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[Entre Margens]

Ordenação de mulheres: entre a tradição e os sinais dos tempos

| 01/05/2026

 

A junção das palavras “mulheres” e “sacerdócio” gera sempre discussões amplas e posicionamentos divergentes. Para alcançarmos novas perspectivas, é imperativo assumir com honestidade todas as linhas argumentativas relativas à teologia sacramental, à dimensão eclesial da Igreja e, por fim, à leitura antropológica da cultura.[1]

João XXIII, em pleno desenvolvimento do Concílio Vaticano II, apresentava, na encíclica Pacem in Terris, três marcos fundamentais da sua leitura dos sinais dos tempos. O primeiro elemento, descrito no número 39, é “a gradual ascensão económico-social das classes trabalhadoras”; o segundo, o “ingresso da mulher na vida pública” – que pressupõe o reconhecimento da igual dignidade entre os sexos; o terceiro: a evolução da sociedade humana para um padrão sociocultural e político completamente novo, marcado pela autodeterminação dos povos.[2]

Deste modo, refletir sobre esta conjuntura deve conduzir-nos a um ajuste mais eficaz, uma vez que se trata de uma evidência que nos interpela e não pode ser meramente descartada. Ler a história sob a luz de Deus é o oposto de ceder a uma expressão influenciada pela opinião pública ou inflamada por ideologias externas. Esta interpretação exige uma abordagem contemplativa, consciente de que a Igreja nunca se encontra no ponto final – o Ómega –, mas no meio da caminhada temporal, ciente de que o Espírito sopra onde e quando quer.

 

Pensar o problema

Papa João XXIII: o seu magistério deslocou “o centro do campo de afirmação dos católicos” e “Salazar e o seu catolicismo tinham ficado na periferia”. Foto © XXXXXXXXX

Papa João XXIII: “Uma coisa é a substância do depositum fidei, isto é, as verdades contidas na nossa doutrina, e outra é a formulação com que são enunciadas”. Foto: Direitos Reservados.

Neste sentido, as questões deste “problema” não se prendem apenas com a reivindicação de uma fação; pedem, pelo contrário, que o horizonte nos traga uma consciência mais alargada do modo de perceber a Igreja. É inegável que este debate não se resume a uma exigência feminina, configurando-se antes como um desafio para todo o Povo de Deus, homens e mulheres batizados. Por conseguinte, a questão impõe-se: que enriquecimento adviria para a Igreja com o acesso das mulheres à ordenação?[3]

O nosso modo de proceder não pode apoiar-se em formulações idealizadas, mas sim na observação atenta do panorama concreto. Frequentemente, o clima antagónico ao diálogo legitima-se pela força do poder, que procura manter inalterado aquilo que se recusa a discutir. Refugiamo-nos excessivamente na juridicização do magistério, numa tendência guardiã que se orienta pela assimetria hierárquica, ao invés de promover espaços de verdadeira comunhão. Ou, como nos lembrava João XXIII: «Uma coisa é a substância do depositum fidei, isto é, as verdades contidas na nossa doutrina, e outra é a formulação com que são enunciadas».[4]

No entanto, a nossa fidelidade à tradição não pode ser dinamizada por uma posição estática, mas sim por um corpo aberto e vivo. A fé não sobrevive a reformas sem contexto, nem a reconquistas de territórios perdidos. Por essa razão, corremos o risco de uma absolutização doutrinal que condiciona o impulso ao seu desenvolvimento, pois nenhuma tradição existe fora da Igreja. Esta nasce, porém, dentro de cada tempo específico, da escuta da Palavra, do sensus fidei e do discernimento comunitário. Como nos recorda o Vaticano II, o verdadeiro serviço da Igreja reside na sua capacidade de servir a fé dos fiéis; caso contrário, tornar-se-á um instrumento de domínio.[5]

 

A fragilidade

Ícone de Maria 2.0, movimento de mulheres católicas alemãs que pede igualdade na Igreja. Ilustração © Lisa Kötter/Direitos reservados.

Ao revisitarmos a caminhada histórica, compreendemos facilmente como se consolidou o sentido que dá primazia ao sexo masculino para a ordenação. Se, num dado momento, isto nascia de um preconceito social, hoje deparamo-nos com o facto de que tal pressuposto se torna cada vez mais insustentável e embaraçoso.

