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Mark Rothko, sem título, 1951 (pormenor)

Ensaio

Oitavo dia: Brancura luminosa

| 20/03/2025

Do grande medo à acalmia dos corpos trémulos, é sempre uma viagem inesperada que nos alcança

[Jean Abélard-Aloé].

 

Como podem os olhos de carne ver a «luz incriada»? «Por um poder que não era o dos sentidos», «por uma transformação da actividade dos seus sentidos (sentidos corporais) produzida neles pelo Espírito», escrevia o padre oriental Gregório Palamas. Os sentidos corporais, o corpo, que participam na deificação do ser humano total (espírito, alma e corpo), tornam-se sentidos espirituais, tal como a água e o pão se tornam algo mais do que mera matéria. É o destino do ser humano crente que está em jogo: o corpo não ressuscitará no último dia? Por que razão negar-lhe então a participação na visão do que será já aqui neste mundo? Sentimos ainda a explosão resplandecente do corpo glorioso que irradia da intensa paisagem visual do Evangelho da metamorfose crística? Sentiremos ainda a simplicidade desta luz absoluta ou dormitaremos como se tudo parecesse um sonho? Deixamos que a voz da nuvem nos fale às vísceras ou enchemo-la imediatamente com as nossas certezas cognitivas e espirituais? É o poeta Miguel Torga que nos diz: «Só quem sobe à montanha toca o céu! / Na terra chã ninguém se transfigura».[1]

Perante a passagem anunciada pela festa da transfiguração ou da metamorfose do rosto de Jesus à luz do sol (o termo usado no texto grego de Mateus é metemorphôtê), penso sempre nos quadros ou ícones luminosos do artista russo-americano Mark Rothko, que são verdadeiros corpos de luz atravessados por uma subtil fenda horizontal de azul-celeste, entre sangue e vida, presença e ausência. O divino num pequeno fragmento de matéria! Uma visão de cor, de alegria, que dilata os nossos olhos e os nossos corações. Que emoção, que emoção, choramos de alegria, saímos transfigurados ao contemplar isto… Mais do que a demonstração da existência de Deus, é a contemplação do mistério da sua presença que nos interpela. É o mistério da visão do amor louco de Deus. Só o amor dado e incondicional nos transfigura e deifica. «Ele quis convencer-nos de que nos ama loucamente. Por isso inventa esta humilhação, coloca-se num estado de sofrimento e de tormento, para convencer do seu amor aqueles por quem sofre apaixonadamente, para poder atrair os homens a si…» (Nicolau Cabásilas, XIV.e século).

Mark Rothko, sem título, 1951

Mark Rothko, sem título, 1951

Há também toda a tradição viva dos ícones bizantinos da transfiguração, da verticalidade na horizontalidade, da imanência na transcendência, do Verbo que se faz carne radiosa, que habita a nossa própria carne. A «alegria espaciosa» (Jean-Louis Chrétien) que emerge desta figura transfigurada de Cristo para abrir espaços de vida nova em nós. Jesus, o Pleroma: toda a criação na sua união em Cristo. Tudo está suspenso diante dos nossos olhos! Sem imagens, sem sons, sem alarido, sem palavras, apenas o meio-silêncio da vida radiante e pulsante do kabod (glória) de Deus no toque amante de Jesus. Lux aeterna na opacidade, como o quadro nº 8 de Rothko, para olhar «Jesus, só». No momento, vemos esses efeitos, a sua sombra, a sua voz, a presença de uma ausência por baixo de tudo. Olivier Clément, falando dos ícones da transfiguração, dizia: «Se a luz da Ressurreição pode abraçar o coração, e até mesmo transfigurar o corpo, ela só pode ser recebida na fé, na humildade e no serviço paciente aos outros».[2]

Essa misteriosa energia vulcânica de raios de luz indelével atinge os olhos dos discípulos (e os nossos?) prostrados no chão ou em fuga, como a sarça ardente, à escuta de uma voz baptismal, à sombra do Invisível que se tornou visível, como um amor que arde sem se ver e dura até ao fim. Vemos a luz que sai do quadro/ícone em direcção ao observador. Vemos o despedaçamento da morte na própria morte. A aurora de um novo mundo incorruptível. O corpo glorioso onde se reúne toda a criação, o ser total de Deus (sétimo dia do repouso divino), a Lei (Moisés), os Profetas (Elias), a Sabedoria de Cristo (Escritos), o novo mandamento do amor, a Promessa de que o amor é tão forte como a morte. «Esta luz é a energia na qual Deus se dá por inteiro, e a sua visão constitui o ‘face a face’, o mistério do Oitavo Dia e o estado de deificação […] O ícone mostra-nos Cristo aparecendo aos apóstolos na ‘forma de Deus’»[3]. É a luz do reinado divino.

