Quem entrar numa dessas grandes livrarias que exibem a generalidade das novidades editoriais para públicos mais vastos não poderá deixar de ficar impressionado com a imensa quantidade de avisos, injunções e promessas presentes nos títulos e subtítulos de uma parte significativa dos livros expostos mais destacadamente.
“Deixe-se de tretas”, incentiva um, anunciando “as 101 verdades difíceis que vão mudar a sua vida”. “Desperte o seu propósito”, estimula outro, requerendo: “Manifeste os seus sonhos, transcenda limites e transforme a sua realidade, alcançando o equilíbrio entre mente, consciência e corpo para uma realização pessoal completa”. “Educa o teu cérebro” é a incitação de um terceiro livro, pretendendo que o leitor descubra como funciona o cérebro “e como maximizar o seu potencial”.
Os encorajamentos são de todo o género e alguns talvez não sejam os mais expectáveis: “Deixe de ser pobre” é o título do livro que promete revelar “os segredos para largar a pobreza, procurar a felicidade e conquistar a independência financeira”. Não é o único para ajudar a enriquecer a carteira. Bem visíveis encontram-se também “Primeiro pense no lucro. Transforme a sua empresa numa máquina de fazer dinheiro” e “O novo Tao de Warren Buffett. Um verdadeiro compêndio de sabedoria financeira”.
Há títulos que prometem revoluções, ainda que com “passos simples”, todavia não muito simples: “A revolução dos hábitos. Passos simples para reprogramar o cérebro e alcançar a mudança de hábitos que deseja”.
A cada um segundo a sua ferida, a cada um segundo as suas necessidades: “A tua melhor companhia és tu”. “Este é o teu momento de cura”. “Lições de autoestima”. “Aprenda a cultivar a autoconfiança e a paz interior”. “O prazer de (não) se estar nas tintas. Para viver melhor, é preciso ser melhor”. “Repetimos o que não reparamos. Um guia de psicogenealogia e terapia transgeracional”.
As promessas são abundantes e variadas: “Como fazer amigos e influenciar pessoas” (e quem adivinharia que Dale Carnegie ainda pontificaria nas livrarias em 2025?). “Como fazer os outros gostar de si em 90 segundos”. “Como se libertar de um narcisista. Supere relações abusivas e tóxicas e livre-se da manipulação”. “Reset. Como mudar o que não está a funcionar”.
Algumas promessas são duradouras. “À prova de pânico. A nova solução holística para acabar com a sua ansiedade para sempre”. “Para sempre”, note-se. As expectativas são, frequentemente, elevadas. “Como ser feliz até aos 100. Segredos para uma vida longa e bem sucedida”. Embora os tempos pareçam mais propícios a livros de auto-ajuda sobre como não sucumbir ao pânico, os que colocam a felicidade ao alcance de cada um nunca faltam.
Este género de livros, em que o nome dos autores ou autoras é amiúde precedido de um “Dr.” ou “Dr.ª”, é parte integrante de um universo denunciado pelo psicólogo Edgar Cabanas e pela socióloga Eva Illouz na obra A Ditadura da Felicidade, editada em Portugal pela Temas e Debates, em 2019.
Nela se refere que “a felicidade tem vindo a assombrar o nosso imaginário cultural, tornando-se presente per diem e ad nauseam nas nossas vidas, pelo que raramente passa um dia sem que tenhamos ouvido ou lido alguma coisa sobre o assunto”. Até ao virar do século, a Amazon apresentava uma lista de não mais de 300 livros com a palavra “felicidade” no título; “já hoje [em 2018], essa lista inclui mais de dois mil”.
O livro examina o quão radical foi a transformação do modo como é entendida a felicidade. Hoje, ela é “encarada em geral como uma forma de estar na vida que pode ser moldada pela força da vontade; o resultado de pôr em prática as nossas forças interiores e o nosso eu autêntico; a única meta que faz com que a vida valha a pena; a referência pela qual devemos medir o valor das nossas biografias, a dimensão dos nossos êxitos e fracassos e a magnitude do nosso desenvolvimento psicológico e emocional”.
A busca da felicidade foi, como dizem Edgar Cabanas e Eva Illouz, “uma das exortações mais distintas e um dos principais horizontes políticos da cultura norte-americana que se disseminou e foi promovida com a ajuda de uma vasta gama de intervenientes não políticos, incluindo autores de livros de autoajuda, coaches, empresários, organizações privadas e fundações, Hollywood, talk-shows, celebridades e, é claro, psicólogos”. Agora, tornou-se “uma indústria global multimilionária” que funciona a par da ciência factual e empírica, e com a sua cumplicidade.
Edgar Cabanas e Eva Illouz colocam diversas reservas a esta ideia de felicidade que hoje globalmente prevalece. “É essencial interrogar e analisar que agentes sociais consideram que a ideia de felicidade é útil, que interesses e pressupostos ideológicos serve, e de quem, e quais são as consequências económicas e políticas da sua implantação social generalizada”.
O que suscita desconfiança não é tanto a ideia de felicidade, mas a ideologia que sob a sua capa se pretende generalizadamente impor. A filósofa Victoria Camps, autora de Elogio da Felicidade, publicado pelas Edições 70 em 2022, deplora que o género de auto-ajuda tenha substituído nas livrarias “o lugar que outrora ocuparam a filosofia e a psicologia mais séria”. É que “ninguém procura ‘consolo’ na filosofia, nem no teatro, nos romances ou na poesia, nem ao contemplar uma obra de arte. Para verdadeiro consolo, excitação e distração, há o futebol ou os concertos de massas”.
Uma das mais graves consequências da ditadura da felicidade ocorre por causa de ela contribuir “de maneira significativa para legitimar o pressuposto de que a riqueza e a pobreza, o êxito e o fracasso, a saúde e a doença dependem das nossas ações”.
Em vez de “problemas estruturais”, há apenas “deficiências psicológicas”; em vez de uma sociedade, há somente indivíduos, constatam Edgar Cabanas e Eva Illouz, usando uma expressão de Margaret Thatcher, inspirada em Friedrich Hayek.
Os autores estabelecem ainda uma relação entre a felicidade e a ideologia neoliberal, observando o quão a felicidade se revela “útil na legitimação do individualismo”, um individualismo particularmente danoso por se afirmar renegando a ideia de comunidade.
Uma velha canção dizia no século passado: “Tu sozinho não és nada, juntos temos o mundo na mão.” A mensagem da próspera indústria da felicidade inverte a letra: “Juntos não somos nada, tu sozinho tens o mundo na mão”. O resultado é, invariavelmente, uma decepção.










