
Há setores opositores a Francisco que querem um papa a assomar à varanda central, depois do próximo Conclave, que não mude a doutrina da Igreja. Foto: Direitos reservados.
Pode ser um cardeal, podem ser vários e pode não ser nenhum: a verdade é que quem está contra o Papa Francisco e o seu caminho sinodal anda a procurar condicionar o Espírito Santo para que dê à Igreja, no próximo conclave, um pontífice que trave ou inverta o rumo atual. Isso consta de um documento em seis línguas, divulgado no final da última semana. Um pormenor que diz muito de quem é autor da iniciativa: não se assume, por as consequências “poderem ser incómodas”.
O documento, divulgado por um órgão de oposição ao atual Papa, o New Daily Compass, é assinado como Demos II, e segue um outro programa com intenção análoga, o Demos, que circulou há cerca de dois anos e que se veio a descobrir ser da autoria do cardeal australiano George Pell, autoria revelada depois de ele ter falecido no princípio de janeiro de 2023.
Em sete pontos, o documento começa por acusar Francisco de ser um autocrata e usar métodos autoritários. Governa por motu proprio e desconsidera o Código de Direito Canónico. Percebe-se o que se pretende dizer, quando o texto acrescenta, referindo-se ao papa que vier a seguir: “Ele não pode mudar a doutrina da Igreja e não deve inventar ou alterar arbitrariamente a disciplina da Igreja. Ele governa a Igreja colegialmente com seus irmãos bispos nas dioceses locais.”
Mas se a Igreja não é uma autocracia, também não pode ser uma democracia e nela não cabem todos, ao contrário do que tem dito Francisco: “Só se faz com aqueles que creem genuinamente e praticam ativamente ou, pelo menos, procuram sinceramente praticar.”
Critica, de seguida, a “ambiguidade” quanto àquilo em que os católicos acreditam, por ser “geradora de dúvidas e de impuslos cismáticos”. Lamenta, nesta linha, a marginalização de Veritatis Splendor e o facto de se ter elevado “a compaixão e a emoção” em detrimento da razão e da verdade.
Se a Igreja é mater et magistra (mãe e mestra), segundo João XXIII, “nunca poderá ser reduzida a um sistema flexível de ética ou a uma análise e remodelação sociológica para adaptá-lo aos instintos e apetites (e às confusões sexuais) de uma época”.
As viagens papais pelo mundo estavam bem para um Papa como João Paulo II. Quem subscreve a carta entende que o Papa precisa de prestar atenção a crise da Europa e especialmente à Itália e fazer uma reforma profunda do Vaticano: “Da sua moral”, das suas instituições e procedimentos e das suas finanças.
O último ponto é dedicado ao Colégio Cardinalício. Reconhecendo que foi “diversificado”, mas não foi convocado, pelo que os cardeais não se conhecem, na hora de escolher o sucessor de Pedro, o que os pode tornar “vulneráveis a manipulação”.
Quem subscreve o texto afirma não revelar a identidade por medo das consequências, que “podem ser incómodas”, por parte de uma “pequena oligarquia de confidentes com influência excessiva dentro do Vaticano”, nomeando a Companhia de Jesus e o novo prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé.
Comentando esta campanha, dirigida em particular aos cardeais, o editor de La Croix International Robert Mickens, escreve na sua Carta de Roma, que, com o Papa bem vivo, “os abutres começam a surgir”.
Entretanto, em Espanha, vários sacerdotes jovens vieram a público denunciar o Papa como herege, devido a posições assumidas, nomeadamente em relação com a Declaração Fidutia Supplicans, sobre as bênçãos de casais homossexuais e casais em situação considerada irregular. Alguns deles foram ao ponto de rezar pela morte do Papa, o que desencadeou uma reação de condenação em vários setores, nomeadamente do episcopado.