É a Festa da Transfiguração, um espectáculo de luz divina visível aos nossos olhos, passando pela luz da kénosis no coração dos nossos corpos, do tempo e do espaço! «Levanta-te e não temas». Qual é o medo que nos imobiliza e paralisa? O Transfigurado que nos toca transfigura os nossos fantasmas, os nossos sonhos, os nossos pesadelos… Desperta-nos do sono profundo da angústia, da inquietação, da melancolia e do tédio. Diante dele, os nossos olhos erguem-se. É a promessa do Reino, de uma vida transfigurada, sempre nova. É um novo sentido da divindade, já não distante, intocável, totalmente invisível, mas o nosso outro, o nosso próximo, uma presença sensível no coração do mundo. «Procurai e encontrareis», disse o Mestre, ou como disse o capitão Nemo na Ilha Misteriosa, de Júlio Verne.

Perante esta aparição deslumbrante, como pode haver transfiguração sem pessoas transfiguradas? «Levantai-vos e não tenhais medo» (Mt 17,8)! Como acreditar neste acontecimento sem precedentes, em que a Páscoa do futuro é anunciada no mais alto dos montes? Maravilhado com a visão e as suas cores, Pedro quer ficar ali, a montar as tendas, numa contemplação extasiada e algo narcisista. Mas também ele tinha de ousar descer da «montanha mágica» (Thomas Mann), reencontrar o mundo e descer ao seu inferno; precisava da universalidade da Ressurreição para todos os homens e para toda a criação, do dom gratuito do tesouro que tinha encontrado. Amar o céu ou amar a terra? É uma falsa oposição! Deste encontro, um novo espaço gozoso, uma terceira via se abre: alcançar o céu através da Terra! Há também uma comunhão com Deus através da Terra. «O homem deve estar próximo do Verbo, ser advérbio, portanto. Tal como o Verbo está próximo de Deus, também nós somos advérbios, juntos do Verbo», diz Mestre Eckhart. Se há realmente transfiguração, nós próprios nos tornamos advérbios de Deus, carne viva, comunicando comunhão, levando ao mundo um novo estilo de ser, de crer e de viver juntos, mais simples e mais generoso. Esta é a Parusia real do Adveniente, d’Aquele que vem à comunidade (política, religiosa, estética…) a vir e por vir, em caminho, em êxodo para as margens, o anúncio da transformação: a manifestação da presença universal de Cristo em todas as coisas e em todos os humanos!

 

É uma celebração, uma festa de transfiguração, e não uma tragédia. Uma festa de rostos alvejados e refrescados e de presença no mundo que dignifica as feridas humanas carregadas de excessos vários. É a festa da transfiguração que prefigura o futuro drama da cruz que, segundo o antropólogo René Girard, «não é apenas o saber sobre Deus, é antes de mais um saber sobre o homem».[4] É a celebração da resistência da eternidade no tempo e do bloqueio do mecanismo mimético que violenta as vítimas singulares da história universal. Será esta também a nossa transfiguração? Que hoje as nossas bocas se abram somente para o elogio do silêncio; que os nossos corpos se exprimam numa dança de gestos simples e puros; que o nosso silêncio se estenda até ao infinito do mar e das estrelas; que o nosso coração se faça carne onde há uma pedra pesada; que os nossos olhos sejam límpidos como a água do rio para ver a beleza dos que nos são próximos; que os nossos pés descalços percorram livremente o caminho prometido sem o peso do consumismo que cansa e fatiga o próprio repouso, nos afasta dos outros e nos aprisiona na auto-suficiência da indiferença diante do mal absoluto que nos acomete e acomete a vida do mundo; que as nossas mãos se abram como os troncos das árvores para sermos dom total para alguém, para aqueles que estão longe ou afastados de nós, dos nossos ideais ou das nossas práticas.

