Carta nos dois anos da guerra na Ucrânia

Ortodoxos denunciam imoralidade do conluio de Cirilo com Putin e a sua guerra

| 22 Fev 2024

A carta pede aos responsáveis que se pronunciem sobre quatro “problemas agudos que os conflitos militares no mundo representam para todos os cristãos: uso da religião para justificar a violência; injustiça; nacionalismo religioso; e mentiras difundidas a partir dos púlpitos das igrejas”. Imagem do site Centro de Estudos Cristãos Ortodoxos da Universidade de Fordham.

 

No momento em que passam dois anos sobre a invasão russa e o início da guerra na Ucrânia, quatro académicos (Sergei Chapnin, Papanikolaou, George Demacopoulos, Nathaniel Wood) do Centro de Estudos Cristãos Ortodoxos da Universidade de Fordham, nos Estados Unidos da América, dirigiram esta semana uma contundente carta aberta aos líderes das igrejas cristãs mundiais, sobre o papel que as confissões religiosas têm tido no conflito. A carta pede aos responsáveis que se pronunciem publicamente sobre quatro “problemas agudos que os conflitos militares em grande escala no mundo moderno representam para todos os cristãos: uso da religião para justificar a violência; injustiça; nacionalismo religioso; e mentiras descaradas difundidas a partir dos púlpitos das igrejas”.

Os destinatários desta iniciativa são o Patriarca ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu; o Papa Francisco; o Primaz de todos os arménios, Garegin; o Arcebispo de Cantuária, líder da Comunhão Anglicana, Justin Welby (que falou há dias sobre o tema na entrevista ao 7MARGENS); o presidente da Federação Luterana Mundial, Panti Filibus Musa; a presidente da Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas, Najla Kassab Abousawan; e o secretário geral do Conselho Mundial das Igrejas, Jerry Pillay. A ausência, nesta lista, do Patriarca Cirilo, da Igreja Ortodoxa da Rússia, indicia um dos principais motivos da iniciativa: denunciar o apoio incondicional que, desde o início, deu à invasão da Ucrânia pelas tropas russas.

Fazendo notar que os quatro problemas apontados têm sido “amplificados no contexto da guerra de agressão russa na Ucrânia”, os quatro subscritores começam por chamar a atenção para o que designam por “um carácter distintivo” deste conflito: a Rússia, uma nação que se identifica principalmente como cristã ortodoxa, invadiu a Ucrânia, outra nação predominantemente cristã, “sem qualquer provocação imediata por parte desta última”. “Ironicamente, acrescentam, os cidadãos de ambos os países eram, até recentemente, membros de uma mesma Igreja Ortodoxa”, a do Patriarcado de Moscovo.

Os quatro especialistas dos estudos ortodoxos deixam de lado uma análise geopolítica do que se tem passado, para adotar o que designam por “uma perspetiva humana”, a partir das linhas da frente. “A agressão da Rússia, observam, colocou os cristãos ortodoxos contra os cristãos ortodoxos vizinhos, dividiu famílias e perturbou a vida pacífica de dezenas de milhões de pessoas em ambos os países. Muitos perderam familiares e amigos; foram exilados ou deslocados internamente como refugiados; ou ficaram feridos ou traumatizados, não apenas física e psicologicamente, mas também espiritualmente”.

A carta aberta reconhece que, perante as consequências do conflito, os cristãos em todo o mundo “não ficaram de braços cruzados”, juntando-se a “centenas de milhões de pessoas não-cristãs que também valorizam a sacralidade da vida e a dignidade da pessoa humana” e que “escolheram livremente ser solidárias com as vítimas desta invasão”.

Porém, os cristãos têm, hoje, “outra tarefa urgente”: encontrar “respostas convincentes a questões relativas à dignidade humana” e à “responsabilidade divina de salvaguardar a vida e administrar a criação”, o que deve incluir “considerações sobre a admissibilidade e justificação da violência, o direito à autodefesa imediata e o envolvimento no combate contra o mal – especialmente quando visto através das lentes do Evangelho”. “A presença da guerra à nossa porta indica que ainda estamos em busca de respostas”, concluem os autores do documento.

Este é o quadro introdutório que leva os académicos norte-americanos a chegar ao ponto central do seu texto: levar aos dirigentes mundiais das igrejas cristãs a sua “preocupação e apelo” pelo “total apoio” do Patriarca Cirilo à agressão russa. “Ele – escrevem na carta aberta – garantiu que a igreja institucional assumisse o patrocínio do exército russo que ocupava parte da Ucrânia. Ao fazê-lo, a Igreja Ortodoxa Russa [IOR] demonstrou uma inequívoca falta de interesse na pacificação e na compaixão.”

