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Não houve encobrimento, diz Companhia

Oito jesuítas abusaram de crianças entre 1950 e anos 90

| 26/09/2022

Colégio da Imaculada Conceição, em Cernache (Coimbra), que encerrou no Verão de 2019, uma das instituições escolares jesuítas. Foto ©

 

Oito jesuítas, todos já falecidos, cometeram abusos sexuais sobre crianças dos 9 aos 16 anos, de ambos os sexos, entre 1950 e os anos 90. A informação foi divulgada nesta segunda-feira, 26 de Setembro, pela Província Portuguesa da Companhia de Jesus (PPCJ), através de um comunicado enviado à comunicação social.

“Houve um pedido explícito da Comissão Independente [para o Estudo dos Abusos Sexuais Contra as Crianças na Igreja Portuguesa], mas nós já vínhamos a recolher dados. E o processo não está terminado”, diz ao 7MARGENS o padre José Maria Brito, director do gabinete de comunicação da Companhia de Jesus em Portugal, que acrescenta, tal como se refere no comunicado, que os dados recolhidos foram entregues à Comissão e ao seu Grupo de Investigação Histórica (GIH).

De acordo com o mesmo responsável, os oito nomes envolvidos eram padres ou irmãos que terão abusado de crianças “em ambiente escolar, envolvendo alunos dos colégios da Companhia, tanto em contexto de grupo (sala de aula) como em contacto individual”. Em alguns dos casos, os abusos relatados terão ocorrido uma única vez, em outros foram pontuais e ainda noutros mais recorrentes. Há também relatos de situações que ocorreram em contexto de acompanhamento individual.

“Quanto às formas de abuso, caracterizam-se na generalidade por toques em zonas íntimas, embora haja registos de formas mais invasivas”, diz o comunicado dos jesuítas, publicado na íntegra no Ponto SJ, portal da Companhia de Jesus em Portugal. O responsável pela comunicação dos jesuítas prefere não estabelecer comparação entre casos mais ou menos graves. “A gravidade pode depender de cada pessoa”, diz.

Sobre alguns dos casos recaem indícios de que pode ter havido mais que uma vítima mas, para já, é impossível quantificar outros dados. “A consulta interna dos nossos arquivos permite-nos também concluir que a informação sobre estes casos é muito escassa e pouco objectiva, sendo, por isso, muito difícil, sem relatos concretos das vítimas, perceber com clareza em que circunstâncias se deram os abusos, se foram ou não denunciados, e quais as diligências que foram tomadas em relação aos abusadores e às vítimas”, diz a nota divulgada pelos jesuítas.

“Há poucos registos”, diz agora o padre José Maria Brito. “Mas esta informação é suficiente para identificar” os acusados. “Do ponto de vista da documentação, conseguimos identificar que estas oito pessoas cometeram abusos; em alguns casos percebemos quais os procedimentos concretos que foram realizados na altura, noutros não; não temos a certeza se foi tudo feito como se devia fazer, mas continuaremos a avaliar”. De qualquer modo, não há indícios de encobrimento em nenhum dos casos averiguados até agora, assegura.

Na maior parte dos casos, as situações não foram conhecidas na data da prática dos factos. Quando houve denúncias, os suspeitos foram afastados ou isolados em casas religiosas e proibidos “do exercício de atividade apostólica” e as vítimas foram escutadas. Também não há informação de processos judiciais ou canónicos. Mas os jesuítas não garantem que todas as medidas que hoje consideramos adequadas tenham sido tomadas.

 

Vítimas dirão o que querem
Infância. Abusos. Série "Childhood Fracture" (V), de Allen Vandever

Série Childhood Fracture (V), de Allen Vandever: “Há disponibilidade para o encontro e para compreender as necessidades de cada vítima”, diz o padre José Maria Brito. Reproduzido de Wikimedia Commons

 

Sobre a possibilidade de encontros dos responsáveis jesuítas com as vítimas, José Maria Brito diz que isso dependerá de cada pessoa abusada. “Há disponibilidade para o encontro e para compreender as necessidades de cada vítima, mas isso passará sempre pela vontade de cada uma e por perceber o que cada vítima deseja.” Até agora, no entanto, nenhuma vítima pediu qualquer encontro nem indemnização monetária.

No comunicado, os jesuítas dão a notícia com “enorme dor e sofrimento” e destinam a sua “primeira palavra” precisamente para “as vítimas, feridas na sua dignidade e marcadas física, emocional e espiritualmente por estes abusos”. Dirigindo-se a essas pessoas e às suas famílias, os jesuítas pedem “perdão pelos abusos sofridos” e por não terem sido “capazes, enquanto organização, de as proteger”.

A PPCJ reconhece ainda, no texto, que podem existir outras vítimas. “Gostávamos de sublinhar que desejamos profundamente que esta nossa atitude não seja uma mera formalidade ou simplesmente ‘expectável’ neste momento da história da Igreja, mas que nasça do fundo do coração e que possa exprimir a nossa mais sincera disponibilidade.”

O director do gabinete de comunicação acrescenta que “foi o trabalho da Comissão Independente que conseguiu trazer uma atenção mais constante a este tema” e que o facto de a Conferência Episcopal ter criado aquele organismo é “assinalável”.

Do lado dos jesuítas, José Maria Brito diz que o Serviço de Escuta (SE), criado pela Companhia há quase um ano, continuará a funcionar. “Sempre que houver queixas ou informações que impliquem alguma investigação, ela continuará a ser feita”. Aliás, foi pelo SE que alguns dos casos chegaram ao conhecimento dos jesuítas; outros, foram registados através de testemunhos indirectos e da consequente consulta nos arquivos.

O SE dos jesuítas insere-se no programa de promoção da cultura de “cuidado e bom trato” lançado pela Companhia em Portugal em 2017. E esse trabalho de prevenção começou antes de serem conhecidos quaisquer casos. Todos os anos, animadores de campos de férias, educadores e professores dos dois colégios actualmente existentes, voluntários dos diversos centros e instituições jesuítas ou catequistas, passam por uma formação destinada a prevenir abusos, explica o responsável.

Neste quadro, José Maria Brito diz que não foi sentida a necessidade de tomar novas decisões por causa dos casso agora divulgados. “É o nível de exigência que nos tem levado a tomar decisões. Mas estes casos fazem tomar consciência de que nem sempre fomos capazes de assegurar a protecção de forma mais adequada quando ela foi necessária.”

Há neste momento 140 jesuítas em Portugal.  Nos dois colégios da Companhia – que já foram mais, estudam um total de mais de 2800 alunos: 1360 nas Caldinhas (Santo Tirso) e 1460 no São João de Brito (Lisboa).

 

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