da pandemia, com cujas consequências ainda estaremos a lidar em 2023, não aparece aqui”, comenta ao 7MARGENS.

“Esta foi mais uma oportunidade subaproveitada, que o Turismo de Portugal agradece. A mensagem é redutora: não há bairros, não há uma Igreja que está no terreno, este é um vídeo para uma viagem de finalistas.”

Tecnicamente, ressalva, o filme tem algumas coisas “interessantes”, mas, mesmo assim, faltam “detalhes: olhares, entreajuda, mãos… Não há humanidade, porque não é isso que se pretende – o que se pretende é a beleza imediata.”

O padre João Paulo Vaz, autor da letra do hino, actualmente pároco de Pombal, não concorda com as críticas do seu colega António Pedro Monteiro: “É uma apresentação simples do local, com jovens do país que representam os de todo o mundo.” E defende que seria difícil colocar no filme “toda a realidade da pastoral juvenil do país”.

A letra e a melodia “lançam os jovens para a realidade”, diz o padre João Paulo, e esse é o objectivo. Sobre o seu texto, defende que ele fala do tema da JMJ – “levantou-se e saiu apressadamente” – e por isso deixa “em aberto” a ideia de “sair, de uma Igreja que não tem medo de sujar os pés, de ir ao encontro dos pobres e dos carenciados, ou de empenhar-se na crise climática”.

 

“Uma toada que se ouviu já e que pode voltar a ouvir-se”
JMJ, Jornada Mundial da Juventude 2023, Hino

Gravação do hino da JMJ: “Gosto de compor canções que possam ser cantadas por muita gente em ambiente de festa”, diz o autor da música. Foto © Filipe Amorim/JMJ

O compositor Pedro Ferreira considera que o padre António Pedro elogia o seu trabalho – “A música é boa, a letra mesmo com tantos clichés, era expectável, o arranjo está genial, o trabalho da equipa da música terá sido excelente”, escrevia o padre no Observador – mas não comenta o resto das críticas.

Responsável pela Academia de Música de Coimbra e membro de duas bandas (Anaquim e Banda da Paróquia), além de já ter composto músicas para telenovelas, Pedro Ferreira é também o coordenador da programação nacional da JMJ que antecede o fim-de-semana com o Papa em Lisboa. E diz que a música veio de um jorro: “Sentei-me, desenhei a melodia e depois a harmonia.”

Há proveniências muito heterogéneas na sua composição, admite. “Nasci em 1979, aprecio muitos tipos de música, é natural que haja aqui também muita coisa – pop, fado, jazz, clássica, erudita, minhota… Gosto de compor canções que possam ser cantadas por muita gente em ambiente de festa.”

“Para quem compõe é sempre muito difícil buscar originalidade no género, na melodia e na harmonia ao mesmo tempo”, diz. Por isso, opta por não ouvir nada quando tem de compor: “Não queria que houvesse semelhança com outras músicas, o hino precisa de autenticidade.”

A pedido do 7MARGENS, José Carlos Cantante, compositor de música litúrgica que tem influenciado gerações desde os movimentos de Acção Católica e da Capela do Rato, em Lisboa, nas décadas de 1970/80, analisou também a letra e música do hino Há Pressa no Ar.

“A poesia tem interesse, mas fica amarrada ao tema de Maria. Está certinha, embora em alguns versos um pouco forçada.” E se o autor da música admite o seu ecletismo, Cantante descobre duas semelhanças concretas na melodia: “Fez-me lembrar alguns andamentos de Jesus Cristo Superstar e a canção Sei Quem Ele É”, cantada por Madalena Iglésias. “É uma toada que se ouviu já e que pode voltar a ouvir-se.”

Será o caso, quando algumas centenas de milhar de jovens se juntarem em Lisboa, vindas de todo o mundo.

 

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