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Igreja Católica – que caminhos de futuro? (Debate – 6)

Olhar e escutar a dor, em processo sinodal

| 07/04/2023

abusos sexuais, Catarina Soares Barbosa

Abusos sexuais; ilustração original de © Catarina Soares Barbosa para o 7Margens

 

O catolicismo vive uma crise profunda, apesar de continuar a ser para muitas pessoas um espaço vital de busca de sentido e experiência de fraternidade. As situações de abusos de poder e violências sexuais vieram evidenciar problemas sistémicos. Em Portugal, depois de terem criado uma Comissão Independente (CI) para estudar os abusos sexuais sobre crianças, os bispos ficaram na indefinição sobre o que fazer com o panorama posto a nu pelo relatório da CI. Perante a perplexidade que tomou conta da sociedade e de muitos crentes, o 7MARGENS convidou católicos a partilhar leituras da situação e propor caminhos de futuro, a partir de três perguntas:

  1. Quais são os pontos que considera centrais nas medidas a assumir agora pela Igreja, para ser fiel ao Evangelho e ser testemunho de Jesus Cristo na sociedade? A quem cabe concretizar e liderar a aplicação de tais medidas?
  2. Considera que faria sentido que os batizados se encontrassem e se escutassem sobre essas tarefas e desafios que se colocam à comunidade eclesial, a nível diocesano e/ou nacional? Como? De que formas?
  3. Que contributo(s) estaria disposto a dar para que a Igreja, os católicos e as suas comunidades adotem um caminho centrado no Evangelho em ordem a superar a prática de abusos?

 

Iniciar o percurso do cuidado às vítimas

 

Abusos Sexuais, Catarina Soares Barbosa

Ilustração original de © Catarina Soares Barbosa para o 7Margens

 

Nesta sexta resposta ao desafio do 7MARGENS, Cecília Vaz Pinto, médica, sugere que os bispos olhem e escutem as vítimas e quem num verdadeiro processo sinodal, ouçam a opinião e os saberes de leigos católicos. A renovação dos modos de comunicar e dos processos formativos – incluindo nos seminários –são outras sugestões feitas.

 

Em pleno percurso sinodal, convocado pelo Papa Francisco em Outubro 2021, a Igreja em Portugal assistiu a 13 de fevereiro de 2023 à apresentação do relatório da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa – “Dar voz ao silêncio”, e em seguida, a 3 de Março, à reação da Conferência Episcopal Portuguesa.

Perante o choque e a dor que sentimos com a tragédia dos abusos sexuais, e a tristeza perante a reação, terá de ser necessariamente à luz da sinodalidade, ou como diz o Papa Francisco à luz do “caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio”, que se podem pensar nos pontos centrais e nas medidas a assumir pela Igreja. Desde logo:

– Olhar e escutar as vítimas. Olhar e ver, e escutar abrindo o coração para de algum modo se abeirar do seu sofrimento.

Cabe à hierarquia da Igreja, dar um passo nesse sentido, como o Papa Francisco o fez, olhando e escutando a dor nalguns testemunhos. Olhar e escutar as vítimas que assim o entenderem, respeitando também todas as que quiserem preservar seu anonimato.

– Iniciar o percurso do cuidado às vítimas. Num caminho ainda sem todas as respostas, é preciso estruturar e articular o cuidado com os que possuam competências específicas, ao mesmo tempo que se ouvem os crentes e não crentes e se dialoga com estruturas da sociedade civil e estatais (Ministério da Saúde, por exemplo).

– Ouvir os leigos, religiosos e diferentes comunidades. Ouvir os que já se pronunciaram e chamar outros a esta reflexão. Um processo de escuta ativa, com o objetivo de conhecer como os leigos interpretam os acontecimentos, vivendo a sua Fé como protagonistas do quotidiano na sociedade, em diferente meios sociais, profissionais e culturais. Os leigos têm hoje o desafio de ser testemunho de Cristo, num processo de evangelização que já não atravessa mares, mas atravessa os muros de uma sociedade descrente e que os interpela. Comunidade eclesiástica e leigos têm de caminhar juntos à luz sinodal e aprender a fazer este caminho: o clero com disponibilidade para a escuta e os leigos não se escudando à reflexão que se impõe. Um processo de reflexão que pode ser feito da parte dos leigos a partir de pequenas comunidades, mas em comunicação com outras comunidades e estruturas da Igreja.

 

abusos sexuais na Igreja; ilustração © Catarina Soares Barbosa

Abusos sexuais na Igreja; ilustração © Catarina Soares Barbosa

 

– Comunicar e, desde logo pensar a comunicação no interior da Igreja, como fruto de um querer e de uma necessidade, mas também de um processo que deve ser estruturado e criativo pensando em novos canais de comunicação, que funcionem de um modo recíproco e permitam um enriquecimento mútuo, num caminho de transformação para uma igreja mais unida e mais próxima.

As próprias cartas pastorais sobre o tema dos abusos devem ser objeto de reflexão pela Igreja, podendo essa reflexão ser proposta quer pela comunidade eclesial, quer pelos leigos. Já em 2010, na altura dos acontecimentos na Irlanda, o Papa  Bento XVI escreveu uma carta pastoral para ser lida em todas as paróquias de modo a “expressar a proximidade e propor um caminho de cura, de renovação e de reparação” e em 2018 o Papa Francisco escreveu uma Carta ao Povo de Deus também sobre o mesmo tema.

– Comunicar melhor internamente favorece a comunicação externa, numa informação clara e transparente em sintonia com todos os baptizados. Uma Igreja em comunhão com os leigos e menos clericalizada, comunicará numa linguagem mais acessível à época atual, para crentes e não crentes.

– Ao tema da formação deve a Igreja dar particular atenção, e essa tem sido uma mensagem do Papa Francisco também em relação à formação nos seminários e à vida dos sacerdotes. Também é necessária uma formação transversal aos leigos, que na família e nas estruturas da igreja ou outras devem estar atentos aos sinais de possíveis abusos, não descurando a abordagem ao tema da sexualidade e do cuidado ao outro.

A transformação da Igreja, que as crises proporcionam, pode ser uma via para uma Igreja mais autêntica e purificada, mais em comunhão e próxima da figura de Jesus no Evangelho, e sobre esse mesmo olhar de esperança continuar um caminho sinodal e de renovação.

 

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