Onde está Deus?

| 25 Abr 20

Onde está Deus?

 

A propósito da pandemia que atinge agora o mundo inteiro, ressurge a incontornável questão: o que tem Deus a ver com isto; como pode um Deus bondoso permitir um mal como este?

De entre várias respostas que têm sido dadas a esta questão, parece-me de sublinhar a do padre Raniero Cantalamessa O.F.M., na pregação de Sexta-Feira Santa, perante o Papa Francisco. [Texto integral aqui]

Uma primeira ideia por ele sublinhada foi a de que não podemos ver nesta tragédia um castigo de Deus. Parece-me importante sublinhar isto, pois insistir nessa ideia de castigo divino em nada aproxima hoje as pessoas de Deus; pelo contrário, d´Ele as pode afastar, difundindo, através de uma pretensa “pedagogia” do medo (ou até do terror), uma sua imagem distorcida, mais própria das divindades pagãs a quem se ofereciam sacrifícios humanos para aplacar a sua ira, do que do Deus revelado em Jesus Cristo.

Afirmou, a propósito o padre Cantalamessa: “Deus é nosso aliado, não do vírus! ‘Eu tenho um desígnio de paz, não de sofrimento’, ele mesmo nos diz na Bíblia (Jeremias 29,11). Se esses flagelos fossem castigos de Deus, não se explicaria por que recaem eles igualmente sobre os bons e sobre os maus, e por que geralmente são os pobres que sofrem as maiores consequências. Eles seriam mais pecadores do que os outros? Aquele que chorou um dia pela morte de Lázaro chora hoje pelo flagelo que caiu sobre a humanidade. Sim, Deus ‘sofre’, como todo o pai e toda a mãe. Quando descobrirmos um dia isso, teremos vergonha de todas as acusações que fizemos contra Ele na vida.”

Atribuir ao castigo divino uma pandemia como esta não só fere a imagem de Deus que é Amor, mas até a imagem de um Deus justo, atribuindo-lhe uma punição coletiva e arbitrária, que atinge igualmente culpados e inocentes, ou até mais intensamente os inocentes.

Têm sido invocados, a propósito, episódios do Antigo Testamento que associam calamidades naturais como a peste a castigos divinos, com a alegação de que se trata de intervenções pedagógicas, sempre orientadas pela finalidade da conversão. Importa, não esquecer, a este respeito, a noção teológica de Revelação progressiva, Revelação que se dá em plenitude no testemunho de Jesus Cristo. Na paixão e morte de Jesus, Deus revela o seu inexcedível amor pela humanidade pecadora, oferecendo a sua vida para restabelecer aquela unidade que o pecado quebrou. Estamos muito longe da imagem de um Deus que castiga através de pandemias. É sempre em função dessa plena Revelação que devem ser lidos os episódios do Antigo Testamento (onde também já se revela o amor de um Deus “clemente e compassivo”).

Sabem os pais e as mães que a pedagogia dos castigos pode servir quando os filhos são pequenos, mas já não quando eles vão crescendo. A partir de determinada idade, valem, mais do que os castigos, o testemunho e o exemplo. Penso que poderá dizer-se o mesmo a propósito da Revelação e da pedagogia divinas, que atingem o seu cume no testemunho e no exemplo de Jesus Cristo.

Disse, a respeito da crucifixão, o padre Cantalamessa: “A cruz de Cristo mudou o sentido da dor e do sofrimento humano. De todo o sofrimento, físico e moral. Ela já não é um castigo, uma maldição. Foi redimida pela raiz, quando o Filho de Deus a tomou sobre Si. Qual é a prova mais segura de que a bebida que alguém lhe oferece não está envenenada? É o facto de beber à sua frente do mesmo copo. Assim fez Deus na cruz: bebeu, ao lado do mundo, do cálice da dor até à borra. Mostrou assim que ele não está envenenado, mas que há uma pérola no seu fundo.”

Ainda que não atribuamos à vontade positiva de Deus, uma qualquer pandemia, a questão persiste: como pode Ele, que é Amor, e também omnipotente (por ser Deus) permiti-la?