O cristianismo é fruto de vários processos de inculturação. Na sua viragem cultural ao dialogar com o mundo greco-romano, a Igreja assumiu uma antropologia que colocava no centro a superioridade do homem. Esta determinação atravessou os séculos para sustentar a sua inferioridade [da mulher], já que, nessa visão, a mulher era considerada um “projeto falhado”. Este posicionamento foi acolhido na teologia de São Tomás de Aquino e de São Boaventura. Se no Doutor Angélico o sexo feminino era visto como um impedimento, para Boaventura a mulher não detinha o requisito simbólico necessário para o sacramento.[6]

Tal dedução torna-se hoje indefensável. No primeiro caso, observamos uma fundamentação estritamente sociocultural; por outro lado, o teólogo franciscano eleva a discussão a um patamar simbólico que ainda hoje serve de base à argumentação magisterial (basta reler:  Inter Insigniores, 1976, Ordinatio Sacerdotalis, 1994, Responsum ad dubium, 1995): a vinculação da humanidade salvadora de Jesus e do exercício da jurisdição eclesial à exclusividade do sexo masculino.[7]

 

Contraponto: O Deus que é sempre Maior

Visitação de Maria a Isabel; Cimabue, mosaico, baptistério, Florença

Visitação de Maria a Isabel; mosaico no baptistério de Florença, atribuído a Cimabue.

Estas razões são passíveis de crítica. Em primeiro lugar, considero que a Igreja se posiciona numa contracultura face ao mundo contemporâneo. Apesar da presença significativa das mulheres na sociedade – ainda que seja uma mudança recente –, compreendemos que o modo de ser mulher e o seu papel estão em mutação acentuada, embora, como reação, continuemos a justificarmo-nos nos princípios balthasarianos.[8] Baseados numa leitura estética e polarizada (Masculino/Cristo-Esposo vs. Feminino/Igreja-Esposa), estes princípios acabam por prender a identidade feminina a um espaço de perfeição idealizada que nega a possibilidade de se ser o que se é, com as qualidades e limites da condição humana real. Mas não esqueçamos o que Gregório de Nazianzo nos ensinou: “O que não foi assumido, não foi salvo.”

Importa recordar as afirmações do IV Concílio de Latrão, segundo as quais todas as nossas afirmações sobre Deus são mais dessemelhantes do que semelhantes, porque Deus é sempre maior. Como questiona o teólogo Massimo Epis: “Não será que, pelo zelo de salvaguardar a masculinidade do ministro ordenado, se acaba por afirmar algo redutor sobre Deus?”

Na verdade, ao percorrermos os Evangelhos – em particular o de Lucas –, deparamo-nos não só com a liberdade de Jesus ao admitir mulheres no seu seguimento, mas igualmente com o protagonismo daquelas que, na sua profunda liberdade, interpretam e viabilizam a vontade de Deus. É o que observamos no episódio da Anunciação (Lucas 1, 26-38) e no movimento que se prolonga na Visitação (Lucas 1, 39-56), diante do encontro entre duas mulheres, Maria e Isabel: o primeiro espaço de exegese e reconhecimento profético do Messias na história cristã. Viabiliza-se, deste modo, a própria possibilidade da Encarnação através da mediação e da inteligência da fé feminina.[9]

Voltemos ainda ao II Concílio do Vaticano. A constituição Lumen Gentium recorda-nos a primazia do sacerdócio batismal (LG, 10-11). Na realidade, é dele que todo o restante procede, de tal forma que nenhuma ordenação pode configurar uma qualidade superior, já que sem batismo não há ordenação. Por outro lado, aplicado aos princípios de Balthasar, o ministério petrino não é concebido sem o “sim” de Maria.[10]

Seguramente, sabemos que a tradição da Igreja é rica pela sua história e, por isso, não podemos reduzi-la apenas a um período. Porventura, quando nos debruçamos sobre matéria doutrinal, parece que a nossa reflexão se fixa em determinados tempos, esquecendo todo o hiato cronológico que nos atravessa.[11] E, nesta problemática em particular, dá a impressão de que negligenciamos a primazia do sacerdócio batismal como lugar teológico em que se estabelece igualdade e dignidade a todos os crentes, em prol da sustentação de um clericalismo.

Ou seja: o que está em causa é a forma como continuamos a colocar o ministério de forma sacralizada e separada, ao invés de procurarmos estabelecer um nó comunitário e sinodal, em que todos podem decidir e partilhar a responsabilidade pelo bem comum. Como explica Linda Pocher: «o ministério ordenado é um dom concedido a alguns para o serviço de toda a comunidade eclesial. O ministério sacerdotal existe para ajudar cada crente a florescer plenamente em seu próprio sacerdócio batismal. Não estaria o chamado clericalismo enraizado precisamente num certo esquecimento dessa primazia que fundamenta e estabelece a igualdade em dignidade de todos os crentes?»[12]

No entanto, como observamos no Código de Direito Canónico (CDC 1008), os ministros sagrados são constituídos para que «desempenhem na pessoa de Cristo Cabeça as funções de ensinar, santificar e reger». Não poderão estas condições ser aplicadas à mulher? Não será que aí a nossa posição seria surpreendida pelo que Paulo nos diz: «Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito para o bem comum.» (1 Cor 12, 4-7).