É a festa da Transfiguração! Que todo o nosso ser se renove no corpo luminoso de Cristo que nos trespassou, passando e fazendo o bem no mundo. Que o homem velho se transforme num homem novo, que a memória do futuro seja a memória dessa luz que vem desde a fundação do mundo e que nos torna luzes frágeis na luz incriada absoluta. Montemos as nossas tendas nos desertos áridos da vida contemporânea, onde Deus acampa na angústia e na aflição quotidianas e nos dá a sabedoria e a coragem de perdoar até ao imperdoável.

Não nos fará esta passagem da transfiguração lembrar a famosa parábola do conto de Kafka, A Metamorfose, e o perigo de uma fé destilada, sem transfiguração e presa a fórmulas ocas, sem humanidade? A Metamorfose é a história da desumanização progressiva de Gregor, transformado primeiro num insecto, progressivamente privado de todo o contacto com os humanos, e finalmente transformado num cadáver «liso e seco», «a coisa do lado». Em contrapartida, só ele conserva um espírito humano num corpo animal assim transformado pela mecanização das nossas relações violentas, por vezes humanas, demasiado humanas.

Se o dia brilha na noite, aprendamos então a ver a luz na escuridão, as brechas de luz que passam no negrume do abismo, a ver o «Outrenoir» dos vitrais de Pierre Soulages, para além da noite cerrada. Como afirma o vitralista francês: «O meu negro é de onde vem a luz»; a «noite escura» do poeta e do místico atravessada por uma discreta, subtil e invisível luz radiosa e graciosa que transfigura o caos humano em vida nova. Se a Ressurreição visita a nossa cruz e a de todos os humanos, no seu sofrimento físico e psíquico, então o cansaço do consumo dos bens terrenos e dos bens culturais transformar-se-á em novos campos de lírios brancos no meio das cidades sobrelotadas e sobreaquecidas pelo esplendor da crise climática sem retorno. Que o Reino venha e se cumpra entre e em nós. Que o Sopro do Espírito que tudo renova, que abre em nós tesouros novos e antigos, transforme a nossa carne frágil num anseio de uma nova Páscoa. Como escreve René Girard, «Jesus provoca dissensões por onde quer que passe. A irrupção da verdade destrói a harmonia social fundada na mentira da unanimidade violenta».[5]

 

Para a noite estrelada da transfiguração em que o desejo do céu estrelado nos chega e abre a noite ao despertar da nova aurora do mundo, fica-nos a bela e profunda oração do jesuíta e cientista Pierre Teilhard de Chardin, intitulada «Meu Deus, fazei brilhar em mim o vosso Rosto na vida do outro», composta por ocasião da festividade da transfiguração, a sua festividade ritual predilecta:

Espírito ardente, Substância profunda, Força imensa e viva, Centro deslumbrante, Poder tão implacável como o mundo e tão quente como a vida, Termo e Emissor do mundo, Tu, cujas Mãos aprisionam as estrelas, Tu que és o Primeiro e o Último, o Morto e o Ressuscitado, Tu que reúnes na tua exuberante Unidade todos os encantos, todos os gostos, todas as forças, todos os estados, é a Ti que o meu ser chama com um desejo tão vasto como o Universo, Tu, meu Senhor e meu Deus! Salvador da actividade humana, Salvador da dor humana, sê a Salvação da unidade humana, obrigando-nos a abandonar a nossa mesquinhez e a aventurarmo-nos, apoiados em Ti, no oceano desconhecido da caridade. Faz-me vislumbrar-Te, mesmo e sobretudo na parte mais íntima, mais perfeita, mais distante da alma dos meus irmãos. Meu Deus, fazei brilhar para mim o vosso rosto na vida dos outros. Amém.

 

Notas

[1] Miguel Torga, «Cântico de Amor Carnal», in Nihil Sibi, 3ª edição, Coimbra, p. 47.
[2] Michel Evdokimov, Lumière d’Orient, Droguet Ardant, Paris, 1981, p. 143.
[3] Paul Evdokimov, L’art de l’icône. Théologie de la beauté, Desclée de Brouwer, Paris, 1972, p. 253.
[4] René Girard, Aquele por Quem o Escândalo Chega, Guerra & Paz, Lisboa, 2023, p. 94.
[5] René Girard, Aquele por Quem o Escândalo Chega, p. 49.

 

João Paulo Costa é presbítero católico e investigador em filosofia no CECH da Universidade de Coimbra. Autor de Indícios – à escuta dos traços de Deus (UCP editora, 2016) e de À Sombra do Invisível – fragmentos de um crer sapiencial (Documenta/Sistema Solar, 2020).

 

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