Olhando a dor dos outros. A Universidade Católica Portuguesa e o contributo para o bem comum

| 9 Mar 2023

Parafraseando os sábios: não se pode pensar ao mesmo tempo que se bate em alguém.
Susan Sontag, Olhando a Dor dos Outros

Universidade Católica Portuguesa

“Num país de falsos consensos, a Universidade Católica Portuguesa não existe para deixar as pessoas indiferentes, mas para fazer a diferença.” Foto © Universidade Católica Portuguesa/Wikimedia Commons

 

Toda a dor é intransitiva, pelo que o propósito deste texto não é aliviar a dor que a UCP supostamente provoca na autora de um texto recentemente publicado no 7MARGENS, mas antes almeja esclarecer as perplexidades, diria até a ignorância, que o texto confessadamente assume relativamente à missão e à atividade desta Universidade.  E porque é absurdo ler a dor dos outros, difícil será perceber se na dor lida se manifesta a que a autora deveras sente ou só a que ela não tem.

Comecemos pelo princípio, da UCP, naturalmente. A Universidade Católica Portuguesa é, e sempre foi, um projeto incómodo, pelo que implica, pela sua missão e identidade, pelo que representa e ambiciona. Fundada em 1967, num momento de particular transformação da sociedade europeia, foi a quarta universidade criada em Portugal, um desígnio da Igreja portuguesa para servir a sociedade, qualificá-la e robustecê-la. E desde o início foi polémica. Entre a ala católica que não desejava uma universidade para formar católicos, sugerindo que o lugar destes era no seio da sociedade e da academia secular; entre os não-crentes que rejeitavam mais esta incursão eclesiástica; no seio do próprio governo do Estado Novo e de Salazar que não queria de todo uma nova universidade católica, como perigosa alternativa ao modelo de ‘educação nacional’. Vingou o cardeal-patriarca de Lisboa e o grupo de católicos que olharam a universidade como uma plataforma de capacitação do país, uma proposta para crentes e não crentes, de afirmação da autonomia do pensamento, da busca livre do conhecimento e de realização da humanidade no plano intelectual, profissional, moral e artístico. Um espaço de liberdade, iluminado pelos princípios do humanismo cristão, e um contributo para o desenvolvimento humano ao nível local, nacional e internacional.  Com ‘gradualidade prudente’, como escreveu o seu primeiro reitor, a UCP chegou para criar incómodo e com isso transformar o panorama académico nacional, desenvolvendo com pioneirismo formações inexistentes no país (de Administração e Gestão de Empresas, a Biotecnologia e ao mais recente curso de Filosofia, Política e Economia), fomentando a coesão do território como única universidade nacional com campi distribuídos pelo país, arriscando propostas diferenciadoras e ousando ter uma estratégia própria, existindo à margem do consenso assistencialista estatal e da lógica das políticas de legislatura.

A UCP é incómoda porque faz serviço público sem financiamento operacional do Estado, dependendo e gerindo as propinas pagas pelos seus estudantes, e responsabilizando-se diariamente pela qualidade do que propõe à sua comunidade de estudantes, docentes, parceiros. E neste panorama, o que “quererá dizer responder aos desafios e emergências do mundo atual? O que representa então uma matriz humanista e um serviço ao bem comum?”

Desde logo, e matricialmente, significa gerar os recursos para poder ser fiel ao princípio fundador de apoiar todos os estudantes com mérito e bem assim aqueles que se encontram em situação de fragilidade financeira. Porque muitos não o sabem, ouso deixar aqui alguns números. Em 2022, a UCP atribuiu 2708 bolsas sociais, de mérito e prémios, totalizando €6.383,663. O seu comprometimento com o bem comum significou também criar – já em 2017 – um fundo específico para apoiar migrantes, refugiados e pessoas em situação de vulnerabilidade, o Fundo Papa Francisco. E significou constituir o Fundo Covid-19 para apoiar estudantes em situação de emergência devido à pandemia. Significa ainda responder com uma Iniciativa para apoio a refugiados de guerra às emergências do mundo atual, acolhendo estudantes afegãos, sírios, iranianos, do Iraque, Ucrânia, Nigéria, Líbano e de outros palcos da desgraça. E significa acolhê-los colegialmente entre as cerca de 100 nacionalidades que aqui se reúnem, com culturas distintas, professando crenças diferentes, em respeitosa interação.

Entre muitas outras coisas, o serviço ao bem comum significa ser a única universidade portuguesa que assinou a carta de proteção de menores e pessoas em situação de vulnerabilidade, significa fomentar o voluntariado  social (71% dos alunos da UCP oferecem horas de voluntariado à comunidade), significa a oferta de consultas dentárias à comunidade de crianças e idosos na nossa Clínica Dentária em Viseu, significa o apoio de enfermagem e as consultas disponibilizadas aos sem abrigo junto do balneário de Alcântara, a colaboração com as ONGs e as instituições de Terceiro setor da Igreja.

