Saddam reduziu o Iraque à sua personalidade, os Estados Unidos levaram o caos ao país e os iraquianos pensam que o Ocidente só lhes quer levar os recursos. O arcebispo cristão caldeu de Kirkuk, e depois patriarca católico caldeu de Bagdad, renunciou há dias ao cargo. Em 2011, esteve em Portugal e dizia que a liberdade é uma grande coisa, mas que os cristãos iraquianos se sentem ameaçados. Recupera-se aqui a entrevista publicada no Público em 27 de Dezembro de 2011.
O Natal foi um tempo difícil para os cristãos do Iraque: por causa da violência de que têm sido vítimas desde a invasão do país, tiveram de fazer as celebrações natalícias de dia, cancelando a “missa do galo” em cidades como Bagdad, Mossul e Kirkuk. Depois de, no final de 2010, ter havido um massacre na catedral cristã siríaca de Bagdad, continuam a registar-se perseguições, raptos e violências contra cristãos.
Louis Sako, 76 anos, arcebispo de Kirkuk da Igreja Caldeia até ao início de 2013, esteve em Portugal em Novembro de 2011. Na passada terça-feira, 10 de Março, o Papa Leão aceitou a sua renúncia ao cargo de patriarca católico caldeu de Bagdad e responsável máximo da Igreja Católica Caldeia, desde Fevereiro de 2013, quando foi escolhido para esse cargo. [ver 7 MARGENS].
Em Junho de 2018, tinha sido nomeado cardeal pelo Papa Francisco.
Nesta entrevista, do final de 2011, Sako criticava a forma como os Estados Unidos actuaram nos últimos anos e diz que o Ocidente deveria pensar menos em interesses materiais e procurar antes ajudar os países muçulmanos a respeitar os direitos humanos e a democracia.
A Igreja Caldeia, comunidade do Oriente que reza em aramaico, a mesma língua de Jesus, subsiste desde o início do cristianismo. Apesar de unida ao Papa, tem padres casados e os bispos são escolhidos pelas comunidades. Ambas as experiências podem ser alargadas ao Ocidente, diz o arcebispo, que esteve no cargo desde 2003. Responsável por uma das 16 dioceses dos caldeus, que representam cerca de 80 por cento do milhão de cristãos iraquianos, Sako dizia que a principal ameaça é o fundamentalismo, mas manifestava-se também muito crítico da política dos Estados Unidos e do Ocidente.
Os cristãos do Iraque estão ameaçados?
O futuro dos cristãos está ameaçado, com o crescimento do fundamentalismo islâmico, que exclui todos os que não estão com eles, todos os que não têm a sua mentalidade ou ideologia.
Temos algum medo do futuro, de que os cristãos não continuem na região, que é a nossa. Nós éramos cristãos antes da chegada dos muçulmanos, éramos a maioria. Pouco a pouco, tornámo-nos uma minoria por causa do fundamentalismo islâmico, que força as pessoas a abraçar o islão, por se considerar a única religião verdadeira.
Mas é apenas um problema do fundamentalismo?
Sim, é sobretudo isso, mas há também um factor político: os grandes partidos querem ter também os cristãos com eles, porque os cristãos são uma elite, pela sua educação, pela sua abertura de espírito, pela sua qualificação…

A violência atingiu fortemente em Iraque. Em 2011, havia cinco mil cristãos mortos e uns 200 mil muçulmanos mortos. Na imagem, feridos dos ataques em Gogjeli (Mossul), Novembro de 2016. Foto © José Manuel Rosendo.
Não seria melhor ir aos Estados Unidos ou à Alemanha falar da situação em vez de vir a Portugal?
É diferente. Estive em França, no Parlamento Europeu. A América está no Iraque, não precisamos de ir aos Estados Unidos falar da nossa situação. Já me encontrei com vários responsáveis para falar da nossa situação.
Para nós, o que importa é sensibilizar os cristãos para a nossa situação como cristãos, mas também como iraquianos, porque muitos outros iraquianos foram também mortos – e não apenas cristãos.
Em 2010, houve um grande massacre na catedral siríaca de Bagdad. Depois deste tempo, a situação está melhor ou pior?
Houve outros ataques, duas igrejas foram atacadas. Não houve vítimas. É mais limitado agora, mas há casos de raptos, explosões ou mesmo mortes de cristãos, para criar medo, para atingir um alvo. É muito complicado quando a religião se mete na política, na sociedade, nos negócios…
Não é possível a coexistência entre muçulmanos e cristãos?
