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Louis Sako. Foto (pormenor) © Enric.Vives-Rubio, cedida pelo autor.
Louis Sako. Foto (pormenor) © Enric.Vives-Rubio, cedida pelo autor.

Louis Sako, arcebispo no Iraque

Os americanos ajudaram a fazer crescer o fundamentalismo religioso

| 15/03/2026

Saddam reduziu o Iraque à sua personalidade, os Estados Unidos levaram o caos ao país e os iraquianos pensam que o Ocidente só lhes quer levar os recursos. O arcebispo cristão caldeu de Kirkuk, e depois patriarca católico caldeu de Bagdad, renunciou há dias ao cargo. Em 2011, esteve em Portugal e dizia que a liberdade é uma grande coisa, mas que os cristãos iraquianos se sentem ameaçados. Recupera-se aqui a entrevista publicada no Público em 27 de Dezembro de 2011.

O Natal foi um tempo difícil para os cristãos do Iraque: por causa da violência de que têm sido vítimas desde a invasão do país, tiveram de fazer as celebrações natalícias de dia, cancelando a “missa do galo” em cidades como Bagdad, Mossul e Kirkuk. Depois de, no final de 2010, ter havido um massacre na catedral cristã siríaca de Bagdad, continuam a registar-se perseguições, raptos e violências contra cristãos.

Louis Sako, 76 anos, arcebispo de Kirkuk da Igreja Caldeia até ao início de 2013, esteve em Portugal em Novembro de 2011. Na passada terça-feira, 10 de Março, o Papa Leão aceitou a sua renúncia ao cargo de patriarca católico caldeu de Bagdad e responsável máximo da Igreja Católica Caldeia, desde Fevereiro de 2013, quando foi escolhido para esse cargo. [ver 7 MARGENS].

Em Junho de 2018, tinha sido nomeado cardeal pelo Papa Francisco.

Nesta entrevista, do final de 2011, Sako criticava a forma como os Estados Unidos actuaram nos últimos anos e diz que o Ocidente deveria pensar menos em interesses materiais e procurar antes ajudar os países muçulmanos a respeitar os direitos humanos e a democracia.

A Igreja Caldeia, comunidade do Oriente que reza em aramaico, a mesma língua de Jesus, subsiste desde o início do cristianismo. Apesar de unida ao Papa, tem padres casados e os bispos são escolhidos pelas comunidades. Ambas as experiências podem ser alargadas ao Ocidente, diz o arcebispo, que esteve no cargo desde 2003. Responsável por uma das 16 dioceses dos caldeus, que representam cerca de 80 por cento do milhão de cristãos iraquianos, Sako dizia que a principal ameaça é o fundamentalismo, mas manifestava-se também muito crítico da política dos Estados Unidos e do Ocidente.

Os cristãos do Iraque estão ameaçados?

O futuro dos cristãos está ameaçado, com o crescimento do fundamentalismo islâmico, que exclui todos os que não estão com eles, todos os que não têm a sua mentalidade ou ideologia.

Temos algum medo do futuro, de que os cristãos não continuem na região, que é a nossa. Nós éramos cristãos antes da chegada dos muçulmanos, éramos a maioria. Pouco a pouco, tornámo-nos uma minoria por causa do fundamentalismo islâmico, que força as pessoas a abraçar o islão, por se considerar a única religião verdadeira.

Mas é apenas um problema do fundamentalismo?

Sim, é sobretudo isso, mas há também um factor político: os grandes partidos querem ter também os cristãos com eles, porque os cristãos são uma elite, pela sua educação, pela sua abertura de espírito, pela sua qualificação…

ataques em Gogjeli (Mossul), Iraque, José Manuel Rosendo

A violência atingiu fortemente em Iraque. Em 2011, havia cinco mil cristãos mortos e uns 200 mil muçulmanos mortos. Na imagem, feridos dos ataques em Gogjeli (Mossul), Novembro de 2016. Foto © José Manuel Rosendo.

Não seria melhor ir aos Estados Unidos ou à Alemanha falar da situação em vez de vir a Portugal?

É diferente. Estive em França, no Parlamento Europeu. A América está no Iraque, não precisamos de ir aos Estados Unidos falar da nossa situação. Já me encontrei com vários responsáveis para falar da nossa situação.

Para nós, o que importa é sensibilizar os cristãos para a nossa situação como cristãos, mas também como iraquianos, porque muitos outros iraquianos foram também mortos – e não apenas cristãos.

Em 2010, houve um grande massacre na catedral siríaca de Bagdad. Depois deste tempo, a situação está melhor ou pior?

Houve outros ataques, duas igrejas foram atacadas. Não houve vítimas. É mais limitado agora, mas há casos de raptos, explosões ou mesmo mortes de cristãos, para criar medo, para atingir um alvo. É muito complicado quando a religião se mete na política, na sociedade, nos negócios…

Não é possível a coexistência entre muçulmanos e cristãos?

É uma coexistência desde logo condicionada. Quem garante a coexistência é o governo. O governo de Saddam Hussein era muito forte e controlava tudo. Agora, há um vazio, porque os americanos desalojaram os membros do partido único, o Baas, depois dissolveram o Exército e a polícia, abriram as fronteiras e armazéns de armas…

Quer dizer que, para os cristãos, era melhor o regime de Saddam Hussein?

Não, não é isso. Durante o regime de Saddam, havia segurança para toda a gente, mas não havia liberdade e as pessoas eram como escravas. Hoje, temos muita liberdade, podem formar-se partidos políticos, podemos exprimir-nos e criticar, podemos viajar e manifestar-nos, podemos trabalhar. Temos tudo, mas não temos segurança. Mas a liberdade é uma grande coisa.

É uma consequência do que vivemos. Não tínhamos formação nem cultura. A única coisa era o partido e o Presidente. Ele era o raïs, o chefe. Era só ele. Se, em primeiro lugar, ele tivesse feito reformas, se tivesse formado e educado as pessoas nas escolas e com os média, se tivesse tentado formar uma sociedade aberta, que pudesse colaborar, hoje a situação seria muito mais fácil.

Mas a invasão precipitou também esta violência contra os cristãos? Eles não são identificados como os ocidentais que invadiram o Iraque?

A mudança, em si mesma, teve essas consequências. Para os árabes, o grande problema é a liberdade: como agir livremente? Liberdade não quer dizer fazer tudo o que quero sem ter em conta o outro que está diante de mim. Penso que tudo isso ajudou à violência. As fronteiras foram abertas, entrou toda a gente que quis, todos os combatentes muçulmanos vieram.

Os iraquianos são moderados, após 35 anos de regime secular, laico. Não havia fundamentalismo religioso. Tudo isso veio do exterior e os americanos ajudaram a isso, porque abriram as fronteiras e dissolveram o exército e a polícia. Quem podia controlar tudo isso?

Papa Francisco por entre escombros em Mossul, no Iraque (imagem publicada na Autobiografia), em 2022, anos depois da violência no país ter começado entre sunitas e xiitas e se ter virado contra cristãos. Foto: Direitos reservados.

E a situação degenerou em violência…

Sim. Começou com sunitas contra xiitas. Depois, contra os cristãos, porque pensam que o cristianismo é uma religião ocidental, como os americanos. Pensam que o Ocidente conduz uma cruzada contra o islão, que leva o petróleo dos seus países, trava o progresso fazendo marcha atrás, os governantes são pró-americanos e corrompidos.

Tudo isso é uma semente do conflito, fazendo apelo a uma guerra santa. É uma destruição do islão, uma deformação da religião: se se diz muçulmano, quer dizer terrorista.

O Iraque é identificado com o Paraíso da Bíblia. Hoje, tornou-se o inferno, para os cristãos…

Sim. Desde 2003 até [2018, cerca de cinco mil cristãos foram mortos, calculando-se que 90 por cento da população cristã tenha sido dizimada ou forçada ao exílio entre 2014 e 2017, com o autodesignado Estado Islâmico, e dezenas de] igrejas foram atacadas. Não é só pelos cristãos, porque se falamos de cristãos mortos, há talvez 200 mil muçulmanos que foram mortos. E se metade dos cristãos deixaram o país, há também milhões de muçulmanos que saíram.

Foi todo o país que foi destruído. Só agora o Governo começou a formar a polícia, o exército, mas é muito frágil…

Vemos esses episódios de violência, perseguição, fuga, êxodo, por todo o Médio Oriente, e também no Paquistão e na Índia… Onde está o problema?

É a religião, o facto de se fazer uma leitura muito estreita, muito literal da religião. Infelizmente, não há exegese no islão: toma-se o Alcorão à letra. Os fundamentalistas são incapazes de se integrar na sociedade contemporânea, encontram justificações no Alcorão para atacar os outros porque têm a nostalgia do califado e do império muçulmano. Todos os que não estão com eles, sejam de outras religiões, sejam muçulmanos moderados e liberais, são atacados. Mas tudo parte de uma leitura fechada do Alcorão.

Qual é a solução?

É a separação da religião e do Estado, da política. São duas coisas separadas. Se no tempo de Maomé se aceitava uma nação liderada pelo profeta que era também o chefe de Estado, hoje isso é impossível.

É um pecado que a Igreja já pôs de lado?

Sim, os cristãos também fizeram disparates, também fizeram horrores ao longo da história. Mas isso é história. Hoje, fizemos reformas, fizemos novas leituras do cristianismo, que não é política. A religião é qualquer coisa de pessoal. Os muçulmanos devem aprender dos cristãos como viver a religião e separar o profano do sagrado, o religioso da política. A religião, em princípio, baseia-se na verdade e a política é a diplomacia, os interesses, por vezes a mentira…

Bíblias e livros cristãos recuperados ao Daesh em Mossul: As comunidades cristãs do Iraque são das mais antigas do mundo. Foto: Direitos reservados.

Tem amigos muçulmanos? O que conversa com eles sobre este problema?

Para eles é difícil separar a política e o Estado da religião. Quando falamos, eles estão de acordo, mas não têm força para reclamar isso. No islão, o xiismo tem uma autoridade, uma hierarquia religiosa. Entre os sunitas, isso não existe. Não há uma hierarquia que possa fazer fatwa [decretos religiosos], por exemplo.

Se eles querem um futuro para o islão, têm de mudar. Se acreditam que o Alcorão é um livro sagrado e que o islão provém de Deus, porquê ter medo de a criticar ou que outros a critiquem? O mesmo para os cristãos: se é a sua religião, Deus é capaz de a proteger. Porquê fazer uma guerra santa em nome de Deus? Nesse caso, Deus é fraco. Quem sou eu para proteger Deus? Ele é que me protege.

Há iniciativas comuns e de pacificação entre cristãos e muçulmanos?

Desde logo, o diálogo da vida, entre as pessoas que do mesmo bairro, da mesma escola, do trabalho, nos mercados, no hospital. Em geral, as pessoas são simples e não fazem muitas diferenças.

Depois, há diálogo com os chefes religiosos. Eu próprio fiz uma licenciatura sobre islão, eles respeitam-me muito, eu visito-os, fazemos orações na catedral, muçulmanos e cristãos. Escolhemos textos da Bíblia que não chocam, para que eles vejam que os cristãos rezam calmamente, e textos do Alcorão, com música… Isso ajuda muito a descobrir o cristianismo. E durante o Ramadão também [promovemos encontros].

Há um papel para o Ocidente?

O Ocidente tem um papel essencial, pois foi o Ocidente que propagou a cultura e o conhecimento. Agora, o Ocidente apenas procura os interesses materiais e isso é pena, pois cria individualismo e egoísmo. O Ocidente deve ajudar esses países a respeitar os direitos humanos e deve formar esses países para a democracia e a liberdade e não impô-la.

O modelo de democracia ocidental não funciona. É preciso pensar numa laicidade positiva, respeitando os valores religiosos, mas separando a religião do Estado. Creio que a ditadura é mais dura se for religiosa.

Acha que sim?

Sim, porque a ditadura religiosa exclui as pessoas espiritual e fisicamente. É preciso um novo Médio Oriente, criando uma nova cultura e um novo conhecimento. Por exemplo, uma liberdade responsável que respeite os outros, o pluralismo, a diversidade de culturas, de línguas, de religião. Uma democracia prática.

Louis Sako. Foto © Enric.Vives-Rubio, cedida pelo autor. Iraque

Louis Sako. Foto © Enric.Vives-Rubio, cedida pelo autor.

O senhor foi escolhido para arcebispo por um sínodo. É possível os católicos ocidentais seguirem o exemplo dos orientais e terem uma palavra na escolha dos bispos, por exemplo?

Sim, porque não? É uma questão de disciplina e organização. Creio que as pessoas têm o direito de ter uma palavra a propósito dos seus bispos e pastores. Se eu sou bispo, sou-o para as pessoas. Alguém que as pessoas conheçam, que as pessoas sugiram, será muito mais aceite que alguém escolhido por uma organização que nomeie os bispos sem consultar os padres e os fiéis. No início da Igreja era assim.

O sínodo é composto por bispos…

Sim, bispos locais. Temos um patriarca e os bispos que escolhem o arcebispo. O nome é enviado para Roma e o Papa confirma ou não. Mas geralmente confirma.

Mas há possibilidade de os fiéis e os padres terem uma palavra?

Sim, pedimos essa opinião. Somos um pequeno grupo…

A Igreja Caldeia tem também padres casados. Isso funciona bem?

Sim, claro, é a tradição. Na minha pequena diocese, metade são casados (três em seis). São muito equilibrados. É uma escolha: antes de decidirem ser ordenados padres, pergunto-lhes se querem ser casados ou celibatários, peço-lhes para pensarem nas dificuldades de uma opção ou outra, mas digo que são livres na sua escolha. O essencial é terem uma boa formação teológica e uma boa espiritualidade.

É possível também para a Igreja latina regressar a essas origens?

Porque não? Porque havemos de perder tantas vocações por causa do celibato? Há pessoas que não querem isso. Era assim até ao século IX. É uma questão de disciplina.

Falou disso já ao Papa [Bento XVI]?

Sim, no Sínodo sobre o Médio Oriente. Evocámos a nossa experiência, de ter padres casados no Médio Oriente. É uma experiência muito positiva. Porque não?

 

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