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Excertos da Índia

Olhares baços no horizonte baço

| 24/08/2021

Índia

“O sorriso apagado e a dor de sentir que a vida lhe roubou o direito ao amor.” Foto: Captura de ecrã do vídeo

 

É nas terras de horizonte baço
que os direitos são mais negligenciados,
pensava eu ao caminhar por ruas tranquilamente infernais
numa tentativa de compreender o que via e sentia.

Meninos descalços, sem nome
São meninos de olhos vazios e mão estendida
E eu, que sou também mãe, filha, irmã, sobrinha, tia, neta, amiga, amante… amada
Porque me daria a vida sobras de afeto se a eles nada disso pode dar?

E eu, ser egoísta e mimado, que morreria se, por um só dia, os papéis se invertessem.
E eu, que não mais pude parar de me interrogar

O menino descalço, sem nome, doente de amargura
que, de punho fechado e dentes cerrados,
me atinge o ventre furioso.
Que fazes tu aqui de visita ao nosso inferno – pensaria eu –
se nem uma moeda nos trazes, odiosa visitante
que testemunhas a nossa humilhação?

E o meu coração que suplica perdão sem que se ouça.
Tanto lhes faz, a agonia permanece.

E outro menino descalço, sem nome, que geme
com lágrimas já secas e decorarem-lhe as faces imundas.
E eu, que nada mais sei do que ser um comum humano, com nome e sobrenome,
podre, egoísta, indiferente, sensível, acomodada.

E outro menino descalço, sem nome,
e mais lágrimas e mais desespero e mais súplicas e mais puxões
E eu, que não lhes dou moedas, não aqueço da indignação que magoa,
quase desisto, mas rendo-me de uma vez e deixo de temer o toque.

E eu, que lhe passo a mão pela cabeça, que lhe roubo um sorriso
que lhe peço um tempo para partilhar o momento
E ele, que permanece sorrindo
E ele, que tenta
E ele, que desiste
E eu, que tiro do bolso um papel e lápis de cor
E ele, que se senta a meu lado e desenha sem parar,
torce os lábios de concentração e esforço
Reflete, aprecia o seu próprio desenho e mostra-mo esperando aprovação
Eu aplaudo e, finalmente, ele se orgulha
talvez pela primeira vez na sua breve vida.
Volta ao desenho para me provar a destreza.
Eis que a ponta do vermelho, pelos vistos a sua cor favorita, se esgota
E eu procuro outra cor entre os lápis espalhados
E eu, que lhe explico como usar um afia para resgatar a ponte vermelha
E ele, que novamente sorri.
Admirado, experimenta e consegue
E sorri de novo.

Não lhe dei nenhuma moeda senão o melhor de mim
que ainda é tão pouco.
É pela vida fora que vou descobrindo o quão pobre e fraca sou
cobarde, negligente, egoísta.
Não trago comigo senão a eternidade daquele momento
o desenho esforçado daquele menino descalço
de olhos tão baços quanto o horizonte da sua terra

E ele, que não levou senão um par de lápis de cor
colocado cuidadosamente no bolso mais seguro das rotas vestes.
O sorriso apagado e a dor de sentir que a vida lhe roubou
o direito ao amor para dar de sobra aos meninos de outras terras
só porque lá o horizonte é mais azul.

“Não lhe dei nenhuma moeda senão o melhor de mim que ainda é tão pouco.” Foto: Captura de ecrã do vídeo.

 

(Vídeo e declamação do texto. Ver)

 

Ana Sofia Brito é performer e artista de rua por opção, embora também mantenha a arte de palco; frequentou o Chapitô e estudou teatro físico na Moveo, em Barcelona.

 

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