É uma coexistência desde logo condicionada. Quem garante a coexistência é o governo. O governo de Saddam Hussein era muito forte e controlava tudo. Agora, há um vazio, porque os americanos desalojaram os membros do partido único, o Baas, depois dissolveram o Exército e a polícia, abriram as fronteiras e armazéns de armas…
Quer dizer que, para os cristãos, era melhor o regime de Saddam Hussein?
Não, não é isso. Durante o regime de Saddam, havia segurança para toda a gente, mas não havia liberdade e as pessoas eram como escravas. Hoje, temos muita liberdade, podem formar-se partidos políticos, podemos exprimir-nos e criticar, podemos viajar e manifestar-nos, podemos trabalhar. Temos tudo, mas não temos segurança. Mas a liberdade é uma grande coisa.
É uma consequência do que vivemos. Não tínhamos formação nem cultura. A única coisa era o partido e o Presidente. Ele era o raïs, o chefe. Era só ele. Se, em primeiro lugar, ele tivesse feito reformas, se tivesse formado e educado as pessoas nas escolas e com os média, se tivesse tentado formar uma sociedade aberta, que pudesse colaborar, hoje a situação seria muito mais fácil.
Mas a invasão precipitou também esta violência contra os cristãos? Eles não são identificados como os ocidentais que invadiram o Iraque?
A mudança, em si mesma, teve essas consequências. Para os árabes, o grande problema é a liberdade: como agir livremente? Liberdade não quer dizer fazer tudo o que quero sem ter em conta o outro que está diante de mim. Penso que tudo isso ajudou à violência. As fronteiras foram abertas, entrou toda a gente que quis, todos os combatentes muçulmanos vieram.
Os iraquianos são moderados, após 35 anos de regime secular, laico. Não havia fundamentalismo religioso. Tudo isso veio do exterior e os americanos ajudaram a isso, porque abriram as fronteiras e dissolveram o exército e a polícia. Quem podia controlar tudo isso?

Papa Francisco por entre escombros em Mossul, no Iraque (imagem publicada na Autobiografia), em 2022, anos depois da violência no país ter começado entre sunitas e xiitas e se ter virado contra cristãos. Foto: Direitos reservados.
E a situação degenerou em violência…
Sim. Começou com sunitas contra xiitas. Depois, contra os cristãos, porque pensam que o cristianismo é uma religião ocidental, como os americanos. Pensam que o Ocidente conduz uma cruzada contra o islão, que leva o petróleo dos seus países, trava o progresso fazendo marcha atrás, os governantes são pró-americanos e corrompidos.
Tudo isso é uma semente do conflito, fazendo apelo a uma guerra santa. É uma destruição do islão, uma deformação da religião: se se diz muçulmano, quer dizer terrorista.
O Iraque é identificado com o Paraíso da Bíblia. Hoje, tornou-se o inferno, para os cristãos…
Sim. Desde 2003 até [2018, cerca de cinco mil cristãos foram mortos, calculando-se que 90 por cento da população cristã tenha sido dizimada ou forçada ao exílio entre 2014 e 2017, com o autodesignado Estado Islâmico, e dezenas de] igrejas foram atacadas. Não é só pelos cristãos, porque se falamos de cristãos mortos, há talvez 200 mil muçulmanos que foram mortos. E se metade dos cristãos deixaram o país, há também milhões de muçulmanos que saíram.
Foi todo o país que foi destruído. Só agora o Governo começou a formar a polícia, o exército, mas é muito frágil…
Vemos esses episódios de violência, perseguição, fuga, êxodo, por todo o Médio Oriente, e também no Paquistão e na Índia… Onde está o problema?
É a religião, o facto de se fazer uma leitura muito estreita, muito literal da religião. Infelizmente, não há exegese no islão: toma-se o Alcorão à letra. Os fundamentalistas são incapazes de se integrar na sociedade contemporânea, encontram justificações no Alcorão para atacar os outros porque têm a nostalgia do califado e do império muçulmano. Todos os que não estão com eles, sejam de outras religiões, sejam muçulmanos moderados e liberais, são atacados. Mas tudo parte de uma leitura fechada do Alcorão.
Qual é a solução?
É a separação da religião e do Estado, da política. São duas coisas separadas. Se no tempo de Maomé se aceitava uma nação liderada pelo profeta que era também o chefe de Estado, hoje isso é impossível.
É um pecado que a Igreja já pôs de lado?
Sim, os cristãos também fizeram disparates, também fizeram horrores ao longo da história. Mas isso é história. Hoje, fizemos reformas, fizemos novas leituras do cristianismo, que não é política. A religião é qualquer coisa de pessoal. Os muçulmanos devem aprender dos cristãos como viver a religião e separar o profano do sagrado, o religioso da política. A religião, em princípio, baseia-se na verdade e a política é a diplomacia, os interesses, por vezes a mentira…

Bíblias e livros cristãos recuperados ao Daesh em Mossul: As comunidades cristãs do Iraque são das mais antigas do mundo. Foto: Direitos reservados.
Tem amigos muçulmanos? O que conversa com eles sobre este problema?
Para eles é difícil separar a política e o Estado da religião. Quando falamos, eles estão de acordo, mas não têm força para reclamar isso. No islão, o xiismo tem uma autoridade, uma hierarquia religiosa. Entre os sunitas, isso não existe. Não há uma hierarquia que possa fazer fatwa [decretos religiosos], por exemplo.
Se eles querem um futuro para o islão, têm de mudar. Se acreditam que o Alcorão é um livro sagrado e que o islão provém de Deus, porquê ter medo de a criticar ou que outros a critiquem? O mesmo para os cristãos: se é a sua religião, Deus é capaz de a proteger. Porquê fazer uma guerra santa em nome de Deus? Nesse caso, Deus é fraco. Quem sou eu para proteger Deus? Ele é que me protege.
Há iniciativas comuns e de pacificação entre cristãos e muçulmanos?
Desde logo, o diálogo da vida, entre as pessoas que do mesmo bairro, da mesma escola, do trabalho, nos mercados, no hospital. Em geral, as pessoas são simples e não fazem muitas diferenças.
Depois, há diálogo com os chefes religiosos. Eu próprio fiz uma licenciatura sobre islão, eles respeitam-me muito, eu visito-os, fazemos orações na catedral, muçulmanos e cristãos. Escolhemos textos da Bíblia que não chocam, para que eles vejam que os cristãos rezam calmamente, e textos do Alcorão, com música… Isso ajuda muito a descobrir o cristianismo. E durante o Ramadão também [promovemos encontros].
Há um papel para o Ocidente?
O Ocidente tem um papel essencial, pois foi o Ocidente que propagou a cultura e o conhecimento. Agora, o Ocidente apenas procura os interesses materiais e isso é pena, pois cria individualismo e egoísmo. O Ocidente deve ajudar esses países a respeitar os direitos humanos e deve formar esses países para a democracia e a liberdade e não impô-la.
O modelo de democracia ocidental não funciona. É preciso pensar numa laicidade positiva, respeitando os valores religiosos, mas separando a religião do Estado. Creio que a ditadura é mais dura se for religiosa.
Acha que sim?
Sim, porque a ditadura religiosa exclui as pessoas espiritual e fisicamente. É preciso um novo Médio Oriente, criando uma nova cultura e um novo conhecimento. Por exemplo, uma liberdade responsável que respeite os outros, o pluralismo, a diversidade de culturas, de línguas, de religião. Uma democracia prática.

Louis Sako. Foto © Enric.Vives-Rubio, cedida pelo autor.
O senhor foi escolhido para arcebispo por um sínodo. É possível os católicos ocidentais seguirem o exemplo dos orientais e terem uma palavra na escolha dos bispos, por exemplo?
Sim, porque não? É uma questão de disciplina e organização. Creio que as pessoas têm o direito de ter uma palavra a propósito dos seus bispos e pastores. Se eu sou bispo, sou-o para as pessoas. Alguém que as pessoas conheçam, que as pessoas sugiram, será muito mais aceite que alguém escolhido por uma organização que nomeie os bispos sem consultar os padres e os fiéis. No início da Igreja era assim.
O sínodo é composto por bispos…
Sim, bispos locais. Temos um patriarca e os bispos que escolhem o arcebispo. O nome é enviado para Roma e o Papa confirma ou não. Mas geralmente confirma.
Mas há possibilidade de os fiéis e os padres terem uma palavra?
Sim, pedimos essa opinião. Somos um pequeno grupo…
A Igreja Caldeia tem também padres casados. Isso funciona bem?
Sim, claro, é a tradição. Na minha pequena diocese, metade são casados (três em seis). São muito equilibrados. É uma escolha: antes de decidirem ser ordenados padres, pergunto-lhes se querem ser casados ou celibatários, peço-lhes para pensarem nas dificuldades de uma opção ou outra, mas digo que são livres na sua escolha. O essencial é terem uma boa formação teológica e uma boa espiritualidade.
É possível também para a Igreja latina regressar a essas origens?
Porque não? Porque havemos de perder tantas vocações por causa do celibato? Há pessoas que não querem isso. Era assim até ao século IX. É uma questão de disciplina.
Falou disso já ao Papa [Bento XVI]?
Sim, no Sínodo sobre o Médio Oriente. Evocámos a nossa experiência, de ter padres casados no Médio Oriente. É uma experiência muito positiva. Porque não?










