Diálogo inter-religioso integra primeiros momentos da JMJ

Os corações da pequena Zayna acolheram na Mesquita os jovens católicos do Peru

| 31 Jul 2023

Mesquita, islão, David Munir

O grupo de católicos peruanos em visita á Mesquita Central de Lisboa, ouvindo a explicação do xeque David Munir sobre o islão. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

A pequena Zayna abeira-se, um a um, dos jovens (e alguns adultos) peruanos, que chegaram a Lisboa, via Madrid, no domingo à noite. Segunda-feira à tarde, a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) está na véspera do seu início oficial, mas o ambiente já é de festa, encontro, muito brilho no olhar, sorrisos a transbordar. Lisboa enche-se de cor nas vestes e nos corações.

Como estes que Zayna desenhou e que envolvem as legendas “Bem-vindos”, “Welcome”, “Portugal”, ou ainda os desenhos de um avião, uma chávena fumegante, pássaros… Zayna fez destas pequenas folhas um cartão dobrado de boas-festas, que neste caso é mesmo como quem diz “

Mesquita, islão, David Munir, oração

O xeque David Munir com mais dois muçulmanos explicando os modos de rezar do islão, durante a visita de jovens católicos peruanos à Mesquita Central de Lisboa, no âmbito da Jornada Mundial da Juventude. Foto © António Marujo/7MARGENS

bem-vindos”.

Zayna fez os desenhos com o irmão, Muhamad, nome de profeta, já se vê, estamos na Comunidade Islâmica. Foi ideia dela, mas empenharam-se ambos na tarefa, muito contentes por distribuir os cartões aos jovens peruanos, todos católicos, que estão a visitar a Mesquita. Não há um desenho igual, como se a mensagem fosse pessoal e intransmissível. Sorriso muito aberto, uma curta frase “é para ti”, e todos agradecem o gesto.

O grupo de cerca de uma centena de peruanos está a viver um dos primeiros momentos da JMJ de Lisboa, uma visita à Mesquita Central organizada pelo Kaiciid, Centro para o Diálogo. O xeque David Munir é o anfitrião da visita – a primeira das que a comunidade tem previstas para estes dias de enchente juvenil e católica em Lisboa. Explica, primeiro, a estrutura do edifício – um salão, a sala de oração, outras preparadas para casamentos ou funerais de membros da comunidade. Leva, depois, o grupo, ao lugar de oração. Todos se descalçam, colocam-se em meia-lua à sua volta para escutar a explicação sobre o que ali se passa.

Por exemplo, sobre o sentido das cinco orações diárias: “Posso falar com Deus fora da oração [ritual], mas esta é para relembrar: ‘pára, fala com o Criador’.” A Mesquita Central é a única que tem versículos do Alcorão escritos em árabe e traduzidos na língua vernácula – o português, no caso. Ou sobre o porquê do símbolo da lua – o calendário islâmico é lunar, com 355 dias. Ou, ainda, sobre o facto de a mãe de Jesus ter o seu nome como título do capítulo (sura) 19 do Alcorão.

Ericka Martin, 29 anos, é funcionária numa empresa agrícola em Piura, cidade do Norte do Peru a 50 quilómetros da costa do Pacífico, com cerca de 325 mil habitantes. Diz que estar na Mesquita é “parte” da peregrinação: “É bom conhecer outras culturas e religiões que coincidem na crença em Deus.” Na sua cidade, diz que não há muitos muçulmanos, o que a leva a dar ainda mais importância ao facto de estar nesta segunda-feira a conhecer a comunidade islâmica em Lisboa. Espera, destes dias em Lisboa na JMJ, levar para o Peru “uma nova forma de pensar”.

Sebastian Badajoz, 21 anos, vem de Lima, a capital do país, onde estuda engenharia informática. Nesta visita, valorizou a apresentação que o imã fez das diferenças entre cristianismo e islão, mas de como, apesar delas, é possível “procurar o diálogo e conversar, comunicar, para poder dar utilidade à nossa vida”. Foi importante conhecer, acrescenta, conhecer a forma como os muçulmanos rezam, mais “estrita” que os católicos.

 

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A “Geração 2023”

Na conferência de imprensa que marcou a véspera do início da JMJ, o cardeal-patriarca de Lisboa destacou a dimensão ecuménica e de diálogo inter-religioso como uma característica importante e desejada pelo Papa.

