Presidente da República fez surpresa

Ordem da Liberdade para um “profeta” subversivo do Evangelho

| 18 Out 21

O Presidente da República decidiu atribuir postumamente a Ordem da Liberdade ao “profeta” Alfredo Bruto da Costa. Porque quem luta para acabar com a pobreza luta pela liberdade, justificou.

Marcelo entrega Ordem da Liberdade a Vera Bruto da Costa, em nome do marido. Foto © Cáritas

 

O livro é “mais um testemunho do profeta”. E também por causa dele o Presidente da República entregou à família de Alfredo Bruto da Costa “aquilo que Portugal pediu para que lhe entregasse: a Ordem da Liberdade”. Porque “uma forma de viver a profecia”, justificou Marcelo Rebelo de Sousa, “é viver a libertação da pobreza e [Bruto da Costa] transformou isso no desígnio da sua vida”.

Foi desta forma, eram quase 18h deste domingo, na sala de extrações da Misericórdia de Lisboa (instituição da qual Bruto da Costa foi provedor) que o Presidente concluiu a sessão de apresentação do livro Que Fizeste do Teu Irmão? – Um olhar de fé sobre a pobreza no mundo. A obra póstuma de Alfredo Bruto da Costa, pioneiro, com Manuela Silva, nos estudos sobre a pobreza em Portugal, foi editada pela Cáritas e o 7MARGENS publicou já os dois primeiros textos do autor.

Antes, o Presidente falara da importância da sessão e do acto que ela representava: a homenagem a “um profeta que pensava com rigor científico e que agia” e que “não dissociava a ciência e a fé”. Bruto da Costa, recorde-se, foi ministro dos Assuntos Sociais no governo chefiado por Maria de Lourdes Pintasilgo, tendo mais tarde sido presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica, bem como do Conselho Económico e Social.

“Este testemunho de profeta convoca-nos para o mundo e para Portugal” e a palavra de Alfredo Bruto da Costa, agora colocada neste livro editado pela Cáritas, “destina-se a lembrar que não há nada mais radical, mais subversivo que o Evangelho”.

A fé cristã “tem necessariamente implicações políticas, senão, é uma fé coxa”, acrescentou o Presidente. “Cada vez que que se discutem questões da pobreza ou de justiça, é impossível não ver as implicações políticas dessa intervenção.”

Marcelo Rebelo de Sousa referiu ainda o facto de Bruto da Costa, que morreu em 11 de Novembro de 2016, aos 78 anos, e muitas outras pessoas terem vivido o compromisso político da sua fé em grande parte do tempo durante a ditadura. Por isso, mais se justifica que, em democracia, os cristãos entendam a dimensão política da sua fé, defendeu.

O Presidente destacou ainda as três ideias principais do pensamento de Bruto da Costa: enfrentar a privação de quem não tem meios para subsistir, garantir a autonomia dessas pessoas e agir no combate às causas da pobreza e da miséria. (O discurso de Marcelo rebelo de Sousa pode ser visto no vídeo a seguir:)

 

 

Ideias que se consubstanciam no último parágrafo do livro agora editado e que o Presidente fez questão de ler: “Temos de reconhecer que o nexo entre a fé cristã e a política tem sido pouco valorizado e praticamente não existe para a maior parte dos cristãos. Menos ainda se verifica que o problema da pobreza tenha o lugar que merece entre os critérios em que assentam as respectivas opções políticas. Ao abster-se da intervenção política, o cristão demite-se do exercício consistente da caridade e da justiça, ambas dotadas de uma dimensão interpessoal particularmente importante, mas que permanecem limitadas nas suas consequências quando as suas exigências e implicações não chegam a penetrar na esfera política. Doutro modo, o exercício do amor ao próximo não chega às origens e às causas estruturais da pobreza.”

O dia escolhido não podia ser mais simbólico, apesar de não ter sido referido: neste domingo assinalava-se o Dia Internacional para a Erradicação da Miséria. O próprio Presidente referiu os 2,2 milhões de pobres em Portugal – número que aumentou em relação aos dois milhões de antes da pandemia, disse Marcelo; e que é superior aos 1,6 milhões referidos durante o dia em várias notícias sobre um levantamento feito pela Pordata, a partir do número de pessoas que vivem com menos de 540 euros por mês (e que Rita Valadas, presidente da Cáritas Portuguesa, igualmente presente na sessão, também considera que podem estar camuflados).

Ao mesmo tempo, o país assinala também os 25 anos do Rendimento Mínimo Garantido (antecessor do Rendimento Social de Inserção), em cuja origem estiveram Alfredo Bruto da Costa e Manuela Silva. Isso mesmo foi recordado por António Guterres, autor de um dos prefácios do livro e primeiro-ministro à época da criação daquela medida, que enviou uma mensagem em vídeo para a sessão.

 

Juntar a ciência e a fé

Também o cardeal Tolentino Mendonça gravou uma mensagem vídeo na qual retomou várias afirmações do segundo prefácio incluído no livro. Recordando os seus primeiros encontros com Bruto da Costa ainda quando era seminarista, o cardeal bibliotecário do Vaticano disse que Alfredo Bruto da Costa distinguia o direito de todas as pessoas à casa, ao trabalho, à propriedade e a uma vida digna daquilo que é a realidade de posse desses bens, em que só alguns os têm.

Rita Valadas acrescentou que as obras de misericórdia são de uma grande actualidade e Edmundo Martinho, provedor da Misericórdia, deu um exemplo da terrível actualidade de uma delas: mais de 200 pessoas foram sepultadas no último ano pela instituição e pela Irmandade de São Roque, “sem qualquer acompanhamento de algum familiar ou amigo”.

António Silva Soares, presidente do Fórum Abel Varzim – Desenvolvimento e Solidariedade, a outra entidade co-organizadora da sessão, destacou também o facto de Bruto da Costa juntar a ciência e a fé, recordando ao mesmo tempo a conversa que tivera com o autor, quando lhe perguntou se ele não queria publicar um livro com as suas ideias.

Guilherme d’Oliveira Martins, actualmente administrador da Fundação Gulbenkian, teve a seu cargo a apresentação do livro, destacando o desafio deixado pelo autor para que ninguém baixe os braços no “caminho no sentido da cidadania e da dignidade da pessoa humana”. E as filhas de Bruto da Costa, Madalena e Margarida, evocaram o legado deixado pelo pai: “Deixa-nos a todos as sementes do seu pensamento, da coerência de vida, da sua voz inconformada que nos convida a ampliar o nosso olhar e alargar a nossa tenda.” Pela sua importância, o 7MARGENS publica esses dois textos como documento.

 

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