
O Conselho Popular Mundial Russo (CPMR), criado e presidido pelo patriarca Cirilo, reúne eclesiásticos, académicos, dirigentes políticos e parlamentares, além de membros de diferentes setores da sociedade civil. Imagem reproduzida a partir da transmissão do Kanal 13
A posição tomada na última semana pelo Conselho Popular Mundial Russo (CPMR), presidido pelo patriarca Cirilo, de considerar a invasão da Ucrânia “uma guerra santa” e “uma nova etapa na luta de libertação nacional do povo russo contra o regime criminoso de Kyiv e o Ocidente”, tem estado a provocar uma onda de repúdio da parte de várias instituições religiosas ucranianas.
O CPMR, que reúne eclesiásticos, académicos, dirigentes políticos e parlamentares, além de membros de diferentes setores da sociedade civil, é uma criação do próprio Cirilo, em 1993, quando ele era arcebispo metropolita e responsável pelo Departamento de Relações Externas da Igreja Ortodoxa Russa. Foi criado num quadro de desagregação do regime soviético, para promover a “unidade espiritual” de todos “os povos russos”, do interior e do exterior.
No congresso extraordinário, o 25º, realizado no dia 27 de março, em instalações da catedral de Cristo Salvador, em Moscovo, foi aprovado um documento em oito pontos, intitulado “O presente e o futuro do mundo russo”. O primeiro ponto é dedicado à “operação militar especial” (SVO, sigla russa), até recentemente a designação oficial russa para a invasão e ocupação de parte da Ucrânia.
“De um ponto de vista espiritual e moral, uma operação militar especial é uma Guerra Santa, na qual a Rússia e seu povo, defendendo o espaço espiritual único da Santa Rússia’, cumpra a missão de ‘detentor’, protegendo o mundo do ataque do globalismo e da vitória do Ocidente, que caiu no satanismo”, refere o documento saído do Congresso, que acrescenta ainda:
“Após a conclusão do Distrito Militar do Nordeste, todo o território da Ucrânia moderna deve entrar na zona de influência exclusiva da Rússia. A possibilidade da existência neste território de um regime político russofóbico hostil à Rússia e ao seu povo, bem como um regime político controlado a partir de um centro externo hostil à Rússia, deve ser completamente excluído”.
Esta parte e o restante documento configuram um programa para o futuro, pautado pela reunificação do “povo russo”, constituído pela “trindade” dos “grandes russos”, “pequenos russos” e “bielorussos” que deveria passar a ser a prioridade da política externa do país.
Por detrás da estratégia – apresentada como “espiritual e moral”, mas com evidentes consequências políticas e militares – está a Igreja Ortodoxa Russa, que preside ao Conselho Popular Mundial Russo e detém, nomeadamente, a orientação e direção de um centro de análise e investigação que prepara os estudos que permitem um documento desta envergadura ser discutido e aprovado num só dia.
Ortodoxos da Ucrânia: “Guerra santa” é anti-cristã
Quem reagiu de imediato ao teor do documento aprovado no congresso do CPMR foi a Igreja Ortodoxa da Ucrânia, historicamente ligada ao Patriarcado de Moscovo (IOU-PM) – ela que tem sido objeto de pressões e medidas que considera perseguição do regime de Kyiv.
Num comunicado emitido no dia 28 de março, a IOU-PM recorda que “proclamou a sua total independência da Igreja Ortodoxa Russa, em 27 de maio de 2022” e declara que “se dissocia, não partilha categoricamente e condena as ideias expostas neste documento”.
Esclarece também que “não apoia e se distancia da ideologia da ‘paz russa’” e cita o metropolita Onofre, que dirige esta Igreja, quando ele enfatizou “não estar a construir um mundo russo, mas o mundo de Deus”.
Sobre o teor do documento de Moscovo, acrescenta que ele “ignora os factos históricos e o contexto relacionados com a formação e desenvolvimento da nação e do Estado ucraniano” e que “os ucranianos têm direito à sua identidade nacional e independência”, com a qual a IOU-PM está solidária.
Contesta, ainda, a noção de “guerra santa” associada à invasão da Ucrânia observando que ela “contradiz os princípios básicos da moralidade cristã, especialmente no contexto de agressão armada com uso de violência”.
Finalmente, alerta para o facto de a Bíblia condenar a agressão de países vizinhos, e de os documentos normativos da Igreja Ortodoxa Russa impedirem os clérigos de “cooperar com o Estado na condução de uma guerra civil ou de uma guerra estrangeira agressiva” e opõe-se à “propaganda da guerra e da violência, bem como a outras manifestações de ódio capazes de provocar conflitos fratricidas”.
Documento aprovado tem conteúdos “neonazis”

O Conselho Ucraniano de Igrejas e Organizações Religiosas considera que os responsáveis do Conselho Mundial do Povo Russo e o patriarca Cirilo deveriam ser sujeitos a sanções internacionais. Imagem reproduzida a partir da transmissão do Kanal 13
Entretanto, também o Conselho Ucraniano de Igrejas e Organizações Religiosas (CUIOR), que representa todas as principais organizações religiosas da Ucrânia – cristãos, muçulmanos e judeus – condena “forte e categoricamente” o documento final saído do congresso do “Conselho Mundial do Povo Russo”, observando que ele “contém tentativas para justificar moralmente a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia”.
Este Conselho, salienta o CUIOR em comunicado, “foi estabelecido principalmente pela Igreja Ortodoxa Russa com o apoio do Estado russo” e o documento agora contestado “foi distribuído através dos canais de informação oficiais” daquela Igreja. Por essa razão, a Igreja Ortodoxa Russa e a sua liderança, bem como os líderes de outras associações religiosas da Federação Russa que participam no trabalho do Conselho Mundial do Povo Russo “têm total responsabilidade moral pelo conteúdo deste desumano documento neonazi, que contradiz completamente a verdade, preceitos espirituais e morais do Cristianismo, Islamismo e Judaísmo”.
Justificando esta afirmação, o CUIOR afirma que o documento aprovado em Moscovo “nega a existência do povo ucraniano como uma etnia única, nega o direito do povo ucraniano à sua própria condição de Estado soberano e justifica tanto os crimes de guerra como os atos de genocídio já cometidos pela Federação Russa no território da Ucrânia”.
Em nome das comunidades que representa, o Conselho Ucraniano de Igrejas e Organizações Religiosas apela aos líderes do Conselho Mundial de Igrejas e da Conferência das Igrejas Europeias para condenarem o documento moscovita, sugerindo que os responsáveis do Conselho Mundial do Povo Russo e o Patriarca Cirilo deveriam ser sujeitos a sanções internacionais.









