Oração, cidadania e solidariedade contra a pandemia

| 26 Mar 20

Esta sexta-feira, às 17h (hora de Lisboa), o Papa volta a estar em oração a partir do adro da basílica de São Pedro, perante uma praça vazia, naquela que será seguramente uma das imagens mediáticas que registarão este período difícil da humanidade.

Papa Francisco

O Papa Francisco, domingo passado, na Biblioteca do Palácio Apostólico, no Vaticano, quando anunciou a iniciativa de rezar o Pai-Nosso unido a todos os cristãos. Foto captada da transmissão vídeo do Vatican News

 

A iniciativa ecuménica do Papa, esta quarta-feira, 25 de março, teve um alcance que vai além da pandemia do momento. Francisco convidou os cristãos de todo o mundo para, à mesma hora, recitarem o Pai-Nosso, oração fundacional no cristianismo.

“Rezamos pelos doentes e suas famílias, pelos profissionais de saúde e quantos os ajudam, pelas autoridades, as forças da ordem e os voluntários, pelos ministros das comunidades”, explicou o Papa, antes de dar início à oração.

Cristãos protestantes e ortodoxos associaram-se ao gesto, reforçando o impulso e as iniciativas ecuménicas dos últimos anos.

Francisco deu, com esta ação, amplitude ao papel das religiões e, neste caso, das diferentes confissões cristãs. Há uma construção a fazer, nos gestos do quotidiano e nos momentos mais difíceis, que requer um retorno ao essencial. E aumenta a dramaticidade do isolamento entre os cristãos, impedidos de celebrar, em comunidade, o principal tempo litúrgico do calendário.

As sextas-feiras de Quaresma marcam o ritmo celebrante da aproximação à Páscoa. O jejum, que a tradição sugere, tem este ano um inesperado significado e Francisco, que é bispo de Roma, reage ao momento também com gestos simbólicos: esta sexta-feira, às 17h (hora de Lisboa), o Papa volta a estar em oração a partir do adro da basílica de São Pedro, perante uma praça vazia, naquela que será, seguramente, uma das imagens mediáticas que registarão este período difícil da humanidade.

No final, o Papa dará a bênção Urbi et Orbi (à cidade de Roma e ao mundo), reservada para ocasiões muito especiais, como a Páscoa e o Natal.

Em Fátima, símbolo da devoção mariana no catolicismo, uma cerimónia de Consagração por causa da pandemia, realizada também na quarta-feira, passou quase despercebida na comunicação social.

O cenário terá transportado os crentes para um misto de graça e angústia, pela voz embargada do cardeal António Marto, pela sobriedade da cerimónia no canto e nas palavras.

Sem multidões nem emoções transbordantes, amplamente visíveis se fosse uma cerimónia pública, Fátima mostrou-se necessariamente recolhida numa basílica vazia, com o recinto vazio ao anoitecer e os celebrantes afastados. Um contraste sem paralelo.

Os bispos portugueses, a quem se associaram os bispos espanhóis e de outros 20 países, consagraram-se ao “sagrado coração de Jesus” e ao “imaculado coração de Maria”, mantendo a tradição antiga das petições espirituais em tempos de aflição comunitária.

Neste quadro sóbrio, quase íntimo, ajoelhado diante da imagem da Senhora de Fátima e da Cruz, o cardeal Marto não conseguiu conter a emoção. Numa “singular hora de sofrimento”, como repetiu na fórmula da consagração, pediu inspiração para os governantes, cura para os doentes, amparo para os velhos e vulneráveis, conforto para médicos, enfermeiros e todo o pessoal em ação, profissionais ou voluntários, concluindo: “livra-nos da pandemia que nos atinge”.

Podendo ser vistas como semelhantes a gestos religiosos ancestrais e pré-cristãos, estas expressões quentes de fé podem realçar mais a piedade popular do que uma manifestação mais racional de fé: se pouco ou nada há a fazer, que o Alto tenha uma intervenção. Mas há uma frase no texto lido pelo bispo de Leiria-Fátima, como chave de leitura, que vai além da mera petição: “Reforça-nos na cidadania e na solidariedade.”

