Oh! teu nome faz-se à fome com rochedo e mel

| 29 Jun 2023

[Nascimento de S. João Baptista – Solenidade 2023]

[água e palavra / oh! margens impossíveis ― / que ponto de encontro! © haicai e fotografia: Joaquim Félix]

1. Que fonte de prazer é para nós celebrar neste ponto de encontro,
na confluência dos ribeiros, ao ar livre, aberto às fragâncias de eucalipto…
com a sonoridade da água em fundo contínuo!
Fizemos a procissão desde a igreja paroquial até ao alto de S. João,
como quem sobe às antigas raízes da nossa comunidade, Fragoso,
à ermida de S. Vicente e à fonte de Santa Isabel.
Aqui, como saberemos, em 1127, D. Afonso Henriques,
ainda infante, concedeu à Ermida de S. Vicente de Fragoso
Carta de Couto com a Demarcação de limites.
É o primeiro documento conhecido de D. Afonso Henriques.

2. Pois bem, celebremos então com solsticial alegria,
nesta atmosfera cósmica na qual o céu, as árvores e águas participam,
a solenidade do nascimento de S. João Batista.
Por norma, a Igreja celebra não o nascimento, mas a morte dos Santos,
o seu ‘dia natal’ (dies natalis), na perspetiva da fé na ressurreição.
Porém, hoje celebra o nascimento de João, o único além do de Jesus.
Porquê? Porque o Percursor é o ponto ‘charneira’ entre as Alianças.
Santo Agostinho, num dos seus sermões, refere-se a esta ligação com a feliz analogia:
«João apareceu como o ponto de encontro entre dois testamentos, o Antigo e o Novo.
O próprio Senhor o testemunha quando diz:
‘A lei e os profetas até João Baptista’.
João representa o Antigo e anuncia o Novo.
Porque representa o Antigo, nasce de pais velhos;
porque anuncia o Novo,
é declarado profeta quando ainda está nas entranhas de sua mãe» (Sermão 293).

3. O santo hiponense continua, no seu sermão 293,
a meditar no simbolismo que tais factos representam.
Hoje, porém, prefiro valorizar outras dimensões,
mais aderentes às circunstâncias da nossa época.
Voltemo-nos, por conseguinte, para a pregnância do Evangelho.
Todos os nascimentos deveriam suscitar renovada alegria em Jesus.
Porque os filhos são «grande benefício» (Lc 1,58) de Deus.
Envelhecida como está, à semelhança de Isabel e Zacarias,
a sociedade precisa de combater muitas ‘esterilidades’.
Imagino que já reparastes com quanta alegria sensível
em nossos dias as pessoas olham para as grávidas, raras e mais adultas.

4. De facto, como recordou recentemente Miguel Morgado,
numa conferência, feita no Dia Nacional da Faculdade de Teologia,
o inverno demográfico, que se vive na Europa,
é um dos sinais da falta de esperança no futuro
e uma forma evidente de negação da memória.
Segundo ele, isto deve-se à falta de relação com os visavós e avós,
e à falta de filhos e netos, o que daria um arco de cem anos…
Tal redução do alargamento da memória, ao passado e ao futuro,
estará na origem de um excesso de ‘investimento’ no corpo,
assumido mais como um ‘suporte’ sem transcendência;
‘ídolo’ exposto a todo o tipo de experimentalismos,
ao qual, de forma hedonista e descomprometida com o futuro da comunidade,
se presta uma espécie de ‘culto das relíquias’ aos últimos resíduos biológicos.

5. No mês passado, o Papa Francisco, preocupado com este desafio,
participou na III edição dos Estados Gerais da Natalidade,
promovida pelo Fórum das Associações Familiares, em Roma,
cujos objetivos principais consistiam em alertar
para o futuro demográfico na Itália e no mundo.
― De recordar que a Itália é dos países
que tem dos índices mais baixos de natalidade,
atingindo recordes negativos, abaixo dos 300 000 nascimentos ano ―.
O nascimento dos filhos é, segundo o Papa,
o principal indicador do índice de esperança de um povo.
Sem filhos não há futuro.
Sem esperança no futuro não há filhos.

6. Bem sabemos com quantas dificuldades
os jovens adultos se debatem neste momento para terem filhos:
elevado desemprego e contratos de trabalho precários;
carreiras profissionais asfixiantes que dificultam a maternidade;
carências económicas, salários baixos e mobilidade laboral,
que tão-pouco permitem acesso à construção ou arrendamento de casa;
sem esquecer, claro, a falta de expectativas num futuro promissor…
E não será só por causa das dificuldades nos serviços de obstetrícia,
que, todavia, também não ajudam a alimentar uma boa expectativa.
É, pois, importante encontrar nas instituições, sobretudo do Estado,
apoios cada vez mais sensíveis, não só económicos,
para promover a natalidade com uma filosofia política de longo alcance.
A Igreja terá, também, de estimular mais a esperança
com que se faz o planeamento familiar, por exemplo.
Não é com tristeza e apreensão que vivemos
esta esterilidade e o envelhecimento social?

