“Estou feliz porque Deus habita aqui, porque onde há amor e serviço, aí está Deus”, disse o Papa no final da curta cerimónia com que concluiu a sua visita ao lar de idosos das Irmãzinhas de Jesus em Annaba, a antiga Hipona do Império Romano, onde Santo Agostinho foi bispo no século V. O segundo dia de Leão XIV na Argélia, que havia começado por uma visita ao sítio arqueológico da cidade e às ruínas da Basílica da Paz, terminou de novo em Argel.
No lar de idosos, o Papa ouviu o testemunho de um residente, muçulmano argelino, Salah Bouchemel, que manifestou a sua “grande alegria” com esta visita que a todos lembra “a importância do respeito, da fraternidade e da convivência”, tal como é vivida todos os dias naquela residência onde “todos são livres de praticar a sua religião, seja o islão ou o cristianismo: “Essas diferenças não nos separam; pelo contrário, ajuda-nos a viver juntos com respeito e paz.”
Leão XIV respondeu, de acordo com o relato do Vatican News, portal de notícias do Vaticano: “Ouvindo-o e vendo a sua presença aqui entre os irmãos e irmãs idosos, o louvor e a ação de graças a Deus surgem espontaneamente”. E acrescentou: “O coração do nosso Pai não está com os ímpios, os poderosos, os orgulhosos; o coração de Deus está com os humildes e os simples, e com eles Ele leva por diante o Seu reino de amor e paz, todos os dias, assim como vocês se esforçam para fazer aqui, no seu serviço diário, na amizade e na vida comunitária.”
Após o encontro com a comunidade, o Papa dirigiu-se à casa agostiniana para uma reunião privada e almoço com os seus irmãos da congregação de que é originário. À tarde desta mesma terça-feira, 14 de abril, celebrou missa na Basílica de Santo Agostinho, antes de regressar a Argel.
Já no dia anterior, na visita à Grande Mesquita de Argel, o Papa tinha referido a importância do pensamento agostiniano: “Venho com grande alegria à Argélia, pois esta é também a terra do meu pai espiritual, Santo Agostinho, que desejou ensinar tanto ao mundo, sobretudo através da busca da verdade, da busca de Deus, reconhecendo a dignidade de cada ser humano e a importância de construir a paz.”
Uma Igreja discreta, mas viva

O Papa aos cristãos da Argélia: “Testemunhai o Evangelho com gestos simples, relações autênticas e um diálogo vivido cada dia. Imagem captada da transmissão vídeo do Vatican Media.
Mas que Igreja é esta que o Papa visita no início da sua primeira viagem pelo continente africano? É, certo, a da terra em que viveu Santo Agostinho, inspirador da ordem religiosa em que o atual Papa se integrou, mas é uma Igreja muita pequena (menos de 10 mil católicos num país de 47 milhões de habitantes e de maioria muçulmana). É também uma Igreja discreta, pelas restrições impostas pelo poder, mas sofrida, na memória dos 19 mártires executados às mãos de fundamentalistas nos anos terríveis (1992-2002). E é uma Igreja cada vez mais africana e menos pós-colonial, uma Igreja ecuménica e multirreligiosa que assume como missão “servir o povo argelino”, tal como desde os violentos tempos da independência [1962] o definiu o cardeal Léon-Étienne Duval, então arcebispo de Argel.
Num artigo publicado no jornal La Croix de 13 de abril a jornalista Marguerite de Lasa lembrava que “a presença da Igreja na Argélia enfrenta um controlo estatal rigoroso, bem como fortes restrições às suas atividades” decorrentes de uma “lei de 2006 que proíbe o proselitismo entre muçulmanos e sujeita a prática religiosa à acreditação”. Em todo o caso, segundo a jornalista, “os evangélicos são os mais afetados: em janeiro de 2025, todas as igrejas evangélicas, à exceção de uma, foram obrigadas a fechar, consideradas ‘em desacordo com as normas legais’ em vigor”.
Embora mais tolerada do que os cultos evangélicos, a Igreja Católica também está sujeita a “pressão moderada, porém constante”. Por exemplo, em 2022, as autoridades ordenaram o encerramento da Caritas Argélia e numa cidade costeira (Mostaganem) uma creche administrada pela Igreja foi obrigada a encerrar a atividade. Mas a disparidade das medidas de restrição à atividade da Igreja é salientada pelas fontes do jornal La Croix que referem como por vezes, as ordens de fecho são seguidas, meses depois, por novas autorizações de reabertura.
O mesmo jornal recolheu o depoimento de Jean-Marie Lassausse, padre da Mission de France há 25 na Argélia: “No dia-a-dia os cristãos da África subsaariana que aqui integram as comunidades católicas também podem ser vítimas de racismo; e não há dúvida que na Argélia é mais fácil ser um padre branco do que um padre negro.” Ou seja, o problema não reside apenas nas restrições legais, a própria sociedade argelina não tolera com normalidade os cristãos: “Existem alguns cristãos argelinos que mantêm um perfil discreto, porque a sua conversão é muito malvista na sociedade.”
Em Angola de 18 a 21 de abril

A Igreja da Argélia é cada vez mais africana e assume como missão “servir o povo argelino”, como definia o cardeal Duval, nos tempos da independência. Imagem captada do vídeo transmitido pelo Vatican Media.
Ao fim da tarde, depois de celebrar missa na Basílica de Santo Agostinho, o Papa regressou a Argel de onde partirá nesta quarta-feira, 15 de abril, com destino a Iaundé, dando início à visita aos Camarões. Na capital, Leão XIV visitará o Presidente Paul Biya, receberá as autoridades e o corpo diplomático e, à tarde, vai ao Orfanato Ngul Zamba, para saudar os hóspedes e os funcionários da instituição. O dia papal terminará às 18h25 com o encontro privado com os bispos dos Camarões na sede da Conferência Episcopal.
A viagem pelos Camarões continua em Bamenda, cidade localizada no lado ocidental do país, onde o Papa participará no Encontro pela Paz com a comunidade local na Catedral de São José. À tarde celebra missa no Aeroporto Internacional, de onde partirá para regressar a Iaundé.
No dia 17 de abril vai estar em Douala, no Golfo da Guiné, uma das maiores aglomerações urbanas do país e considerada a capital comercial dos Camarões. Aqui celebra missa no Japoma Stadium e visita o Hospital Católico Saint Paul. De volta a Iaundé, encontra-se com académicos na Universidade Católica da África Centra, no final desse dia.
No sábado, 18 de abril, despede-se dos Camarões celebrando missa às 9h30 no Aeroporto de Iaundé-Ville, e parte para Angola, país que visita entre 18 e 21 de abril, dia em que voa para o último país deste périplo africano: a Guiné Equatorial.