O padre Cantalamessa recordou a célebre frase de Santo Agostinho: “Deus participa na nossa dor para a superar. ‘Deus – escreve Santo Agostinho –, por ser soberanamente bom, nunca deixaria qualquer mal existir nas suas obras se não fosse bastante poderoso e bom para fazer resultar do mal o bem’. Será que Deus Pai quis a morte do seu Filho, a fim de daí tirar o bem? Não, simplesmente permitiu que a liberdade humana fizesse o seu percurso; contudo, fazendo-a servir o seu plano, não o dos homens. Isto vale também para os males naturais, como terremotos e pestes. Não os provoca. Ele deu também à natureza uma espécie de liberdade, claro, qualitativamente diferente da liberdade moral própria do homem, mas, ainda assim, também uma forma de liberdade. Liberdade de evoluir segundo as suas leis de desenvolvimento. Não criou o mundo como um relógio pré-programado em cada mínimo movimento. É aquilo a que alguns chamam ‘acaso’, e que a que a Bíblia chama, pelo contrário, ‘sabedoria de Deus’”.

Quais poderão ser, então, os frutos positivos desta tragédia?

O padre Cantalamessa salienta dois: a perda da ilusão da omnipotência humana (“bastou o menor e mais informe elemento da natureza, um vírus, para nos recordar que somos mortais, que o poder militar e a tecnologia não bastam para nos salvar”) e o reforço incomparável da solidariedade (“quando foi, desde que há memória, que os homens de todas as nações se sentiram tão unidos, tão iguais, tão pouco contenciosos, como neste momento de dor?”)

Mesmo assim, há quem tenha dificuldade não tanto em reconhecer esses frutos positivos, mas em compreender o modo como esta lição nos é dada. Seria mesmo necessária uma tragédia como esta para colhermos tais frutos? Recordo, e compreendo, a reação indignada de várias pessoas perante um vídeo em circulação que agradecia ao coronavírus, parecendo ignorar os milhares de mortos que ele vem vitimando.

Reside aqui outro grande desafio à fé no amor de Deus.

É verdade que, se partirmos da fé na Vida Eterna (se pensarmos que, como dizia Santa Teresa de Ávila, a vida terrena não é senão “uma má noite numa má pousada”) podemos mais facilmente compreender os desígnios de Deus em tragédias como esta.

Mas, de qualquer modo, se a fé se confundisse com a evidência, não seria uma virtude. Se tudo compreendêssemos dos desígnios de Deus, esses desígnios não seriam de Deus – afirmou também Santo Agostinho. O teólogo Enrique Cambon, num artigo recente (Città Nuova, n.º 2/2020, pág. 62), salienta que é próprio do amor de Deus atuar de forma escondida, discreta, humilde, de um modo que não força ninguém a acreditar n’Ele.

Outra questão que pode suscitar-se, a este respeito, é a de compreender o sentido das orações pelo fim da pandemia, se ela não corresponde à vontade positiva de Deus e é uma sua permissão em vista de um bem maior.

A esta questão, respondeu também o padre Cantalamessa:

“Será que Deus ama ser implorado para conceder os seus benefícios? Será que a nossa oração pode fazer Deus mudar os seus planos? Não, mas há coisas que Deus decidiu conceder-nos como fruto, juntamente com a sua graça e a nossa oração, quase como para partilhar com as suas criaturas o mérito do benefício recebido. É Ele quem nos impulsiona a fazê-lo: ‘Pedi e ser-vos-á dado, disse Jesus, batei e abrir-se-vos-á’ (Mateus 7,7).”

Convirá recordar, a este respeito, que Deus não intervém apenas através dos milagres (podendo certamente fazê-lo, como o atesta o Evangelho e a história da Igreja) e que o facto de não intervir dessa forma não significa que não tenha ouvido as muitas ou poucas preces que Lhe foram dirigidas. Também intervém através das chamadas causas segundas: através do amor e dedicação de médicos e enfermeiros, ou da inteligência dos cientistas. Sim, porque todo o amor tem a sua fonte em Deus, tal como a inteligência humana é criação e dom de Deus, como são criação e dom de Deus os elementos naturais que permitirão conceber uma vacina que elimine um qualquer vírus.

Também neste aspeto, vale o que afirmou o padre Cantalamessa: a Deus agrada servir-se da modesta cooperação humana quando realiza os seus desígnios, que são sempre de Amor.

 

Pedro Vaz Patto é presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica

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