Os bodos de S. Sebastião na Beira Baixa

| 18 Mar 19 | Entre Margens, Últimas

Nesta fase inicial do ano, sobretudo perto do dia litúrgico de S. Sebastião (20 de janeiro), que o povo conhece por “mártir santo”, várias aldeias e localidades da Beira-Baixa são palco de festas comunitárias, designadas por “santos bodos”, tradições que vêm de há muito e se foram mantendo vivas até aos nossos dias. A palavra “bodo”, segundo o etnólogo Leite de Vasconcelos, tem a sua origem no latim “votum”, que evoluiu para “vodo” e, finalmente, “bodo” – com sentido de promessa.

A palavra “bodo” terá a sua origem no latim “votum”, que evoluiu para “vodo” e, finalmente, “bodo” – com sentido de promessa. Foto © Florentino Beirão

 

A festa dos bodos é uma secular tradição, com raízes profundas na religiosidade popular das terras beirãs, com populações pobres a viverem nas encostas da serra da Gardunha, entre as cidades do Fundão e de Castelo Branco. Desta vez, vamos referir-nos apenas aos bodos o início do ano, que se celebram nas povoações de S. Vicente da Beira, Lardosa, Louriçal do Campo, Soalheira e Atalaia do Campo.

Trata-se, quanto a nós, de um valioso património imaterial secular do povo beirão que vale a pena conhecer, dada a sua importância para a história religiosa local. Recorde-se que estes santos bodos da Beira-Baixa fazem parte já de uma secular tradição popular que tem contado ora com a colaboração ora com a oposição ativa da Igreja, ao longo dos séculos.

A raiz e a razão dos atuais bodos a S. Sebastião tem a ver com uma antiga promessa dos antepassados que pediram a este santo mártir que protegesse a sua povoação das malditas pragas de gafanhotos que, ciclicamente, invadiam esta região, oriundos das serras fronteiriças de Espanha.

À procura da origem da tradição, os estudiosos têm avançado com algumas pistas no sentido de compreender melhor as suas complexas e prováveis raízes ancestrais. Segundo Teófilo Braga, poderão remontar até aos povos celtas, uma vez que eles já celebravam festas e rituais próprios, para garantir a fecundidade dos campos e de abundantes colheitas. O sociólogo Moisés Espírito Santo inclina-se mais para que as “folias/ bodos” estejam mais ligados a antigas práticas judaicas, para implorar a chuva e a proteção divina, contra a fome e a guerra.

Seja como for, o certo é que, com a implantação do cristianismo, no séc. IV, com o imperador Constantino, mas já com o Império Romano em declínio e a chegada dos povos bárbaros, as poucas populações já evangelizadas sofreram algumas transmutações, em relação ao primitivo significado das festas dos bodos. A sua continuação só foi mantida, certamente, devido à acelerada missionação e cristianização do espaço peninsular e europeu. Com o avanço e consolidação do cristianismo foi-se tornando cada vez mais proibido o costume de se sacrificar aos deuses pagãos, a favor dos mortos, uma vez que se operou uma significativa viragem nas mentalidades e costumes das populações à medida que eram evangelizadas.

Ao libertar-se dos ritos e festas aos deuses do paganismo, o cristianismo propunha agora sublinhar a necessidade de se proceder ao sufrágio das almas dos fiéis defuntos, através de dádivas “bodos”, a favor dos mais pobres e necessitados da comunidade cristã. Embora Santo Agostinho, bispo de Hipona (354-430), não morresse de amores por estes bodos, ainda com cheiro aos dos pagãos, o certo é que eles se foram propagando, acabando por conquistar lugar de relevo nas primitivas comunidades cristãs.

Ao libertar-se dos ritos aos deuses do paganismo, o cristianismo propôs sublinhar a necessidade de se proceder ao sufrágio das almas dos defuntos através dos “bodos”, a favor dos mais pobres e necessitados da comunidade cristã. Foto © Florentino Beirão

 

Saltando para o séc. XIV, por influência da esmoler Rainha Santa Isabel – esposa do rei D. Dinis, que a tradição popular diz ter transformado o pão em rosas –, os bodos ainda existentes, ligados à festa do Divino Espírito Santo, com grandes festividades nos Açores, foram-se difundindo, a partir de Alenquer (1323). Segundo a investigadora Adelaide Salvado, esta terá sido a primeira igreja portuguesa dedicada ao Divino Espírito Santo.

Com o andar dos anos, esta festa comunitária relativa aos santos bodos foi galgando várias povoações, sobretudo as situadas entre os rios Zêzere e Tejo, por ação conjunta da Ordem de Cristo, de Tomar (onde se mantém ainda a Festa dos Tabuleiros), apoiada na ação missionária dos frades franciscanos, os grandes difusores da popular e enraizada devoção ao Espírito Santo, na Beira Baixa. Com a descoberta e povoamento das ilhas e das terras ultramarinas, estas festividades foram-se difundindo de tal modo, que ainda hoje manifestam grande exuberância, seja em comunidades brasileiras seja nas ilhas açorianas, onde atingem um grande esplendor.

Estes bodos ou folias foram-se transformando em grandes festejos e, em vez de serem a favor dos pobres da povoação e arredores, os festeiros foram-se fechando sobre si, fazendo grandes jantaradas para consumo de alguns, esquecendo o espírito primitivo das festas.

Será dentro deste contexto que os bispos da Igreja tridentina, a partir do séc. XVI, apelando à austeridade dos costumes, decidiram promover uma guerra aberta a estas práticas excessivas. Como estes desvirtuamentos se continuaram a manter, em algumas paróquias escondidas ou mais longe dos poderes políticos e religiosos, encontramos ainda o bispo da Guarda, D. José Alves Mattoso, a assinar um decreto, datado de 15 de maio de 1928, a “proibir a participação dos católicos nos bodos e folias do Espírito Santo”.

No ciclo do Natal, os bodos estão ligados à festa de S. Sebastião, cuja data era considerada dia santo de guarda, e cuja invocação estava presente em várias capelas em honra do santo, espalhadas pela maior parte das paróquias desta região. Pode ter-se tratado de uma missionação concertada, ao longo do séc. XVII, entre os frades franciscanos e a poderosa Ordem de Cristo, de Tomar, politicamente senhora destas terras beirãs.

Apesar de condenados, os festejos foram resistindo, transmutando-se embora em novas práticas, mais próximas da sua primitiva raiz: fazer, pelo menos uma vez no ano, uma festa popular para se oferecer comida a quem tem fome.

É dentro deste espírito que ainda hoje, nas terras beirãs, em várias épocas litúrgicas do ano (Natal-Páscoa, Espírito Santo e Nossa Senhora da Assunção), se realizam alguns bodos que teimam em permanecer vivos. Sinal de que as populações os incorporaram na sua vida, tornando-os uma parte significativa e indestrutível da sua história religiosa local.

Os bodos em terras beirãs, em várias épocas litúrgicas mostram que estas festividades permanecem vivas e que as populações os incorporaram na sua vida religiosa. Foto © Florentino Beirão

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