
Uma criança é examinada por desnutrição no estado de Gezira, Sudão. Mas “o acesso humanitário regular e seguro aos civis continua inadequado nas zonas mais atingidas pela violência”, alerta a ONU. Foto © Unicef/Ahmed Elfatih Mohamdee
As projeções feitas no verão eram desanimadoras, mas a realidade revelou-se ainda pior do que o previsto: cerca de 18 milhões de pessoas já enfrentam fome aguda no Sudão, um número que corresponde ao dobro do registado no mesmo período do ano anterior, e que supera a estimativa de 15 milhões feita na avaliação de agosto. O diretor nacional do Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU no Sudão, Eddie Rowe, apela a uma pausa humanitária e ao acesso irrestrito da ajuda para evitar uma catástrofe de fome no país.
Num comunicado divulgado esta terça-feira, 19 de dezembro, a ONU soou o alarme: “uma nova análise da segurança alimentar mostra níveis sem precedentes de fome entre outubro e fevereiro, época da colheita, e prevê níveis catastróficos de fome, nos focos de conflito, se não houver aumento significativo da assistência alimentar”.
O conflito – que eclodiu no Sudão a 15 de abril deste ano – tem vindo a destruir hospitais, escolas, estradas, fontes de energia, água e estruturas de telecomunicações, relata o comunicado da ONU. A pilhagem generalizada de mercados, bancos, indústrias e edifícios públicos aumentou a falta de serviços essenciais e alimentos, agravando a já frágil situação de insegurança alimentar e de desnutrição em que o país se encontrava.
Desde o início da guerra – que já causou a morte de cerca de 12 mil pessoas -, o PMA deu assistência a mais de cinco milhões de pessoas, evitando uma deterioração ainda maior da segurança alimentar, sobretudo nas regiões leste e norte do país. “Mesmo assim, o acesso humanitário regular e seguro aos civis continua inadequado nas zonas mais atingidas pela violência”, alerta a ONU, sublinhando que “há muitas pessoas presas em áreas com combates ativos que só podem ser alcançadas esporadicamente”.
A agência tem aproveitado pausas momentâneas para levar assistência alimentar às famílias em Cartum, mas só conseguiu chegar à capital uma vez nos últimos três meses. Das pessoas identificadas como mais necessitadas na área metropolitana de Cartum, apenas uma em cada cinco conseguiu receber ajuda alimentar.
A Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento (IGAD, na sigla em inglês) anunciou no passado dia 9 de dezembro que o comandante do grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (RSF) Mohamed Hamdan “Hemedti” Dagalo, aceitou propostas para um cessar-fogo, a resolução do conflito por via do diálogo político e um encontro com o comandante das Forças Armadas Sudanesas (SAF), Abdel Fattah al-Burhan. No entanto, os confrontos continuam a alastrar, tendo inclusivamente atingido nos últimos dias Wad Madani, considerada uma “zona segura” e área de refúgio para cerca de 1,5 milhões de pessoas deslocadas que fugiram da guerra que dura há oito meses.









