
A Cruz Sinodal presidindo à quarta sessão do Caimho Sinodal alemão. Foto © Synodaler Weg/Maximilian von Lachner.
Após um dia de crise e nervos à flor da pele, o Caminho Sinodal da Igreja Católica na Alemanha recuperou a serenidade necessária para debater e aprovar, esta sexta-feira, 9, por esmagadora maioria, outro “documento fundacional”, sobre “As mulheres nos ministérios e empregos na Igreja”.
Desta vez, o sim ao texto votado contou com uma maioria qualificada de quase 92 por cento entre a totalidade dos membros sinodais e de 81,88 por cento entre os bispos. Estes conseguiram fazer aprovar pequenas alterações que facilitaram o apoio.
Para chegar a este resultado, foi necessário muito trabalho de bastidores e uma reunião entre os bispos, na quinta à noite, que foi tensa. Era notória a divergência entre eles. Vários tornaram pública a incomodidade com o facto de os votos contra não terem sido justificados por objeções apresentadas na fase de debate do documento sobre moral sexual (que versa sobre uma visão teológica e pastoral da sexualidade e da moral sexual substancialmente distanciada do que a Igreja vem oficialmente defendendo).
Os membros sinodais que, nesse mesmo dia, tinham abandonado os trabalhos em protesto por aquilo que foi considerado uma “falta de responsabilidade” e uma “quebra de confiança”, acabaram por voltar à sala das sessões neste segundo dia, o que foi bem acolhido por todos.
Mas a copresidente do Sínodo, Irme Stette-Karp, também presidente do Comité Central dos Católicos Alemães, salientou que gostaria de ver uma outra atitude da parte dos bispos, no que diz respeito à comunicação e à transparência, apelando a que quem tem objeções aos documentos as apresente antes de votar. Comportar-se de outro modo, muitas vezes sem ter comparecido sequer em reuniões intercalares ou preparatórias em que deveria estar, é “abusar da confiança das pessoas”.
A copresidente disse ainda que os temas centrais do Sínodo surgiram, em 2019, da percepção de que correspondiam a grandes preocupações de muitos cristãos e da sociedade e lembrou que alguns desses temas decorreram de recomendações expressas dos estudos sobre abusos sexuais na Igreja, em que os bispos também tiveram responsabilidades.
Vincou por fim que, para a organização que representa, o tema das mulheres na Igreja (que viria a ser debatido logo a seguir) era crucial e que tinha contado com aturados trabalhos de auscultação e incorporado achegas, aquando da primeira apreciação, numa sessão anterior. Neste contexto, deixou no ar a possibilidade de a organização abandonar os trabalhos, caso se repetisse o comportamento da minoria de bispos que inviabilizaram a votação no dia anterior.
Georg Bätzing, presidente da Conferência dos Bispos Alemães e copresidente do Sínodo, disse, por sua vez, que o documento inviabilizado, pela adesão que colheu entre os membros sinodais, não deixava de ser um resultado do processo sinodal, comprometendo-se a apresentá-lo no Sínodo dos Bispos, na visita ad limina ao Papa e nas reuniões da fase continental do Sínodo sobre a sinodalidade. Comprometeu-se ainda a levá-lo à prática na sua diocese, como acredita que outros bispos alemães farão. Trata-se, em seu entender, de um documento que, não sendo magistério oficial da Igreja, não deixa de ser um contributo fundamentado e amadurecido que pode ser relevante para outras Igrejas.
O documento sobre as mulheres na Igreja, aprovado nesta quarta sessão do Sínodo germânico começa por afirmar que “as divisões de acordo com a origem, status e género são abolidas” na comunidade de batizados, que “confessam Jesus como o Cristo”.
Refere também que “aquilo que é visto na Igreja Católica romana como ordem dos géneros dada por Deus foi e é – mais do que na sociedade em geral – em grande medida cultural e historicamente determinada pela respetiva cultura predominante, e especialmente pela dinâmica do seu poder político”.
O documento, de cerca de 30 páginas, estrutura-se em cinco partes. Por elas passam alguns dos “desafios do nosso tempo”, como o abuso clerical e sexual, violência sexual e sexualizada contra mulheres e raparigas e perigos potenciais eventualmente associados à pastoral e aos sacramentos, bem como nos empregos na Igreja; o debate sobre a igualdade de género na sociedade; as percepções do humano e das relações entre humanos na Bíblia; as mulheres no Novo Testamento; os modelos bíblicos do ministério; uma perspetiva histórica sobre a tradição e o papel da mulher, entre outros aspetos de pendor mais teológico.
No Sínodo, vincava-se que não existem argumentos teológicos consistentes para excluir as mulheres do acesso aos ministérios ordenados, desde que sintam vocação para eles. E a dirigente católica Irme Stette-Karp defendeu, a este propósito, que a tarefa de justificar e prestar contas não deveria caber a quem as procura incluir, mas a quem, de facto, as exclui.
Para este sábado, prevê-se o debate e votação de um outro “documento fundacional”, este centrado na situação de crise da teologia e realidade quotidiana do ministério presbiteral.
Ainda que se tenham multiplicado nos últimos anos advertências para o risco de um caminho desviante que este processo sinodal pode desencadear – vários cardeais, conferências episcopais e o próprio Papa deram sinais de alerta – quem segue os debates destas sessões sinodais pode aperceber-se de uma vontade mais ou menos afirmada de desenvolver este processo sem perder a perspetiva do diálogo no interior da Igreja universal e, nomeadamente, com o Papa. Mas nota-se também a pressão oriunda das situações concretas de sofrimento, afastamento e rutura em que hoje a experiência de fé e da própria Igreja se faz. É entre a resposta a essas situações e o diálogo com a comunidade mais vasta que bispos e leigos se estão a debater, nestes dias, em Frankfurt.










