Orlas temporais

| 16 Jan 2023

“Afinal, caminhamos de novo em direcção à Primavera; a natureza está dormente, mas adivinham-se as folhagens da renovação. Assim seja com este início de ano também.” Foto: Folhas no outono © Angelo Brathot /WikiCommons

 

Tempo de mudança e novo ano é um tempo panorâmico entre extremos. Um tempo de olhar em volta, para o que ficou atrás e para o possível que se adivinha em frente. São dias em torno da transição, um limbo entre o fim de ano que espera o futuro e o princípio de ano que se volta para admirar o passado.

Ao rito da preparação do círio na Vigília Pascal pedimos emprestados os ingredientes essenciais que compõem este olhar para os extremos – “Cristo, ontem e hoje, Princípio e fim, Alfa e Ómega, A Ele pertence o tempo e os séculos.” No ano civil (apesar de desfasado do ano litúrgico, iniciado há breves semanas no Advento) não deixamos de encontrar os mesmos elementos-chave que nos localizam. O início e o fim, a visão microcósmica à escala do ano daquilo que é a vida de milhões de anos no mundo, desde a criação do Universo que Deus nos ofereceu. O ciclo anual é uma oportunidade de posicionamento da nossa existência numa cronolocalização, tantas vezes descurada em detrimento da agora omnipresente geolocalização.

O ano civil contém em si uma grande dose de “Tempo Comum”, paisagem que corre fugidia entre apeadeiros. Nos limiares da mudança de ano interrompe-se essa paisagem e pode dar‑se tempo para rebobinar a cassete – essa imagem analógica que talvez expresse afinal a nossa memória até de maneira bastante fidedigna, com imagens que, ao serem recuperadas em sentido inverso, passam rápidas, distorcidas, permeadas de chuva de televisão, pouco visíveis, mas intuíveis. Nesse recuar assinalamos os tempos e pontos importantes, mas também aqueles onde faltou cuidado e atenção.

Somos convidados pelo Papa Francisco a entrar no novo ano com uma atitude de conversão e encontro, começando pelo próprio interior: “E enquanto para a covid-19 se encontrou uma vacina, para a guerra ainda não se encontraram soluções adequadas. Com certeza, o vírus da guerra é mais difícil de derrotar do que aqueles que atingem o organismo humano, porque o primeiro não provém de fora, mas do íntimo do coração humano, corrompido pelo pecado” (Papa Francisco, Mensagem para o 56º Dia Mundial da Paz, 1 Janeiro 2023).

A passagem do ano deve conter em si a lembrança de que – apesar dos nobres desejos de usar o futuro para que os próximos “passados” sejam melhores – não deixamos de viver num contínuo temporal que precisa de esforço para vencer a inércia. Aproveitamos a sugestão poética do compositor Guillaume de Machaut, por volta do ano de 1360, no curioso Rondeau a três vozes com movimento retrógrado: “Ma fin est mon commencement / Et mon commencement ma fin” (O meu fim é o meu início / E o meu início o meu fim). Assim são os nossos anos, em parte, fechando e abrindo tempos, repetindo lógicas na sua posição original, retrógrada ou invertida. Mas o facto de o fim ser um início, e o início um fim, pode ser em última instância lido sob duas perspectivas opostas: que o fim seja oportunidade de um verdadeiramente novo início (aqui sem repetições) ou que o início afinal regresse em movimento invertido ao ponto de partida do fim que já conhecíamos.

Seja esta mudança de ano um marco miliário no contínuo temporal, não para marcar um ponto de repetição, mas de novidade, tempo de medir distâncias, rearrumar bagagens. Para que, no caso dos cristãos, a nossa vida com Cristo não seja como a vida sazonal de uma povoação de praia, cheia de vida nos “Verões” litúrgicos e abandonada, estática e congelada, às nortadas e maresias durante o resto das estações do ano. “O Dia do Senhor chega de noite como um ladrão” (1ª Carta aos Tessalonicenses 5,2) é um convite ao movimento, à mudança. Afinal, caminhamos de novo em direcção à Primavera; a natureza está dormente, mas adivinham-se as folhagens da renovação. Assim seja com este início de ano também.

João Valério é arquiteto e organista.

 

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