Oiça-se a cultura!…

| 25 Mar 2022

menina bandeira ucrania paz foto maximilian 100 deposit photos

“Importa tudo fazer para acolher e ajudar quem a guerra persegue e mata.” Foto © Maximilian 100 / Depositphotos.

À Memória de Jorge Silva Melo

Quando Jorge Silva Melo, ao longo da sua vida, apelava à Cultura, fazia-o porque acreditava na palavra e na sua força pacificadora – por isso invocamos o Padre António Vieira, hoje. Atravessamos um dos momentos mais dramáticos desde a Segunda Guerra Mundial. Ouvem-se muitos comentários, diversas lucubrações, mas nenhuma tão terrível e tão certeira quanto esta citação de um dos mais célebres sermões do Padre António Vieira.  “É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos. As cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades em que não há mal algum que se não padeça ou se não tema, nem bem que seja próprio e seguro: o pai não tem seguro o filho; o rico não tem segura a fazenda; o pobre não tem seguro o seu suor; o nobre não tem segura a honra; o eclesiástico não tem segura a imunidade; os religiosos não têm segura a sua ceia; e até Deus, nos templos e nos sacrários, não está seguro” (1668, Sermão histórico nos anos da Rainha D. Maria Francisca de Sabóia).

Sentimos, perante o que ouvimos, a angústia do muito pouco que podemos fazer para ajudar as vítimas, para minorar as tragédias, para prevenir as consequências ou, quem sabe, para contribuirmos para a Paz. Não cabe aqui a referência às razões ou o enunciar das causas e dos remédios. A verdade é que a Ucrânia foi invadida. Houve quem esperasse que tudo fosse rápido e as reações diminutas, uma vez que a surpresa poderia dar origem à indiferença. Mas não foi assim. O monstro da guerra não se dissimulou e a resistência apareceu e reagiu. Mesmo para os que julgavam poder aparecer como supostos libertadores, aconteceu o que tantas vezes ocorre em circunstâncias semelhantes – o sentido de comunidade, a defesa da casa, a solidariedade prevaleceram. Afinal, a guerra é a calamidade composta de todas as calamidades, que a todos atinge, em que “não há mal algum que se não padeça ou se não tema”.

Quem julgou que uma qualquer fidelidade política poderia prevalecer, enganou-se, uma vez que, em se tratando de humanidade, o que importa é o sentimento que une os corações. Nesse sentido, temos de partir da imperfeição humana, para a exigência de que temos tudo fazer para que a entrega e a entreajuda tenham resultados práticos. E como ensinou Paul Ricoeur não podemos esquecer que a noção de amor cristão, de entrega e de troca não se limita à solidariedade, abrangendo o cuidado ou caridade, a maior das virtudes. Enquanto a solidariedade se refere aos sócios, aos membros da sociedade que partilham objetivos e interesses comuns e são corresponsáveis pelo bem comum; o cuidado ou caridade refere-se aos irmãos e aos próximos, e então falamos do amor cristão na sua plenitude, que obriga a fazer da dignidade humana uma entrega efetiva e generosa.

O Papa Francisco tem afirmado que: “Quem faz a guerra esquece a humanidade. Não parte do povo, não olha para a vida concreta das pessoas, mas coloca diante de tudo interesses egoístas, de parte e de poder. A guerra baseia-se na lógica diabólica e perversa das armas, que é contraditória com a vontade de Deus. E assim vai contra as pessoas comuns, que desejam a paz; e que em cada conflito são as verdadeiras vítimas, que pagam as loucuras da guerra com a própria pele”. E eis que os homens e as mulheres de boa vontade se viram para o Papa, para que a sua voz e o seu exemplo possam constituir fatores que permitam uma inversão dos acontecimentos no sentido da paz. É preciso romper com a lógica da fatalidade da violência. Por isso, com o coração dilacerado pelo que está a acorrer na Ucrânia, o Papa não esquece as guerras em outras partes do mundo, como no Iémen, na Síria, na Etiópia e o que se exige para romper com a escalada da barbárie.

“Calem-se as armas! Deus está com os construtores de paz, não com aqueles que usam a violência” – insiste o pontífice. “Porque aqueles que amam a paz, repudiam a guerra como instrumento de ofensa à liberdade de outros povos e como meio de resolver disputas.” E assim não esqueçamos o mote da Mensagem do Papa Francisco nesta Quaresma de 2022: “A Quaresma é um tempo favorável de renovação pessoal e comunitária que nos conduz à Páscoa de Jesus Cristo morto e ressuscitado. Aproveitemos o caminho quaresmal, para refletir sobre a exortação de São Paulo aos Gálatas: ‘Não nos cansemos de fazer o bem; porque, a seu tempo colheremos, se não tivermos esmorecido. Portanto, enquanto temos tempo (kairós), pratiquemos o bem para com todos’” (Gal 6, 9-10a). Nesta conjuntura, isto significa não baixarmos os braços. Importa tudo fazer para acolher e ajudar quem a guerra persegue e mata. Há muito a fazer, mas assalta-nos a sensação de que somos incapazes de estar à altura dos acontecimentos… Tudo começa agora!

 

Guilherme d’Oliveira Martins é administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian. Contacto: gom@cnc.pt

 

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