O texto a seguir corresponde à homilia proferida pelo padre Constantino Alves na eucaristia a que presidiu na noite de domingo, 16 de agosto, na Sé de Setúbal, em ação de graças pela vida de Eugénio Fonseca na véspera do seu funeral.
1. É à luz da Palavra de Deus que acabámos de escutar que somos convidados a relembrar e meditar sobre a vida e a partida do nosso irmão Eugénio.
Na primeira leitura, S. Paulo, tendo consciência de que caminhava para o fim da sua vida nesta terra, escreve ao jovem seu discípulo Timóteo, sobre a fé que professa, a tranquilidade que sente pela fidelidade à opção por Jesus Cristo e pelo Evangelho e a esperança que o anima:
“Se com ele morremos,
com ele viveremos”.
“Quanto a mim, já estou pronto para oferecer-me como sacrifício; avizinha-se o tempo da minha libertação. Combati o bom combate, terminei a corrida, permaneci fiel. A partir de agora, já me aguarda a merecida coroa, que me entregará, naquele dia, o Senhor, justo juiz, e não somente a mim, mas a todos os que anseiam pela sua vinda.”
Que serenidade, que tranquilidade de consciência, que confiança na vida de felicidade para além da morte, no nascimento para o Céu!
Na parábola do Juízo Final, Jesus aponta os critérios e as bases para a avaliação e juízo das nossas vidas. É bem claro que não estarão em primeiro lugar o culto, a quantidade e a grandiosidade de celebrações religiosas, os sacrifícios ou holocaustos.
Será o amor concretizado na abertura e acolhimento de coração, na proximidade com os mais necessitados e nas respostas concretas em seu favor.
2. O Papa Francisco, na sua primeira exortação, A Alegria do Evangelho, documento notável e programático em início do seu pontificado, escreve:
“186. Deriva da nossa fé em Cristo, que Se fez pobre e sempre Se aproximou dos pobres e marginalizados, a preocupação pelo desenvolvimento integral dos mais abandonados da sociedade.
198. Para a Igreja, a opção pelos pobres não é uma categoria ideológica é mais uma categoria teológica que cultural, sociológica, política ou filosófica. Deus «manifesta a sua misericórdia antes de mais» a eles.[163]
199. Cada cristão e cada comunidade são chamados a ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade; isto supõe estar docilmente atentos, para ouvir o clamor do pobre e socorrê-lo. Basta percorrer as Escrituras, para descobrir como o Pai bom quer ouvir o clamor dos pobres:…» (Ex 3, 7-8.10).
200. Jesus, o evangelizador por excelência e o Evangelho em pessoa, identificou-Se especialmente com os mais pequeninos (cf. Mt 25, 40). Isto recorda-nos, a todos os cristãos, que somos chamados a cuidar dos mais frágeis da Terra.”
E o Papa Francisco reforça os seus ensinamentos e orientações pastorais:
“201. Ninguém deveria dizer que se mantém longe dos pobres, porque as suas opções de vida implicam prestar mais atenção a outras incumbências. Esta é uma desculpa frequente nos ambientes académicos, empresariais ou profissionais, e até mesmo eclesiais.
207. E qualquer comunidade da Igreja (…) facilmente acabará submersa pelo mundanismo espiritual, dissimulado em práticas religiosas, reuniões infecundas ou discursos vazios… se não se ocupar criativamente nem cooperar de forma eficaz para que os pobres vivam com dignidade e haja a inclusão de todos.”
3. O Eugénio, nosso amigo e irmão, partiu para a Casa do Pai. Partiu à nossa frente um homem bom que sorria com o olhar duma criança!
Gratidão é o sentimento que perpassa pelas milhares e milhares de pessoas que com ele cruzaram suas vidas ou caminharam juntos. Gratidão pela pessoa que era, pelo que fez, pelo testemunho de vida em favor dos mais pobres, no combate à pobreza e na defesa e promoção da dignidade da pessoa humana, no serviço prestado na Caritas diocesana e nacional, na Confederação do Voluntariado em Portugal, em grupos e movimentos formais ou informais, a pessoas anónimas… impulsionando convergências entre crentes e não crentes, denunciando, reivindicando e propondo e participando nas iniciativas de terceiros que considerava importantes, apoio no terreno em situações de tragédias e catástrofes, e eu e a paróquia de N. Sra. da Conceição, também dentre tantos, manifesto o importantíssimo contributo na reflexão para as respostas sociais do Restaurante Social e da Clínica Dentária e pela sua fé que entendia como conformar a sua vida com o Evangelho.
Era publicamente e nos mais diversos foruns, um dos pilares de uma Igreja pensada e vivida tendo no centro um compromisso firme com os pobres. Homem de uma fé gigante, sempre aberta aos diálogos mais difíceis e às pontes mais improváveis.
Discípulo de D. Manuel Martins, seu pai espiritual e mestre, com ele aprendeu o que é ser cristão, discípulo de Jesus, calcorreando ruas e becos, entrando em casebres, aproximando-se de quem dormia debaixo da ponte ou nas bermas das estradas…
Percorreu o país de lés a lés, participando em conferências, colóquios, cursos… e desdobrou-se em esforços, iniciativas, eventos e publicação de livros para que a memória e atualidade do legado humano, espiritual, social e eclesial de D. Manuel Martins continuassem conhecidos e fossem mantidos vivos!
A sua grande paixão, o lugar onde ia buscar a profundidade dessa doação aos outros foi desde cedo o Evangelho e a Doutrina Social da Igreja ou o Pensamento Social Cristão, como ele gostava de dizer…
Como ele desejava, e se esforçou por isso, para que em todas as paróquias existissem cristãos que refletissem sobre a vida concreta e real dos pobres à luz da Doutrina Social da Igreja e, em conjunto, buscassem formas de intervir e agir!
E quando a sua alma estava perturbada e dilacerada, vivendo tempos de deserto (não raras as vezes pelos sofrimentos que lhe causavam certas incompreensões, críticas, calúnias ou por acontecimentos, atitudes ou algumas opções pastorais no seio da Igreja, partilhava suas tristezas, desilusões e sofrimentos) solicitava uma reflexão e pedia que rezassem por ele…, mas permanecendo sempre na sua Casa, a Igreja!
Um testemunho e um legado humano e cristão valiosíssimo que somos chamados a continuar para sermos dignos de relembrar sua vida e sua memória!
Unidos na fé e na esperança cristã, elevamos a nossa oração ao Senhor dando graças pelo dom da sua vida, pelo seu testemunho e por todo o bem que, através dela, foi semeado no coração de tantas pessoas e comunidades.
Que o Senhor nosso Deus conforte a sua família, suavize a sua dor e passe pelos seus corações uma brisa suave de ternura e amor.
Agradeçamos a Deus pelas maravilhas que nele e por ele realizou e dizemos:
Obrigado, Eugénio.
Pede ao Pai por nós todos.
Até à eternidade










