Opção pela morte?

| 19 Fev 20

Gustav Klimt, Vida e Morte (1916), óleo sobre tela no Leopold Museum, de Viena, aqui reproduzida a partir da Wikipédia.

 

Li recentemente, numa notícia na Ecclesia que “eutanásia e suicídio assistido não acabam com o sofrimento, acabam com uma vida”. Parece um slogan próprio de grandes marchas públicas. O autor (D. Nuno Almeida, bispo auxiliar de Braga) propõe que a Assembleia da República deve votar “não à eutanásia e suicídio assistido»”, porque se trata de uma “interrupção voluntária do amor e da vida”.

Mais recentemente, apareceu o mote: “Eutanásia é opção pela morte”.

Apreciei positivamente a editorial do Público sob o título “A vida não se referenda”. A meu ver: quem sabe ou pode definir e avaliar a vida? E que valor se pode dar a um referendo? (Entre parênteses: referendo, greve… já foram meios honestos para aproximar a sociedade da melhor ideia possível de democracia – outro conceito frequentemente aviltado. Pertencerão aos novos tabus?)

Muito claramente: sou contra a legislação sobre “situações extremas”. Aquilo que não conseguimos pensar nem descrever (a experiência total é segredo de quem morreu) não pode ser reduzido a um caso jurídico entre outros.

Sou contra o sofrimento que já não é “razoável”. Sou contra legislar sobre o trâmite da morte dos outros – muito mais se as leis partem de gente nova ou de axiomas quer religiosos quer políticos.

Portanto, sou contra qualquer limitação do bom senso e humanidade nesta situação extrema: a liberdade e dignidade perante a morte deve ser totalmente respeitada e favorecida. O que é punível é a perversidade sob qualquer forma. É a grande consequência de levarmos a vida a sério.

O artigo da autoria de Helena T. Valentim, aqui no 7MARGENS, expõe sem rodeios como nas conversas do dia-a-dia se manifestam angústias e atitudes, por vezes contrárias entre si, que nos impedem de tomar posições claras, devido justamente ao nevoeiro ético e sentimental que envolve estas situações.

É perigoso e nada transparente jogar com sentimentos tão fortes e tanto para além dos estudos e reflexões mais aturadas e honestas. A condição humana tem que descobrir a riqueza da sua humildade. Humildade que é o esforço pessoal de se reconhecer devedor a todos os outros, bons ou maus, pobres ou ricos. De todos recebemos lições sobre a vida, cabendo-nos enriquecer o futuro da Humanidade com o mais alto nível dessa muito nobre humildade.

Será que temas como eutanásia, aborto, divórcio… só podem ser notícia quando surgem ameaças, de qualquer parte que seja? Não serão suficientemente sérios para contínua exploração?

Preferimos baixar os braços e suplicar a esmola de um parecer favorável, que nos liberte de ter que pensar?

Que é que nos leva a teimar que podemos ser salvos por leis – impostas por um grupo de poder desprovido de competência para tudo? Se a própria votação é obscurecida pelos slogans, mentiras e baixo nível cultural das assim chamadas discussões  e esclarecimentos? Infelizmente, o mesmo se passa da parte dos próprios líderes religiosos e de diversos ideólogos. A Igreja tem uma quase eterna sucessão de anos litúrgicos, em que os fiéis raramente são chamados à pedra para que não fujam ao trabalho de pensar nos valores da vida – essa energia que se vai concretizando em cada um de nós, do mesmo modo que se concretizou e concretizará indefinidamente e esperemos que criativamente.

De novo lembro uma estratégia merecedora de ser tentada pacientemente: explorando incansáveis trocas de ideias que permitam a cada qual falar claramente, ouvir sem excitação nem pressa de interromper, dar lugar a gente diferente e ideologias diversas… e formular sem preconceitos as posições tidas como mais razoáveis. Este último adjectivo é extremamente importante: é o reconhecimento de que a “verdade plena” está para além do nosso esforço e só abusivamente e perigosamente é apresentada como posse de alguém. A Verdade plena será a Luz que deveria orientar o nosso esforço e da qual apenas nos podemos aproximar – sendo “razoável” esperar que por toda a eternidade…

Sou, sim, a favor de permanente, humilde e honesta reflexão sobre as tentativas de pensar e agir como deve ser, nos casos de eutanásia e aborto, nomeadamente. Se não confiamos na prevalência do bom senso da Humanidade, em que representantes podemos confiar?

Sou a favor da consciente liberdade de escolha quanto aos momentos finais: sofremos para viver – e a morte é o último sofrimento. As instituições culturais (nomeadamente as artísticas) deviam educar as pessoas a enfrentar este sofrimento último. Se não há suficiente razão para prolongar: durante a vida, somos capazes de sofrer pelos outros e de nos privarmos de prazeres por bem daqueles que amamos. Mais do que morrer na dor e na revolta, não vale mais entregar à vida dos que amamos e à de toda a Humanidade os recursos financeiros razoavelmente inúteis e dando exemplo de superar a visão niilista da morte?

Dá-se precisamente o contrário da “interrupção voluntária do amor e da vida”: “Não há maior amor do que oferecer a vida por aqueles que amamos.” Um bom desabafo, atribuído a Jesus, e que devíamos meditar, sem preconceitos nem sombra de fanatismo – e com a grandeza da nossa humildade…

 

Manuel Alte da Veiga é professor universitário aposentado.

(No dossiê sobre a eutanásia, do 7MARGENS, estão disponíveis todos os textos já publicados sobre o tema.) 

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