Manuel Clemente sublinhou ainda a dimensão de futuro que no seu entender a JMJ significa: “Tenho a certeza de que esta experiência não passa e que cria uma geração – a Geração 2023, que ganhou uma maneira de estar na sociedade e na vida para o bem de todos”, afirmou, destacando ainda a ideia de que a Jornada é fruto da construção de milhares de jovens.

O patriarca afirmou ainda que o episcopado português está empenhado no combate aos abusos sexuais do clero. E sublinhou a preocupação ecológica da JMJ – cuja missa de abertura se realiza às 19h desta terça-feira, presidida pelo próprio, naquele que será porventura o último acto público que presidirá no cargo que ocupa, já que o seu sucessor pode ser anunciado no próximo dia 10 de Agosto, conforme o 7MARGENS avançou.

Manuel Clemente demorou-se ainda a sublinhar a dimensão ecológica da Jornada, admitindo o “forte impacto” ambiental, mas dizendo que “tudo se fez” para se evitar as consequências mais marcantes. No futuro, os jovens “não querem deixar de ter uma oportunidade de encontro, mas minimizando impactos”, assegurou.

O patriarca exemplificou ainda com a realização da IV Conferência Internacional sobre o Cuidado da Criação, que nesta segunda-feira decorreu na Universidade Católica. Nessa iniciativa, o prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, da Santa Sé, manifestou o apoio do Papa a uma “transição verde”, com o fim dos combustíveis fósseis.

De acordo com o relato da Ecclesia, o cardeal Michael Czerny afirmou: “Os jovens exigem mudanças de nós. Eles perguntam-se como é possível que possamos pretender construir um futuro melhor sem pensar na crise ambiental e no sofrimento dos excluídos.”

O cardeal avisou ainda: “Se não for feito o suficiente – e os resultados estão muito aquém dos objetivos – as coisas vão piorar. Estamos a aproximar-nos perigosamente do limite de 1,5 a 2 graus celsius, definidos pelo Acordo de Paris.” Defendendo uma “rápida transição” de “um modelo económico baseado em combustíveis fósseis para uma economia de energia limpa”, Czerny acrescentou ainda que é urgente “travar o desmatamento, especialmente em bacias hidrográficas de importância global, como o Congo e a Amazónia”, “proteger as costas marítimas contra a erosão” ou deixar a lógica da “busca frenética do lucro”.

 

“Fomos até aos lugares mais recônditos”

Os Símbolos da JMJ numa praia da ilha da Madeira. Foto © JMJ Lisboa 2023

Os símbolos da JMJ numa praia do Porto Santo, arquipélago da Madeira. Foto © JMJ Lisboa 2023

 

Ainda na conferência de imprensa desta segunda-feira, 31 de Julho, ao lado do patriarca, o padre Filipe Dinis, director do departamento Nacional de Pastoral Juvenil, da Igreja Católica, destacou a importância dos dias das dioceses que, na última semana, levaram mais de 67 mil jovens a todo o país – e mesmo a algumas zonas fronteiriças de Espanha. Também aí, bem como na peregrinação dos símbolos da JMJ que desde o final de Outubro de 2021 percorreram o país, o “protagonismo” foi “dos jovens que saíram à rua” e que obrigou o resto dos católicos “a sair das igrejas”.

“Fomos até aos lugares mais recônditos do nosso país e isso deixa-nos com o coração a transbordar de alegria”, afirmou, contando a história da senhora de “70 e tal anos que acolheu quatro peregrinos e não queria deixar que os eles partissem”, pois passou a considerá-los seus filhos – uma história semelhante ao testemunho de Helena Araújo numa crónica publicada no 7MARGENS e ao que vários cabo-verdianos contaram noutra reportagem.

A JMJ tem o seu início oficial no Parque Eduardo VII, ao final da tarde desta terça-feira, 1 de Agosto, véspera da chegada do Papa Francisco a Portugal. Na missa, onde se estreará o Coro e Orquestra da JMJ, será executada uma peça com texto inédito do cardeal Tolentino Mendonça, Louvor da bem-aventurada: “Há horas que parecem um alto muro/ e a alegria coisa vedada/mas Deus nos aponta um futuro/no sorriso da bem-aventurada”.

De acordo com a Ecclesia, a maestrina Joana Carneiro dirige uma orquestra de cerca de 100 músicos “maioritariamente profissionais e estudantes do ensino superior”; o coro é constituído por cerca de 200 elementos de todo o país, oriundos de 18 dioceses. O repertório para as cinco celebrações centrais inclui cinco dezenas de cânticos, com a novidade de, pela primeira vez, participarem cantores surdos do projeto Mãos que Falam.

 

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