6. Uma segunda nota, prende-se com o nome de João Batista.
Na cultura judaica, o nome dos rapazes era imposto no oitavo dia,
por ocasião dos ritos da circuncisão.
Os vizinhos e parentes de Isabel e Zacarias
queriam dar o nome do seu pai ao menino.
Perante este desejo, Isabel intervém decididamente e diz:
«Não, ele vai chamar-se João» (Lc 1,60).
Eles tentaram demovê-la recorrendo à autoridade do marido,
mas em vão, porque o pai, emudecido, escreveu na tábua:
«O seu nome é João» (Lc 1,63).

7. Impressiona este «não» rotundo, logo confirmado por Zacarias.
O «não» de Isabel tem um alcance extraordinário:
ela disse «não» a certas tradições do Antigo Testamento, da Lei antiga,
para abrir as portas do Novo Testamento, à nova Lei, ao amor.
«Todos ficaram admirados» (Lc 1, 63) com a sua decisão,
porque inesperada, para mais de uma mulher, note-se, e naquele tempo.
A força do ‘não’ de Isabel poderia animar-nos,
para negar solicitudes e desejos familiares e sociais instituídos no passado,
que já não fazem sentido no tempo presente.
E, sem medo, inaugurarmos costumes novos, novos, novos,
inspirados na novidade de Jesus, para ‘conversão pastoral’,
sempre em atenção à «graça que Deus faz» (significado de ‘João’) hoje.

8. Olhai, hoje, iremos fazer, desde esta pequena ermida,
em vez do tradicional sermão (nada temos contra sermões bem feitos)
― é algo de experimental, e já veremos o resultado ―
um Officium declamationis (Ofício de declamação) devotado a S. João Batista,
com a ajuda do coro e de cinco jovens da paróquia:
a declamação de dois hinos da Liturgia das Horas;
a leitura de parte de um belíssimo poema de Thomas Merton;
a leitura de uma homilia de São Beda Venerável, do séc. VIII,
e da letra de uma canção de Samuel Úria: «É preciso que eu diminua».

Por fim, quem desejar, poderá, durante a tarde, passar pela capela
e contemplar uma instalação de videoarte, da autoria de Bill Viola:
a qual designou como «Uma espécie de Batismo»

Nem precisamos de convidar o Paulo Pires do Vale
para comissariar esta projeção, mas viria se o tivesse interpelado.

9. O nome «João» significa em hebraico «Deus faz graça».
É um nome destinado a ressaltar essa graça desde o deserto:
«Oh! teu nome faz-se à fome com rochedo e mel»,
poderemos ditá-lo, conforme o último verso de um poema de Verna
[Joaquim Félix de Carvalho, Verna, Porto: Officium Lectionis, 25].
Dar nomes é uma ação importantíssima, exigente.
Quem não recorda aquela canção com que António Variações,
cantor natural de Fiscal, Amares, ironizava com os novos nomes
de inspiração extravagante?
«Maria Albertina», recordo o título:

Ainda bem que, atualmente, e cada vez mais,
voltamos à densidade dos grandes nomes, atribuídos no batismo.
De facto, «na relação pais-filhos, gerar implica dar o nome.
E dar o nome é fazer uma promessa e assinalar uma tarefa:
Tu viverás a tua vida, viverás no teu nome, realizarás a tua unicidade.
Dar o nome é exercer um poder e uma autoridade
dispondo-se a esvaziar-se de tal autoridade e de tal poder» (Luciano Manicardi).

10. Deus faz graça a partir da esterilidade de Isabel e Zacarias.
Deus faz graça desde o deserto, onde João Batista se adentrou.
Para que Deus em nós faça graça,
precisaremos de colocar em prática o que fazia João
e Samuel Úria canta: «É preciso que eu diminua».
Admitindo, porém: «mas só sei crescer. Eu só sei crescer».
Por isso, peçamos a conversão das nossas esterilidades,
por intercessão de São João Batista,
com as palavras de Thomas Merton,
monge trapista que foi, na Abadia de Gethsemani, no Kentuchy:
«Esperamos a tua intercessão:
Ou devemos morrer sem a misericórdia à beira dessas margens impossíveis?
Acende, acende neste deserto
Os rastros dessas fogueiras maravilhosas:
Purifica-nos e guia-nos na nova noite, com o poder de Elias
E encontra para nós os cumes do amor e da oração
Que a Sabedoria quer de nós, oh amigo do Noivo!
E leva-nos para as tendas secretas,
Os sagrados, inimagináveis tabernáculos
Que ardem sobre as colinas do nosso desejo!»

[Thomas Merton, Brucia, invisibile fiamma (Bose: Ed. Qiqajon,1988].

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais  VERNA. Este texto corresponde à homilia Nascimento de S. João Baptista – Solenidade 2023.

 

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