O vírus da fome e da pobreza: 50 milhões em risco em África, 45 milhões na América Latina

| 10 Jul 20

fome africa mulher Foto ONU Alexandre Soares

As mulheres, que muitas vezes ficam sem comer para poderem alimentar os filhos, correm um risco particular. Foto: ONU/Alexandre Soares.

 

Mais de 50 milhões de pessoas correm risco de fome extrema em África, devido sobretudo a conflitos, alterações climáticas, e “fracasso dos governos” em encontrar soluções para apoiar as populações, alerta a organização não governamental Oxfam. O risco aumentou devido à pandemia de covid-19, que na América Latina pode colocar na pobreza 45 milhões de pessoas, avisa entretanto a Organização das Nações Unidas (ONU). E nem os países ricos estão livres de perigo.

Segundo o relatório da Oxfam, intitulado “O vírus da fome: como a covid-19 está a aumentar a fome num mundo faminto”, divulgado esta quinta-feira, 9 de julho, entre os países mais afetados pela fome estão a República Democrática do Congo, a Etiópia, o Sudão do Sul, o Sudão, Burkina Faso, Mali, Mauritânia, Níger, Chade, Senegal e Nigéria. Só estes 11 países concentram 46,3 milhões de pessoas em crise alimentar.

Nestes países africanos, “as medidas para conter a pandemia afetaram o acesso aos mercados, a produção e os preços dos alimentos. O encerramento das fronteiras levou a aumentos acentuados no preço dos alimentos e dos produtos agrícolas importados em toda a região”, sublinha a Oxfam.

As restrições à circulação impediram também que milhões de pastores conduzissem o gado para pastagens no Sul, entre março e junho, ameaçando a sobrevivência de rebanhos inteiros.

“Milhões já estão a lutar para conseguir comer uma vez por dia. As mulheres, que muitas vezes ficam sem comida para poderem alimentar os filhos, correm um risco particular”, salienta a organização.

 

Ninguém está imune

A Oxfam alerta ainda para os “níveis crescentes de fome” em “países de rendimento médio”, como a Índia, África do Sul e Brasil, e destaca que “mesmo os países mais ricos do mundo não estão imunes” a situações de insegurança alimentar.

“A covid-19 está a agravar a crise de fome nos pontos críticos e a criar novos epicentros em todo o mundo. Até ao final do ano, 12 mil pessoas por dia poderão morrer devido a situações de fome relacionadas com a covid-19, potencialmente mais do que da doença”, afirmou a organização não-governamental.

“Dados do governo do Reino Unido mostram que durante as primeiras semanas de confinamento, até 7,7 milhões de adultos reduziram o tamanho das suas refeições ou não fizeram algumas e até 3,7 milhões de adultos procuraram alimentos em organizações humanitárias ou recorreram a bancos alimentares”, exemplifica a ONG.

No mesmo dia em que a Oxfam publicava o seu relatório sobre a fome no mundo, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, emitia um comunicado a alertar para o risco de a pandemia colocar na pobreza 45 milhões de pessoas que atualmente integram a classe média na América Latina e Caraíbas.

“Num contexto de desigualdades já gritantes, de taxas elevadas de trabalho informal e de uma fragmentação dos serviços de saúde, as populações e as pessoas mais vulneráveis são, uma vez mais, as mais afetadas”, disse António Guterres.

Com mais de três milhões de infetados com o novo coronavírus, dos quais mais de metade registados no Brasil, a região da América Latina e Caraíbas tornou-se neste momento o epicentro da pandemia da doença covid-19. México, Peru e Chile estão também entre os países mais afetados.

 

“Os que estão no topo continuam a lucrar”

De acordo com um documento dedicado às consequências da pandemia naquela região, divulgado por Guterres, as Nações Unidas anteveem que a taxa de pobreza nesta zona do mundo aumente 7% este ano (o que representa mais 45 milhões de pessoas), crescendo para um total de 230 milhões de pobres, o que representa 37,2% da população total que vive nos países da América Latina e Caraíbas.

Para contrariar esta evolução, a organização internacional defende que os governos devem fornecer um rendimento mínimo de emergência e subsídios contra a fome. António Guterres apelou ainda à comunidade internacional para que “forneça liquidez, uma assistência financeira e um alívio da dívida” aos países da região da América Latina e Caraíbas.

O mesmo pedido foi reforçado pela Oxfam, que no seu relatório defende que os governos devem “financiar em pleno o apelo humanitário da ONU”, “cancelar a dívida para permitir que os países de menor rendimento ponham em prática medidas de proteção social”, “apoiar o apelo da ONU para um cessar-fogo global” e “avançar com medidas urgentes para enfrentar a crise climática”.

Até porque, denuncia a Oxfam, “os que estão no topo continuam a lucrar”. De acordo com o relatório desta ONG, “oito das maiores empresas de alimentos e de bebidas pagaram mais 18 mil milhões de dólares (cerca de 15,9 mil milhões de euros) aos acionistas desde janeiro”, um montante que “é dez vezes mais do que o valor solicitado num apelo da ONU no âmbito da pandemia da covid-19 para impedir que as pessoas passem fome”, destacou a organização.

 

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