ONU: acções terroristas em Moçambique “são planeadas” a partir do exterior

| 11 Fev 20

Ataques planeados a partir do exterior. No Norte de Moçambique, ataques provocaram já mais de 500 mortos em dois anos. Na origem, podem estar as reservas de gás descobertas há dois anos, dizem analistas. O bispo católico de Pemba não tem medo, afirma. 

Escola agrária de Bilibiza (2008) que, segundo o bispo de Pemba, terá sido objecto de ataque recente. Foto © António Marujo/Arquivo 7Margens

 

As Nações Unidas consideram que os ataques que têm acontecido no norte de Moçambique, desde Outubro de 2017, serão “planeados e comandados” a partir do exterior, nomeadamente da República Democrática do Congo, noticia a Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), citando documentação da ONU a que a organização católica teve acesso.

Estes ataques, que “são uma tragédia”, provocaram já mais de 500 mortos, disse na semana passada o bispo de Pemba, Luiz Fernando Lisboa, numa entrevista ao serviço informativo da AIS. Mas Alexandra Magnólia Dias, do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI), afirmou nesta terça-feira, no programa Mapa Mundo, da TSF, que se contam já mais de 700 mortos.

Os ataques, localizados sobretudo na província de Cabo Delgado (Norte), têm tido características particularmente violentas – há relatos de crianças colocadas em caldeirões de água a ferver ou de pessoas decapitadas – e a situação tem vindo a agravar-se.

O relatório da ONU citado pela AIS foi elaborado por uma equipa que acompanha as actividades do Daesh, da Al-Qaeda e outros grupos associados aquelas organizações terroristas. De acordo com a AIS, o documento diz que, desde o final de 2019, há “indicação de acções coordenadas” por parte dos grupos que actuam em Moçambique, República Democrática do Congo e Somália.

No relatório, com data de 20 de Janeiro, afirma-se, ainda segundo a mesma fonte, que se tem “observado uma melhoria na qualidade e conteúdo dos materiais de propaganda” e que haverá novas formas de financiamento das actividades terroristas.

 

Ataques recentes e um bispo sem medo

Bispo Luiz Fernando Lisboa. Foto © ACN Portugal

 

Apesar disso, há notícias de attaques recentes. A AIS cita a imprensa local para contar que houve incidentes em várias aldeias do distrito de Quissanga, na segunda-feira, 3 de Fevereiro. Segundo o jornal A Carta, além de terem “queimado palhotas da população e o Centro de Saúde de Mahate, os insurgentes mataram por decapitação sete cidadãos que pela manhã se deslocavam às suas machambas”.

No dia anterior, e ainda segundo o mesmo jornal citado pela AIS, duas mulheres foram raptadas em Muidimbe, numa série de ataques rápidos a aldeias que pretendem levar à fuga das populações para as matas. Uma pessoa citada no jornal dizia que, “quando anoitece, cada um vai esconder-se na mata” e só regressa de manhã. Um dos exemplos da destruição provocada por estes ataques é a aldeia de Bilibiza, a mais de duas horas de carro de Pemba: a destruição elevada e a fuga generalizada das populações.

Luiz Fernando Lisboa, bispo de Pemba, dizia na entrevista citada que ele próprio se sente ameaçado e que será difícil acabar com os ataques, se eles são consequência parte de uma rede internacional. Em relação à eventualidade de um ataque pessoal, afirma: “Estou consciente de que isso pode acontecer. Mas, sinceramente, não tenho medo. Não tenho medo.”

Ao mesmo tempo, o bispo sublinha a forma corajosa como os “missionários e as missionárias” têm prosseguido com a sua missão, apesar dos ataques. “Louvo a Deus, agradeço pela coragem que eles têm tido… Nenhum deles abandonou o posto, estão lá e eu não posso nem tenho o direito de ter medo, justamente para os apoiar e para que eles continuem a cumprir a sua missão.”

No programa da TSF já referido, as duas convidadas – Alexandra Magnólia Dias e Ana Santos Pinto, investigadoras do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI) – referiram a exploração de gás, descoberto há precisamente dois anos na região, bem como a ausência do Estado, a inexistente distribuição de rendimentos e a pobreza como algumas das razões para que estes grupos apareçam a provocar a onda de violência.

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