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Olhar a mulher com Alfredo Cunha

| 26/02/2020

Olhar a mulher com Alfredo Cunha

by | 26 Fev 20

Varsóvia, Polónia, 2014. Foto © Alfredo Cunha/O Tempo das Mulheres, cedida pelo autor.

 

A arte e o discurso social ocidentais contemporâneos têm oferecido uma imagem deturpada do feminino, entre a preocupação pelo alcance de uma paridade de direitos e a denúncia de abusos, e o polo oposto que apresenta a mulher como mero objeto de desejo, desprovido de alma e elevação. De ambos os lados as posições vão-se extremando e é difícil encontrar um equilíbrio que mostre a humanidade no feminino com a sua beleza e autenticidade.

O Tempo das Mulheres, em exposição no Museu de Lisboa (Torreão Poente da Praça do Comércio) até 29 de março, oferece um conjunto de fotografias de mulheres com o comentário de Maria Antónia Palla. A objetiva de Alfredo Cunha percorreu diversas regiões do globo, diferentes épocas e vivências culturais. A exposição divide-se em quatro tempos: infância, juventude, idade adulta, e terceira idade; numa alusão aos tempos que percorrem a vida e se constituem como marcos da sua evolução.

Vila Verde (Portugal), 2000. Foto © Alfredo Cunha/O Tempo das Mulheres, cedida pelo autor.

 

Diferentes mulheres, em diferentes contextos e idades. Vidas frágeis, ou aparentemente frágeis, porque os contextos são adversos, mas a resiliência e capacidade de comunhão robustecem e permitem superar o insuperável. Vidas realizadas, ou aparentemente realizadas, porque, mesmo vivendo num clima de paz e abundância material, a solidão e a indiferença revelam o sofrimento. Nas diversas etapas da vida feminina que Alfredo Cunha fotografa, encontramos o retrato de mulheres que sofrem e choram em conjunto, que cuidam e sustentam. Mas também, em menor quantidade, mas idêntica qualidade, retratos de mulheres que dançam, intervêm, rezam e passeiam com uma beleza e elegância que nos desconcertam.

Será possível apresentar um retrato belo do feminino imune às críticas tenazes quer dos que lutam legitimamente por uma dignidade roubada, quer dos que desconfiam da possibilidade de um retrato inocente, sem qualquer intenção escondida? Provavelmente não, mas esta exposição alarga a perspetiva para quem esteja disposto a isso.

Santiago (Cabo Verde), 1986. Foto © Alfredo Cunha/O Tempo das Mulheres, cedida pelo autor.

 

Haverá sempre uma luta por direitos legítima e um retrato da mulher como mero objeto de desejo ou com frivolidade. O heroísmo de muitas mulheres é, não raras vezes, “masculinizado”. Quer porque as imagens de heróis tendem a ser protagonizadas por homens, quer porque, para se fazerem ouvir, as mulheres têm de assumir por vezes uma postura rude, considerada imprópria da apregoada “condição feminina”. Há sem dúvida mulheres heroínas, mas um dos maiores heroísmos femininos é conservar a beleza, delicadeza e elegância nos grandes combates. Sem procurar uma imitação dos homens. A igualdade é necessária. mas não deve levar a uma negação de identidade. De outro modo, a humanidade empobrece.

O Homem distingue-se pela sua capacidade de ter sensibilidade à estética. Conversamos, pomos uma mesa, decoramos uma casa, vestimo-nos com gosto para além da necessidade de nos proteger. “O Homem constrói casas porque precisa de viver, mas escreve livros porque sabe que é mortal”, escrevia Daniel Pennac, em Como um Romance. Escrever para contar uma história, partilhar a vida, procurando fazê-lo com beleza, é uma necessidade intrinsecamente humana. A história da Humanidade faz-se no feminino e no masculino, e nunca se deverá tentar abolir essa diferença. Cada um tem um modo de sentir e viver, mas a necessidade de estética constitui o genoma humano. O relato e retrato de vidas, em diferentes contextos e circunstâncias, enriquece-nos e eleva-nos.

Cascais, 1975. Foto © Alfredo Cunha/O Tempo das Mulheres, cedida pelo autor.

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