Não é comum invocar a “cidadania” numa celebração religiosa desta natureza. António Marto sintonizou a oração dos crentes com a urgência de uma atitude ativa perante expectáveis dramas familiares e sociais.

Nas narrativas evangélicas, Jesus opera no concreto da vida próxima e faz próximos os que mais precisam. Construindo a igualdade e a justiça como vivência e caminho de salvação, o “reino” é um encontro e o encontro leva ao “reino”.

Quando convocou os católicos de todo o mundo para se associarem ao momento orante desta sexta-feira, o Papa Francisco sublinhou que uma confiança incondicional na intervenção divina implica uma fé comprometida com os outros.

“Queremos responder à pandemia do vírus com a universalidade da oração”, disse, mas também “da compaixão e da ternura”, assegurando “proximidade às pessoas mais sós”.

O apelo reforça-se numa entrevista à televisão espanhola La Sexta. O Papa diz que não consegue imaginar as dificuldades pelas quais vão passar os empresários, mas defende que o despedimento de trabalhadores “não é solução” para salvar empresas. Os cristãos podiam já começar a orar pela preservação de postos de trabalho e por empresários e governantes inspirados.

 

Joaquim Franco é jornalista e trabalha na SIC

Artigos relacionados

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Os donativos entregues por 136 leitores e amigos somaram, até terça, 30 de junho, €12.020,00. Estes números mostram uma grande adesão ao apelo que lançámos a 7 de junho, com o objetivo de reunirmos €15.000 para expandir o 7MARGENS ao longo do segundo semestre de 2020. A campanha decorre até ao final de julho e já só faltam menos de €3.000! Contamos consigo para a divulgar.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

CE volta a ter enviado especial para promover liberdade religiosa no mundo

O cargo de enviado especial para a defesa da liberdade religiosa tinha sido extinto no ano passado pela presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, mas as pressões de inúmeros líderes religiosos e políticos para reverter essa decisão parecem ter surtido efeito. O vice-presidente da CE, Margaritis Schinas, anunciou que a função irá ser recuperada.

Papa assinala sete anos da viagem a Lampedusa com missa especial online

O Papa Francisco celebra esta quarta-feira, 8 de julho, o sétimo aniversário daquela que foi a primeira (e talvez mais icónica) viagem do seu pontificado: a visita à ilha de Lampedusa. A data é assinalada com uma eucaristia presidida por Francisco na Casa Santa Marta, a qual terá início às 10 horas de Lisboa, e será transmitida online através dos meios de comunicação do Vaticano.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Hospital pediátrico do Vaticano separa com êxito gémeas siamesas unidas pelo crâneo

Hospital pediátrico do Vaticano separa com êxito gémeas siamesas unidas pelo crâneo

O hospital pediátrico Bambino Gesú, em Roma, gerido pelo Vaticano, separou com êxito duas irmãs siamesas de 2 anos, que nasceram unidas pelo crâneo na República Centro Africana. A complexa operação, que durou 18 horas e contou com uma equipa de 30 profissionais de saúde, teve lugar no passado dia 5 de junho, mas o hospital só revelou todos os detalhes esta quarta-feira, 8 de julho, numa conferência de imprensa.

É notícia

Entre margens

Re-cristianizar é preciso! novidade

Muita gente pensa que se eliminarmos a religião da arena pública, também acabarão as noções éticas que (ainda) sustentam a nossa sociedade. Mas para essas pessoas a moral cristã é a mãe de todas as repressões. A sociedade utópica está na música de John Lennon. É preciso deixar de cultivar moralismos “medievais”. Sejamos livres. Sejamos livres para gritar e estrebuchar.

