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Oração rezada pela Rainha Santa contra epidemias redescoberta na Síria

| 23/03/2021

ícone, Síria

O ícone foi datado entre 1700-1710. Representa a mãe de Jesus, representada de frente e ligeiramente voltada para a esquerda, com o filho ao colo, a quem amamenta. Foto: Direitos Reservados

 

Um ícone que está à guarda da Temple Gallery, em Londres, tem uma inscrição em árabe arcaico, que corresponde a uma oração que terá sido rezada também pela Rainha Santa Isabel e pelas Clarissas de Coimbra, no século XIV, quando esta cidade foi atingida pela peste em 1317. De Damasco, a oração chegou a Portugal e, agora, “regressou” à Síria.

A história foi contada pela irmã Maria Lúcia Ferreira, conhecida como irmã Myri, monja portuguesa do Mosteiro de São Tiago Mutilado, em Qara (Síria), ao serviço de informação da fundação Ajuda à Igreja que Sofre.

A superiora do mosteiro, a irmã Agnès de La Croix, foi chamada a decifrar inscrições em alguns ícones, uma vez que é perita em restauro destas imagens desde que iniciou a sua vida religiosa no Carmelo de Harissa, no Líbano.

A inscrição num dos ícones, em árabe arcaico, foi analisada pela irmã Agnès. É, afinal, o texto de uma oração que teria sido usada no Mosteiro de Santa Clara, em Coimbra, quando a cidade foi devastada pela peste em 1317. A tradição das freiras clarissas de Coimbra dizia que o texto lhes tinha sido “oferecido” por São Bartolomeu, escrito num cartão, numa aparição do apóstolo ao mosteiro.

O mosteiro, que tinha sido restaurado três anos antes por Isabel de Aragão, mulher do rei D. Dinis, foi poupado à epidemia, conta a história. A Rainha Santa, que seria canonizada pelo Papa Urbano VIII em 1625, morreria no mosteiro, depois de para ele se ter retirado.

O ícone analisado agora em Qara foi datado entre 1700-1710. Representa a mãe de Jesus, representada de frente e ligeiramente voltada para a esquerda, com o filho ao colo, a quem amamenta. De cada lado da composição central estão dois anjos de joelhos. Na parte inferior está o texto, uma prece à Mãe de Deus para implorar a sua proteção contra a epidemia:

“Estrela do céu,
que amamentou o Senhor,
derrotou a praga mortal plantada
pelo primeiro pai dos homens.
Que esta estrela se digne agora
reter os corpos celestes
cujas batalhas afligem o povo
pelas cruéis feridas da morte.”

A oração, conta a irmã Myri, citada pela mesma fonte, teria sido composta por São Pedro de Damasco, contemporâneo de São João Damasceno, quando houve no século VIII uma grande peste. E foi escrita no ícone do início do século XVIII porque Alepo também enfrentava por vezes vagas epidémicas de peste bubónica.

Entretanto adoptada pelas irmãs do mosteiro de Qara – que lhe atribuem até o facto de um surto de covid na região ter diminuído… – a oração conclui:

Ó mais piedosa estrela do mar,
salvai-nos da epidemia.
Ouvi-nos, Nossa Senhora,
porque o vosso filho que vos honra
não vos pode recusar nada.
Salvai-nos, ó Jesus,
por quem a Virgem Mãe vos reza.
Rogai por nós, piedosa Mãe de Deus.
Vós que quebrastes a cabeça da serpente,
socorrei-nos.

 

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