Os autores recordam que a IOR foi objeto de “duras perseguições” sob o regime soviético, mas parecia ter entrado numa fase de renascimento, com a derrocada daquele regime, restaurando igrejas e catedrais, construindo novas, reabrindo conventos e mosteiros, além de escolas e seminários. Mas, ao mesmo tempo, ela “reafirmou o seu alinhamento com o Estado”, mesmo quando os que estavam no poder a “tratavam como componente integrante do regime neoimperial”. E é neste alinhamento que a IOR se “envolveu ativamente no aparelho de propaganda e violência do Kremlin”, de que a manifestação mais marcante terá sido “a justificação religiosa e até mesmo pseudoteológica para a agressão desenfreada do regime da Rússia contra uma Ucrânia legitimamente soberana” e da “bênção incessante da invasão e de todos os que nela participam” e a perseguição e castigo dos poucos membros que ousam divergir.

Apesar do seu “envolvimento com o militarismo nacionalista”, esta Igreja continua a considerar-se “a principal Igreja da tradição cristã orientais” e a afirmar “falar como a principal guardiã dos ‘valores tradicionais’”, pode ler-se no documento.

Perante uma guerra que se tornou “a mais sangrenta guerra europeia desde que os nazis iniciaram a Segunda Guerra Mundial ao invadirem a Polónia”, iniciada por um país que, então, “sofreu grandes perdas, saiu vitorioso e mais tarde assumiu compromissos internacionais firmes para promover a paz em todos os países”, o apoio à Ucrânia, incluindo de múltiplas instituições cristãs, vai além da prestação de assistência, tornando-se uma “condenação moral” da agressão da Rússia.

Nesta linha, os autores da carta aberta entendem que o presidente Vladimir Putin (e os responsáveis políticos e militares) não violou apenas as suas obrigações internacionais. Mas também “cometeu uma blasfémia contra Deus”. Trata-se, explica o texto, de indivíduos que “se identificam como cristãos e que frequentemente criticam o Ocidente por se desviar dos valores cristãos”; que se envolvem na construção de novas igrejas e mosteiros, acendem velas e participam nos sacramentos, mas, ao mesmo tempo emitem “ordens para assassinatos, envolvendo-se pessoalmente em crimes de guerra e justificando publicamente ações que contrariam a humanidade e o Criador”.

A situação de “repreensibilidade moral” cresce quando o Patriarca de uma Igreja [subentende-se: Cirilo], juntamente com os bispos e muitos párocos, “não só justificam uma guerra agressiva, mas encorajam ativamente os cristãos a entrarem em conflito com as nações vizinhas, mesmo aquelas consideradas irmãs”. E a denúncia prossegue: “Chegou-se a um ponto em que o silêncio não pode mais ser mantido diante de atos tão flagrantes” que envolvem “mentiras, omissões e manipulações dos factos”.

Numa guerra híbrida, com armamento e desinformação, “qualquer pessoa que participe na mentira participa diretamente nessa guerra”, consideram os investigadores de Fordham, para quem não basta condenar a guerra na Ucrânia ou apelar ao cessar-fogo e à paz. “É agora necessário, advogam, esclarecer a verdadeira causa da guerra”, “chamar a atenção sobre quem a desencadeou para avaliar as ações criminosas por aquilo que são”.

“Nem um único bispo na Federação Russa pregou a paz durante os últimos dois anos desta guerra, mas muitos deles rezam e pregam acerca da vitória da Rússia sobre a Ucrânia. Que vergonha para a Igreja Ortodoxa mais proeminente do mundo moderno. E o resto do mundo cristão institucional permanece em silêncio. Será que chegamos a um ponto em que o silêncio se torna aceitação?”, interrogam os subscritores da carta.

De resto, o “caderno de queixas acerca do Patriarca Cirilo não acaba aqui. Ele é acusado de nunca ter expressado simpatia ou apresentado condolências pelos ucranianos que sofreram perdas e ferimentos ou deslocamentos; perante a morte e sofrimento de crianças; e por aqueles que foram torturados e atormentados pelos soldados russos. Além de “encorajar ativamente” os jovens russos a participar neste “conflito devastador”, proclama que “a Rússia está do lado da luz”, comprometida numa “grande guerra ilusória contra as forças das trevas”. Tratar-se-ia, em suma, de uma “profunda queda espiritual e moral da Igreja Ortodoxa Russa e dos seus líderes espirituais”, da qual o patriarca de Moscovo e primaz da IOR deveria assumir uma “responsabilidade pessoal”.

Apelando ao papel profético do ministério daqueles a quem se dirigem e manifestando apoio aos “poucos líderes cristãos que fizeram pessoalmente declarações públicas” sobre este assunto, os especialistas ortodoxos da Universidade de Fordham lamentam que não haja “uma denúncia consistente e inequívoca da agressão” e que, após dois anos de conflito, “não exista nenhum documento oficial da Igreja que condene a guerra de forma abrangente”.

 

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