Do confinamento às Minas

Vestígios dos trilhos usados para o contrabando abundante nesta zona da raia. Algum complemento a um salário magro. Histórias de perigos, ousadia, dignidade, persistência e superação. Na aldeia de Santana das Cambas existe um Museu do Contrabando que soubemos estar encerrado.   
Curvo-me perante uma realidade que desconhecia, apenas intuía… Ao olhar para os mineiros envelhecidos e suas famílias passei a vê-los como heróis, príncipes daquela terra, figuras exemplares de cidadania e coragem.

A favor do argumento ontológico

A realidade é um extraordinário abismo de Ilimitado em todas as direções e dimensões. É isto o Absoluto. Não tendo na sua constituição nenhuma descontinuidade, nenhum vazio absoluto (pois nele o nada absoluto [ou Nada] não pode simplesmente ter lugar), o Absoluto é plenitude de Ser. A isto se chega pela simples consideração de que o Nada, precisamente por ser Nada, não existe nem pode existir, pelo que sobra “apenas” aquilo que existe de facto, que é Tudo.

Cultura e artes

Ennio Morricone na liturgia católica em Portugal novidade

Embora músico semi-profissional – pertencia então à Equipa Diocesana de Música do Porto, presidida pelo padre doutor Ferreira dos Santos – desconhecia por completo, em 1971, quem era Ennio Morricone: sabia apenas que era o autor de uma balada cantada por Joan Baez, que ele compusera para o filme Sacco e Vanzetti (1971). Não me lembro como me chegou às mãos um vinil com essa música. Também não tinha visto o filme e não sabia nada dos seus protagonistas que hoje sei tratar-se de dois anarquistas de origem italiana condenados à cadeira eléctrica nos Estados Unidos, em 1927, por alegadamente terem assassinado dois homens…

Um exercício lento e sólido de teologia bíblica novidade

No deserto pleno de ruídos em que vivemos – de notícias e conferências, de estradas engarrafadas e redes sociais saturadas –, é possível ver surgirem vozes de pensamento, de sabedoria sobre o que nos rodeia e nos habita. As páginas deste livro constituem uma dessas vozes. Cabe-nos escutá-la.

Aquilino e Bartolomeu dos Mártires: o “pai dos pobres e mártir sem desejos”

Aquilino Ribeiro, escritor de prosa escorreita, pujante, honrou a dignidade da língua portuguesa à altura de outros antigos prosadores de grande qualidade. Irmanado com a Natureza beirã: aves, árvores, animais e homens. Espirituoso e de fina ironia, é bem o Mestre da nossa Língua. Em “Dom Frei Bertolameu” faz uma espécie de hagiografia do arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590), canonizado pelo Papa Francisco a 6 de Julho de 2019.

Ennio Morricone: O compositor que nos ensinou a “sonhar, emocionar e reflectir”

Na sequência de uma queda em casa, que lhe provocou a ruptura do fémur, o maestro e compositor italiano Ennio Morricone morreu esta segunda-feira em Roma, na unidade de saúde onde estava hospitalizado. Tinha 91 anos. O primeiro-ministro, Giuseppe Conte, evocou com “infinito reconhecimento” o “génio artístico” do compositor, que fez o público “sonhar, emocionar, refletir, escrevendo acordes memoráveis que permanecerão indeléveis na história da música e do cinema”.

Sete Partidas

STOP nas nossas vidas: Parar e continuar

Ao chegar aos EUA tive que tirar a carta condução novamente. De raiz. Estudar o código. Praticar. Fazer testes. Nos EUA existe um sinal de trânsito que todos conhecemos. Porque é igual em todo o mundo. Diz “STOP”. Octogonal, fundo branco, letras brancas. Maiúsculas. Impossível não ver. Todos vemos. Nada de novo. O que me surpreendeu desde que cheguei aos EUA, é que aqui todos param num STOP. Mesmo. Não abrandam. Param. O carro imobiliza-se. As ruas desertas, sem trânsito. Um cruzamento com visibilidade total. Um bairro residencial. E o carro imobiliza-se. Não abranda. Para mesmo. E depois segue.

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco