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“Os Ciganos”: um invisível imperativo de liberdade

“Os Ciganos”: um invisível imperativo de liberdade

by | 29 Dez 19 | Cultura e artes - homepage, Literatura e Poesia, Últimas

Ilustração de Danuta Wojciechowska para “Os Ciganos”, cedida pela Porto Editora

 

À medida que crescia, Ruy considerava pequeno o espaço que o rodeava, tendo em conta o desejo que o habitava, de ser inteiramente livre. Um mundo de horas certas para tudo, de regras e leis, aliado à inquietante ternura da sua família, não lhe permitia ser livre. Certo dia, o tambor dos ciganos despertou-o para a possibilidade de dominar o tempo, o espaço e a força e Ruy não só saltou o muro da sua casa como saltou também o dos preconceitos, que eram como uma voz obscura, vinda do passado, que lhe dizia “foge”.

Decidido a seguir os ciganos, Ruy escondeu-se na carroça, mas foi descoberto por um gato chamado Polícia. Gela, a rapariga cigana que andava no arame, iniciou-o na cultura dos calons, pertencentes ao povo Rom: costumes, tradições e língua. Gela também o apresentou ao seu pai, que lhe disse ser Tomás Sabba, o chefe do clã, que lhe explicou que os segredos dos calon são “tão antigos como o próprio tempo”. Ruy ficou desse modo a saber que, apesar de serem poucos, os calons transportavam uma grande riqueza.

Para perceber quem era aquele rapaz, o chefe dos ciganos procurou a ajuda de Tshilabba, uma velha, muito velha. Esta velha, com poderes que não são deste mundo e muito escutada pelos chefes ciganos antes de tomarem decisões, limitou-se a afirmar que Ruy “possuía os dons necessários para concretizar os seus sonhos, além de ser capaz de percorrer muitas estradas sem nunca esquecer o caminho para casa”. Então, Tomás Sabba decidiu enviar o rapaz para casa, mas, antes, permitiu que ele aprendesse a arte dos ciganos e experimentasse a sua liberdade.

Placa de pasta de modelar alusiva ao conto “Os Ciganos”, feita pelos alunos do 6º ano de Educação Tecnológica, do Externato da Luz (Lisboa)

 

Tomás Sabba, que não esperava receber uma lição de liberdade de um gadjó, compreendeu que, ao contrário do que ele pensava, calons e gadjós juntavam-se. Gela, o seu irmão e Ruy nem precisaram de falar muito para perceberem que, a partir daquele dia, seriam amigos para sempre. Agora que Ruy “aprendera a respeitar o tempo e o espaço das coisas” fazia o que antes lhe parecia impossível. Por sua vez, Gela absorvia os números e as letras que ele lhe ensinava. Na despedida, Tomás Sabba, o chefe do clã, disse-lhe: “Não és um calon… mas podias ser”.

Desde sempre, que Ruy achava que “algures no vasto mundo se estava a preparar uma festa incrível à qual ele estava impedido de assistir.” Mas, naquele momento, Ruy não só assistia como participava nessa festa.

Percebe-se, nesta história, que temos de agradecer aos ciganos guardarem na sua cultura a autenticidade, a liberdade e o amor à natureza, que tanto faltam à humanidade. Mas a concretização do sonho da união entre gadjós e calons ainda mal começou. Este sonho corresponde a um apelo antigo de ir mais além, alargando horizontes e ultrapassando as barreiras do quotidiano, feitas de regras e horas certas. No entanto, permanece a esperança de ser possível caminharmos unidos, sem que ninguém perca o caminho para casa.

Fica feito o convite a seguir um invisível imperativo de verdade e de liberdade, de forma a sermos capazes de saltar os muros dos preconceitos, que nos separam e impedem de participar na festa da fraternidade, preparada pelo diálogo respeitador e amistoso entre diferentes.

 

Os Ciganos

Conto inédito de Sophia de Mello Breyner Andresen, completado pelo neto, Pedro Sousa Tavares

Ilustrações de Danuta Wojciechowska

Eição: Porto Editora

Maria Manuela Carneiro de Sousa é professora na Escola Básica do Bom Pastor (Porto)

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