“Oh! Quem me dera ser como são as crianças!”

| 21 Ago 2020

“Oh! Quem me dera ser como são as crianças!” (Hölderlin)

 

Evangelho de Mateus 18, 3-5: “Em verdade vos digo, se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no reino dos céus. Quem, pois, se fizer humilde como este menino será o maior no reino dos céus. Quem receber um menino como este, em Meu nome, é a Mim que recebe.”

A infância é a idade sagrada. Não se pensa acerca de Deus, assimilamo-nos a Ele e Nele, naturalmente, tal como acolhemos, do mesmo modo, o sorriso, o colo e o afecto da nossa mãe – em primeiro lugar – e, depois, do nosso pai. Tal como olhamos o mundo, vivendo os instantes tão intensamente, que retemos alguns, na memória, para sempre:  uma janela aberta escancarada à luz do sol, num domingo, e os sinos da igreja a tocar; uma voz que nos chama; cerejeiras ladeando uma estrada; as perguntas que fazemos aos adultos: “- o que é o amor?”; “- quem é aquela que está no quadro?”; “- antes de nascer, onde estava?”…  Perguntas que deixam os adultos perplexos, embaraçados.

Na obra de Hans Urs von Balthasar: Se não vos tornardes como esta criança, (ed. Paulinas) que um padre jesuíta o orientador, nos deu a conhecer (e a ler) nuns Exercícios Espirituais, escreve-se na apresentação, de Henrique Noronha Galvão: há “uma experiência geral humana que se verifica na criança – aquela que cada um foi, aquela com quem cada um convive, aquela em que cada um é chamado a tornar-se” [e citando o autor da obra] “uma zona originária em que tudo se apresenta no que é reto, no verdadeiro e no bom, numa tranquilidade e segurança oculta”.

Na continuação da mesma passagem do Evangelho de Mateus (18, 10-11): “Livrai-vos de desprezar um só destes pequeninos, pois digo-vos que os seus anjos, nos céus, vêem constantemente a face de Meu Pai… porque o Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido.” É dada às crianças uma honra especial, no Reino, estando mais próximas do Pai. Ao longo da obra, Hans von Balthasar, teólogo de renome, associa a criança que Jesus acolhe nos braços a Ele mesmo, “Filho único do Pai”, desenvolvendo uma tese trinitária. Na idade adulta, segundo o autor, o homem deverá preservar os “bens santos supraéticos próprios da origem”. Ou seja, como é dito na apresentação citada, deve-se “simultaneamente ser criança e adulto, uma síntese que constitui a perene juventude dos santos”. Segundo von Balthasar, “existe entre mãe e filho, que ela traz no seio, uma identidade arquetípica, não só fisiológica. Há na criança uma intuição, “uma abertura ao ser e a Deus que dá sentido à sua vida, indissociável do amor dos pais” na fase inicial da sua vida.

A criança tem experiências místicas – quando tinha cinco anos, gostava muito de ficar de manhã cedo, na cozinha, só, absorta; deliciada, encolhida, no chão, a ver/ouvir, em silêncio, sem pensar em nada, o murmurar da chama de gás no fogão; uma única vez, durante escassos segundos, numa missa cantada, com o incenso a reforçar um ambiente diferente, senti uma espécie de arrebatamento que não esqueci, mas não sei descrevê-lo, nem tal coisa interessa. Há o caso dos três pastorinhos de Fátima – três crianças (simultaneamente – é caso raro – embora em graus diferentes), tiveram várias visões marianas – e muitos outros, pelo mundo fora.

Lendo as vivências infantis de Thomas Merton (La Nuit privée d’ étoiles, suivie da la Paix Monastique, ed. Albin Michel) – que não teve uma educação religiosa, note-se – aos cinco anos, ouviu os sinos de uma igreja, perto de casa, num domingo de Páscoa e interrompeu as brincadeiras, ficando atento e imóvel a escutar. De repente, as aves cantaram nas árvores, misturando os cantos com o dos sinos: “…e o meu coração inebriou-se de alegria” e disse ao pai: “Todos os pássaros estão na igreja deles. Porque não vamos à nossa?” O pai respondeu-lhe: “Vamos noutro domingo; hoje já é muito tarde.”

As crianças vivem o presente (kairós, em grego clássico), cada instante – que não se repete – profundamente, como os místicos. Realizam plenamente cada acto, sem pensar “noutra coisa”, como fazem, em geral, os adultos. Escreve H. von Balthasar: “A criança tem tempo, um tempo incalculável, não armazenado com avareza, mas recebido e aceite com tranquilidade (…) o instante é pleno, porque nele se concentra o tempo inteiro.”

Por tudo isto, acho lamentável que seja minoritária a educação religiosa na infância. É neste momento que há uma recepção natural e profunda ao religioso, à espiritualidade. De um modo concreto e absoluto. A resposta de muitos pais – infelizmente bastantes – a esta questão é que o seu filho escolherá, quando adulto, ser ou não religioso. Nunca tal acontecerá, salvo em casos muitíssimo raros. Como se a religião e, em particular, a tradição judaico-cristã, na Europa, fosse uma peça de roupa que se escolhesse numa loja ou um prato num restaurante ou até nos livros.

Estou convencida que foi essa marca cristã, a educação que eu assimilei ao longo da minha infância e adolescência que não me fez esquecer a figura de Jesus – continuando a ler sobre Ele, a partir dos 40 anos, com renovado interesse – e após labirintos e encruzilhadas, regressar, após longa jornada, a Casa, ao cristianismo. Não somos nós todos peregrinos? Não procura o Pastor a ovelha extraviada e deixa as noventa e nove no monte?

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário; foi monja budista zen e integrou a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.

 

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