Em matéria de ensino e investigação, a UCP é mais do que as circunstâncias do tempo lhe quiseram impor e isso causa dor. Acresce que a Universidade Católica Portuguesa tem sido líder em rankings internacionais e isso … devia ser motivo de orgulho para os católicos, mas também é incómodo. Na verdade, o incómodo decorre do facto de a Universidade não ser uma proposta para os católicos, e hoje em dia também já não só para Portugal, mas sim de católicos para o mundo. Porque a Católica vai estando onde se elaboram as fronteiras do conhecimento, onde se manifestam os grandes dilemas da humanidade, onde a nossa proposta pode e faz a diferença, da filosofia ao direito, da economia à microbiologia, da medicina às ciências da comunicação, articulando formas distintas de estar no mundo. E é isso que hoje somos, nas 17 faculdades e 15 centros de investigação que agregam os 20000 alunos da UCP.

Na nossa agenda de ensino e investigação cultivamos o bem comum, como sabem todos os que por aqui passam. Fazemo-lo quando desenvolvemos estratégias para o robustecimento de sistemas alimentares e de solos frágeis que afetam os países em vias de desenvolvimento, quando afirmamos nas políticas de desenvolvimento estratégico o compromisso matricial com a sustentabilidade da nossa casa comum e o aplicamos.  E ainda, por exemplo, quando propomos modelos económicos de crescimento com propósito, desenvolvendo programas de estudo para a erradicação da pobreza e para o combate às desigualdades (Centro Prosper) ou quando a Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais cria o Centro de Inovação Social Yunus, um braço da rede criada pelo economista Muhammad Yunus, visando promover um modelo económico focado na sustentabilidade e na inclusão. Mas fazemo-lo também quando organizamos na próxima JMJ um manifesto e um dia de reflexão-ação em torno da Economia de Francisco. Nunca sentimos a necessidade de gritar o muito que fazemos, talvez porque esta é a verdadeira atitude cristã. Pelo contrário, não se pode julgar o que se desconhece.

Finalmente a Medicina, sim, esse extraordinário curso que potencia o trabalho e o legado da UCP noutras áreas das ciências da saúde, que se anunciava há tantos anos, mas que a dor escrita de uns e o preconceito silenciado de outros tanto fez tardar. Face às transformações tecnológicas que vivemos, num panorama de desumanização crescente, as ciências da saúde, e muito particularmente a Medicina, constituem a nova fronteira tanto da ciência como da sociedade. O que é o tratamento justo, como se decide a quem fornecê-lo, quem terá acesso, que possibilidades trazem a inteligência artificial, os novos avanços da biologia? O que define o humano e como dele se cuida? E é nesta fronteira que a Universidade Católica tem inequivocamente de estar. A Universidade Católica, tal como a Igreja, está comprometida com uma cultura do cuidado, da humanização, que passa necessariamente pela formação médica de qualidade. A atual situação de degradação do SNS e do cuidado médico demonstram que a sociedade portuguesa necessita de uma renovação do modelo de formação. Como sempre demonstrou, a UCP está presente e fá-lo numa lógica de oferta ao país, porque outra coisa não se pode chamar à criação de uma, muito cara, Faculdade de Medicina, sem contributo do Estado. Formar um médico é dispendioso, mas mais caro é deixar o país sem capacidade de responder aos desafios de uma população envelhecida, permitir a degradação dos serviços devido a uma mentalidade de condicionamento industrial anacrónica e autocentrada no privilégio. Recordo as afirmações do diretor de uma faculdade de Medicina estatal que há cerca de oito anos apresentou a estimativa da formação de um médico no sistema público: € 100.000,00. Ora a UCP, que não tem pais ricos nem acertou na lotaria, construiu uma Faculdade de Medicina sem recursos públicos e cobra o valor real de formação, laborando para continuar a desenvolver um ambicioso programa de bolsas. E ao mesmo tempo que usufruem do programa da UCP, os nossos estudantes pagam, com os seus impostos, os 100.000 Euros da formação médica nas universidades estatais, tal como o fazem os estudantes de Teologia, Filosofia, Direito, Artes, Economia, Ciências Biomédicas, Comunicação, Biotecnologia, Psicologia, e muitos, muitos mais. E fazem-no, fazemo-lo todos nós, cidadãos responsáveis sem hesitar e com convicção. Mas numa sociedade livre e autónoma que forma cidadãos responsáveis, exige-se respeito constitucional pela liberdade de aprender e ensinar. E, sem falsa dor, importa reconhecer o muito que, ao longo de 56 anos, a Universidade Católica Portuguesa tem dado ao país, capacitando profissionais, contribuindo para a formação intelectual e ética, dando a um país, cada vez mais entristecido e conformado, a capacidade de aspirar.

Num país de falsos consensos, a Universidade Católica Portuguesa não existe para deixar as pessoas indiferentes, mas para fazer a diferença. E sobretudo para combater a dor maior: a ignorância.

 

Isabel Capeloa Gil é reitora da Universidade Católica

 

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