Sete dioceses (quase) em mudança

Ornelas pode ser reeleito – basta ele querer, dizem bispos

| 16 Abr 2023

D. José Ornelas na sua primeira homilia como bispo titular de Leiria-Fátima. Foto © Arlindo Homem / Agência Ecclesia

D. José Ornelas na sua primeira homilia como bispo titular de Leiria-Fátima. Foto © Arlindo Homem / Agência Ecclesia

 

As eleições da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), um dos pontos fortes da agenda da assembleia plenária que se inicia nesta segunda-feira em Fátima, cruzam-se com o debate sobre os abusos sexuais e a (não) resposta dada pelo episcopado no seu conjunto – e que será o tema principal da assembleia (ver outro texto no 7MARGENS).

Na equação, começa por entrar o facto de o actual presidente, o bispo José Ornelas, ter aparecido diante dos jornalistas, na conferência de imprensa de 3 de Março, a defender o mínimo denominador comum que resultou da assembleia – uma posição que claramente não era a sua. Isso acabou por prejudicar a mensagem que pretenderia fazer passar, como o próprio admitiu uma semana depois, em entrevista ao Expresso.

Em tal quadro, os bispos ouvidos pelo 7MARGENS admitem dois cenários iniciais. No primeiro, o bispo de Leiria-Fátima não recusa a reeleição e os seus pares podem escolhê-lo para um segundo mandato – as eleições são por voto secreto e nominal, não há listas nem candidaturas; quanto mais não seja, reconduzem-no porque isso permite que seja o principal protagonista na questão dos abusos a continuar o trabalho por ele impulsionado.

“A maioria creio que está satisfeita com o presidente, apesar da conferência de imprensa – mas essa traduziu a nossa assembleia de dia 3” de Março, diz um dos bispos. “Nunca vi uma assembleia tão impreparada, sabendo que estava em causa a credibilidade e confiança da Igreja”, acrescenta outro membro da CEP. Durante os quatro dias de retiro que antecederam a assembleia, recorda outro membro do episcopado, nunca se falou do tema dos abusos. O retiro incidiu sobre o texto do Evangelho de São Marcos – e “tanto se fala ali de lidar com os nossos demónios”, diz.

No segundo cenário para as eleições, o próprio José Ornelas recusa continuar ou a maioria dos bispos prefere outra solução, desagradada com a forma de comunicar de Ornelas.

Neste segundo cenário, as soluções para a presidência passam sobretudo por três nomes: os bispos de Braga, Évora e Coimbra. Os dois primeiros apareceram publicamente, no conjunto do episcopado, como entre os que tiveram uma atitude mais assertiva na questão dos abusos. Outro dos bispos por nós contactado diz que a solução natural seria a eleição do vice-presidente, o bispo de Coimbra, Virgílio Antunes, que também tem estado solidário com Ornelas, mesmo se apareceram notícias sobre casos de Coimbra acerca das quais não houve resposta.

Em qualquer dos casos, há ainda quem lamente a imagem de uma hierarquia perdida em lutas internas – e que, por outro lado, não assume diferenças que são normais, acrescenta outro bispo.

 

Um terço em mudança
manuel clemente se de lisboa foto patriarcado de lisboa

O Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, deve apresentar a sua resignação ao Papa pouco tempo antes do início da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa. Foto © Patriarcado de Lisboa

 

As eleições ocorrem num cenário em que praticamente um terço das dioceses está em mudança: além de Bragança e Setúbal, que esperam um novo bispo há mais de um ano, o bispo da Guarda atingiu em Novembro os 75 anos – idade canónica para pedir ao Papa a resignação –, o que significa que escreveu a carta a formalizar o pedido. E o bispo de Beja, que só fará 75 anos no próximo ano, também já pediu para sair, por razões de saúde – e o pedido foi aceite, sabe o 7MARGENS.

Ainda em 2023, o patriarca de Lisboa e o bispo de Portalegre-Castelo Branco atingem os 75 anos. No próximo ano também o bispo do Algarve se junta ao grupo dos que estão de saída, que inclui ainda dois bispos auxiliares: Pio Alves de Sousa (Porto), que esta semana completa 78 anos, e Joaquim Mendes (Lisboa), com 75 feitos há um mês. Isto sem contar eventuais saídas antecipadas, se houver casos de encobrimentos relacionados com abusos. Ou seja, daqui a um ano, dois no máximo, a CEP terá mudado em boa parte a sua constituição.

O problema maior da inoperância do episcopado enquanto corpo, no entanto, está noutro lugar: as conferências episcopais ganharam estatuto – e órgãos próprios – apenas na década de 1960, depois do Concílio Vaticano II. Até aí, havia uma hierarquia dentro da própria hierarquia: o patriarca de Lisboa era o bispo mais importante, seguido dos arcebispos de Braga e Évora, por serem sedes “metropolitas”.

Num país centralizado como Portugal, também aqui a Igreja era Lisboa e o resto quase só paisagem. E até hoje a CEP, admitem dois bispos, não foi capaz, com poucas excepções, de criar e propor dinâmicas mobilizadoras ao conjunto das estruturas católicas em Portugal. Só por breves períodos isso aconteceu e é esse o maior desafio que o conjunto dos bispos enfrenta: seja qual for o presidente, a CEP terá de aparecer com uma imagem pública forte, unida – mesmo admitindo diferenças no seu interior – e mobilizadora.

 

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