Guerra na Ucrânia é razão

Ortodoxos ucranianos declaram autonomia em relação a Moscovo

| 29 Mai 2022

Igreja Ortodoxa Ucraniana, foto de família. Foto © news.church.ua

Igreja Ortodoxa Ucraniana, foto de família. Foto © news.church.ua

 

A posição de apoio à invasão da Ucrânia, por parte do Patriarca Cirilo, de Moscovo, levou a Igreja Ortodoxa Ucraniana, que dele dependia, a anunciar este sábado, 28, a sua “total independência e autonomia”. A decisão foi anunciada este sábado, 28, depois de ter sido proposta pelo respetivo sínodo e, na sexta-feira, 27, decidida pelo concílio, o órgão máximo daquela Igreja.

“Não concordamos com a posição do Patriarca Cirilo de Moscovo e de toda a Rússia sobre a guerra na Ucrânia”, afirmou o concílio, que condenou a guerra como uma transgressão dos mandamentos de Deus.

Relativamente à situação do cristianismo ortodoxo no interior da Ucrânia, que conta ainda com uma Igreja autocéfala, a Igreja Ortodoxa da Ucrânia, considerada cismática por Cirilo mas reconhecida em 2019 pelo Patriarca Ecuménico de Constantinopla, a resolução agora aprovada afirma: “Ciente da responsabilidade especial diante de Deus, o concílio expressa o seu profundo pesar pela falta de unidade da ortodoxia ucraniana. O Concílio sente a existência de um cisma como uma ferida profunda no corpo da Igreja.”

Dizendo haver a esperança de retomar o diálogo, isso exigiria, segundo a Igreja Ortodoxa Ucraniana, que os representantes da Igreja autocéfala teriam que “parar o confisco de igrejas e a transferência forçada de paróquias” da Igreja Ortodoxa Ucraniana e “restaurar a sucessão apostólica dos seus bispos”, para “reconhecer a canonicidade” da sua hierarquia.

Em Moscovo, no entanto, esta separação da parte ucraniana do Patriarcado moscovita foi interpretada de diferentes modos. Alexander Shchipkov, primeiro vice-presidente do Departamento Sinodal do Patriarcado de Moscovo para as Relações da Igreja com a Sociedade e os Media, considerou que a decisão do Concílio da Igreja Ortodoxa Ucraniana sobre a “independência completa” coloca-a perante um cisma, sugerindo, por outro lado, que tal decisão “foi iniciada pelo Departamento de Estado dos EUA”.

Em contrapartida, o metropolita Hilaryon, chefe do departamento de relações externas do Patriarcado de Moscovo comentou que “a unidade entre as igrejas russa e ucraniana é preservada” e que “a Igreja Ortodoxa Russa continuará a fortalecê-la”.

O não recurso ao conceito de autocefalia, comum no universo ortodoxo, suscitou dúvidas sobre o grau da independência anunciada. Segundo o Orthodox Christianity, tratou-se de adotar uma via canónica que evita que as igrejas locais ortodoxas possam considerar a decisão cismática. Os próximos tempos mostrarão se se trata de facto de uma rutura.

 

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