 

 Em jeito de conclusão

Espírito Santo, João Cutileiro.

Espírito Santo, João Cutileiro, escultura no Hospital do Espírito Santo, em Évora. Foto © Manuel Vieira, cedida pelo autor.

A fragilidade destas argumentações deve levar a Igreja a uma interpretação profética. Apesar de esta questão ser tida como definitiva, a sua legitimação não é convincente, porque assenta apenas numa teologia da autoridade, ou, nas palavras de Grillo: «repete continuamente o “quê” sem poder dar a menor justificação do “porquê”».[13]

Assumindo a evolução cultural do Vaticano II, a Igreja deparou-se com duas certezas: a de que Deus ama o mundo e a de que o Espírito Santo está em ação. Dito de outro modo, a mulher no espaço público deixa de ser um tema setorial para passar a ser uma questão da humanidade inteira. A Igreja procura sempre discernir os sinais de Deus a agir na história, porque é esse o modo para compreender melhor a verdade do Evangelho.[14] A Igreja é aprendiz e mestre. Esta questão não encerra apenas conclusões sociológicas, mas sinais do Reino. Como dizia o padre Congar, é o humano a bater à porta da Igreja, pedindo-lhe que abra o Evangelho na página que ele precisa de ler naquele momento. O risco que este receio traz é o de «tentar fundamentar teologicamente o que não passará de herança cultural». Ser fiel ao Evangelho implica ver este impasse teológico como recordava o Papa Francisco na Evangelii Gaudium: «A Igreja pode chegar a reconhecer costumes próprios não diretamente ligados ao núcleo do Evangelho… Podem até ser belos, mas agora não prestam o mesmo serviço à transmissão do Evangelho. Não tenhamos medo de os rever!»

 

[1] Cf. AA. VV., Vem Ver: Com Maria ver… Espiritualidade Inaciana (Braga: Apostolado da Oração, 2018), 85-89.
[2] José Frazão Correia, “Adaptar o anúncio por fidelidade ao Evangelho”, Ponto SJ, 26 de fevereiro de 2024, https://pontosj.pt/opiniao/adaptar-o-anuncio-por-fidelidade-ao-evangelho/.
[3] Cf. José Frazão Correia “O não acesso de mulheres ao diaconado: razões teológicas e preconceitos culturais”, Brotéria 202, n.º 2 (fevereiro 2026): 104.
[4] Cf. José Frazão Correia, “Adaptar o anúncio por fidelidade ao Evangelho”.

[5] Cf. Miguel Pedro Melo, “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades… e o Magistério?”, Ponto SJ, 14 de agosto de 2023, https://pontosj.pt/opiniao/mudam-se-os-tempos-mudam-se-as-vontades-e-o-magisterio/.
[6] Cf.Andrea Grillo, “As mulheres e o mistério ordenado: argumentos teológicos e táticas magisteriais”, Brotéria 199, n.º 4 (2025): 251-263.
[7] Cf. José Frazão Correia “O não acesso de mulheres ao diaconado: razões teológicas e preconceitos culturais”, Brotéria 202, n.º 2 (fevereiro 2026): 104.
[8] “El principio mariano de la Iglesia: aspectos antropológicos y eclesiales de la presencia y el papel de María en la historia de la salvación”, Humanitas, acedido em 27 de março de 2026, https://www.humanitas.cl/iglesia/el-principio-mariano-de-la-iglesia-aspectos-antropologicos-y-eclesiales-de-la-presencia-y-el-papel-de-maria-en-la-historia-de-salvacion.

[9] Cf. Lucia Vantini, Linda Pocher e Luca Castiglioni, «Desmasculinizar a Igreja»? Análise crítica dos «princípios» de Hans Urs von Balthasar (Prior Velho: Paulinas Editora, 2024) 30.
[10] El principio mariano de la Iglesia: aspectos antropológicos y eclesiales de la presencia y el papel de María en la historia de la salvación”.
[11] Yves Congar, No meio da tormenta, Colecção Galáxia (Lisboa: União Gráfica, 1971) 60.
[12] El principio mariano de la Iglesia: aspectos antropológicos y eclesiales de la presencia y el papel de María en la historia de la salvación”.
[13] Andrea Grillo, “As mulheres e o mistério ordenado: argumentos teológicos e táticas magisteriais”.
[14] José Policarpo, “«Sinais dos tempos» hoje, na sociedade e na Igreja em Portugal”, Santuário de Fátima, acedido em 27 de março de 2026, https://www.fatima.pt/pt/news/d-jose-policarpo-sinais-tempos-hoje-na-sociedade-na-igreja-em-portugal .

 

Pedro Fraga é sacerdote da arquidiocese de Braga.

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