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400 mil deslocados

O vulcão Nyiragongo irrompe em mais uma tragédia no Congo

| 01/06/2021

Populações da região de Goma, no leste do Congo, em fuga do vulcão Nyiragongo. Foto: Direitos reservados.

 

Cerca de 400 mil pessoas estão a deixar as suas casas na região Leste do Congo, por causa das ameaças de mais erupções do vulcão Nyiragongo. As autoridades obrigaram à evacuação de dez distritos da cidade de Goma, situada a 20 quilómetros do vulcão, junto ao lago Kivu e à fronteira do Congo com o Ruanda.

Esta é mais uma tragédia a juntar à guerra, à pobreza extrema, ao trabalho escravo, aos surtos de ébola e covid, à depredação de recursos, aos cinco milhões de deslocados que já existem e outras calamidades que assolam a região. Até ao momento, a actividade vulcânica custou já a vida a pelo menos 30 pessoas, que morreram na sequência de uma erupção no dia 22, como recorda a Deutsche Welle, rádio pública alemã.

Muitos milhares puseram-se, entretanto, em fuga e o governador militar do Kivu Norte, tenente-general Constant Ndima Kongba, decretou a evacuação “obrigatória” dos 10 distritos da cidade, por receio de que possa ocorrer um desastre de consequências ainda mais dramáticas. A região continua a sofrer terramotos de até 4,5 na escala de Richter, com casas a cair como castelos de areia. A Cáritas Congo já referiu que os danos causados pela erupção vulcânica são colossais.

Antecipando uma nova possível catástrofe e de acordo com os vulcanólogos, as autoridades decretaram a saída da população para a cidade de Sake, disse Constant Ndima, citado pelo jornal digital congolês 7Sur7.

O militar apelou à saída calma e sem precipitação, mas as cenas dos últimos dias mostram que poucos o terão ouvido: muita gente amontou-se à espera de barcos, camiões ou carrinhas de transporte, em luta por um lugar.

“As pessoas devem levar o mínimo possível [15 quilos de bagagem, no máximo], para dar a todos uma oportunidade de embarcar e depois de terem tido o cuidado de fechar as suas casas”, acrescentou ainda o responsável, citado pela mesma fonte, garantindo que os serviços de segurança pública iriam patrulhar os bairros “para garantir a segurança de bens e pessoas”.

De acordo com Constant Ndima, a evacuação é obrigatória e as actuais actividades sísmicas na cidade indicam a presença de magmas sob o solo urbano de Goma com uma extensão equivalente à do Lago Kivu – ou seja, mais de 40 quilómetros.

 

Confiar poder aos militares, que violam os direitos humanos

Populações à espera de transporte, em fuga do vulcão Nyiragongo. Foto © ACN Portugal.

 

Enquanto o vulcão natural pode provocar um desastre, os outros vulcões já o fazem diariamente: a Rede de Paz para o Congo (RPC) avalia de forma muito negativa a militarização de todo o Leste do país, após mais de 20 anos de violência. No dia 6 de Maio, de forma a tentar resolver o problema da violência na região, o Presidente Felix Tshisekedi deu plenos poderes aos militares em Ituri e Kivu-Norte, a região onde se situa o vulcão Nyiragongo e a cidade de Goma.

“Parece surpreendente confiar plenos poderes aos militares, quando as forças de segurança nacionais parecem ser responsáveis por quase metade dos actos de violência cometidos”, assinala um comunicado da Rede, uma associação com origem nos missionários católicos italianos que trabalham na região Leste do Congo.

Neste documento, citado pelo serviço de notícias das Obras Missionárias Pontifícias, a Rede avalia um mês de militarização. O comunicado cita dados de Março passado, do Comité Conjunto das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), segundo os quais 47% das violações dos direitos humanos são cometidas por agentes estatais, ou seja, membros do exército e da polícia, e os restantes 53% pelos vários grupos armados.

“A concessão de plenos poderes aos militares é portanto”, diz o texto, “uma questão de grande preocupação não só para as organizações de direitos humanos, mas também para a própria população local”. Especialmente, acrescenta, porque as medidas tomadas no contexto do estado de sítio, ou lei marcial, têm sido particularmente radicais.

O comunicado cita ainda a Human Rights Watch, segundo a qual “as autoridades militares podem realizar buscas em casas particulares tanto de dia como de noite, impedir publicações e reuniões que possam ser consideradas violações da ordem pública, restringir a circulação e o movimento de pessoas, e deter qualquer pessoa suspeita de perturbar a ordem pública”. Além disso, os tribunais militares irão substituir os tribunais civis, o que a Rede contesta por ser “contrário às normas nacionais e internacionais”.

A RPC recorda ainda que “muitos soldados do exército congolês são antigos membros de grupos armados que aí foram integrados na sequência de sucessivos acordos de paz entre o governo” e esses grupos. “A integração de antigos membros de grupos armados no exército foi sempre um fracasso, tanto devido à sua falta de profissionalismo e disciplina, como devido à sua tendência para desertar novamente”, acusa a Rede.

Razões, acrescenta o texto, que levam a concluir que “tentar reconstruir a paz com os mesmos actores que semeiam o caos há vinte anos é uma aposta arriscada para o Presidente Tshisekedi”. A solução militar não tem em conta que “as causas da insegurança são, de facto, muitas: ausência de autoridade estatal, exploração ilegal dos recursos naturais, conflitos territoriais, rivalidades políticas, fracasso dos programas de desarmamento, desmobilização e reintegração”, acrescenta o documento, numa reafirmação do que tem sido denunciado por diferentes pessoas e grupos e que o 7MARGENS já referiu em outras ocasiões.

A destruição levada a cabo por esses grupos continua, aliás, a fazer-se sentir na região. Num depoimento em vídeo enviado à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, o bispo católico da diocese de Butembo-Beni, Paluku Sekuli Melchisédech, denuncia a destruição de escolas e hospitais. Professores, alunos e mesmo doentes nos hospitais – há pessoas mortas diariamente, diz.

“Muitos assistiram à morte dos seus pais, há muitos órfãos e viúvas. Aldeias foram queimadas. Estamos num estado de miséria total”, resumia o bispo, sobre uma situação que tem sido marcada, como recorda a mesma fonte, por conflitos étnicos, pilhagem de matérias-primas e o aparecimento de bandos armados, que muitas vezes se reivindicam do extremismo jihadista.

 

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