[O flagelo que não acaba – VI]

Onde estão as associações pró-vida?

| 26 Mar 2023

 

Pode ser estranho perguntar onde estão as associações pró-vida na realidade dos abusos porque, estando tão preocupadas em defender a dignidade do início e do fim da vida, parece não se preocuparem muito com o que acontece entre esses dois pontos da existência de muitos seres humanos.

Quando se defende a vida defende-se na sua totalidade. Não há momentos mais importantes do que outros. Uma vida humana é igualmente importante em qualquer uma das suas fases, e tudo aquilo que afeta a dignidade de uma pessoa deve ser tido em conta.

Infelizmente é cada vez mais comum ver como a fé tem sido ideologizada em alguns setores da Igreja, e como essa ideologização faz com que a visão do que é, ou deveria ser, a coerência cristã seja mais fechada e excludente. Defender a dignidade das vítimas da Igreja – seja de que abuso for – não faz parte da defesa da vida? Assistimos a manifestações contra o aborto e a eutanásia em muitos países, mas não temos manifestações que reivindiquem algo em favor da dignidade das vítimas.

Disse num artigo anterior que estamos diante de um problema eclesial porque já todos conhecemos o alcance do mesmo, e não nos podemos justificar dizendo que não sabemos da sua existência. Como cristãos seguimos aquele que foi, que é a vítima por excelência; e sim, comemoramos a sua morte, embora gostemos mais daquela manifestação de poder que foi caminhar sobre a água, transformar a água em vinho, e curar os enfermos, em suma, o espectacular. Ou seja, embriaga-nos a teologia da glória, mas realmente é na teologia da cruz e do sofrimento que optamos pela fé e a definimos. E definimo-nos a nós próprios se quisermos fazê-lo.

Com a realidade das vítimas de abusos na Igreja, há quem caia na tirania do ativismo ideológico que os leva a buscar relevância e justificação no ambiente social – e pensando mais na opinião pública – porque já não suportam ser irrelevantes, em vez de envidar esforços de todo o tipo para encontrar soluções e, sobretudo, exigir justiça e tudo aquilo que for necessário para que as vítimas não vivam numa constante revitimização.

O ativismo ideológico não deixa de ser uma opção que, evidentemente, terá de ser respeitada mesmo que não se entenda, mas sabendo que isso somente não é a fé, nem a Igreja, nem claro, o cristianismo. No fundo do ativismo ideológico, ressoa uma pergunta tão bíblica quanto comovedora: “Será que eu sou o guarda do meu irmão?” (Gn 4:9).

As vítimas são terreno sagrado e um terreno que representa o silêncio de décadas – porque o luto que isso acarreta pode durar décadas até que seja completamente elaborado e permita falar – onde podemos tocar o abismo social que se cria, e que pode ser incrementado ao considerar que não temos nada a ver com isso. Esse terreno sagrado e silencioso não é um terreno estéril, murcho, sem vida. Pelo contrário, é terreno fértil porque abriga uma vida humana, dilacerada, mas ainda viva.

Esse evangelho “para a vida” que se defende a partir de opções de fé ideologizadas está seriamente comprometido na sua credibilidade, porque o verdadeiro evangelho para a vida defende-a durante toda a sua extensão. Não no vago: é a vida de muitos dos nossos irmãos a que foi violada. Literalmente.

E, se essa forma de fé ideologizada está tão preocupada pela dignificação do fim da vida, onde está a sua preocupação pelas vítimas que decidiram suicidar-se perante o sofrimento indizível de não serem acreditadas e, em muitos casos, acusadas de provocar esse abuso e essa agressão?

Ocorre-nos pensar que essas vítimas, além de terem sofrido abusos, agora a Igreja considera que atentaram contra Deus por tirarem a própria vida? Essa é a interpretação do suicídio (Código de Direito Canónico, 2281). No número 2283, faz-se alusão aos caminhos que só Deus sabe para lhes ter concedido a possibilidade de arrependimento… Pobres vítimas se, depois do horror vivido, e confrontadas com a realidade de não serem acreditadas, tiverem de esperar até que no último minuto Deus – quando deixaremos de invocá-lo para tranquilizar a nossa consciência! – lhes mostrará o caminho do arrependimento. Fico com a imagem do Deus cheio de misericórdia e amor que terá saído ao seu encontro e que as acolherá no seu seio cheio de carinho e compreensão.

Neste momento a diaconia na Igreja, aos pés da cruz, passa por inclinar-se perante as vítimas, pedir perdão cada vez que haja uma oportunidade, e estender as mãos abertas para que nelas depositem toda a sua dor. Porque a muitas pessoas preocupa-nos aquilo que acontece entre o nascimento de uma pessoa e o seu fim. Ou seja, preocupa-nos o evangelho da vida.

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