Os cristãos devem promover a ética: A Economia de Francesco vista pela economista Maria João Marques

| 22 Nov 20

Minas. Crianças. Trabalho infantil. Congo

Criança a separar minerais no Lago Malo (RDCongo), em Maio 2015: “Começa a haver a noção de que o capitalismo desmesurado foi longe demais”, diz Maria João Marques. © Amnesty International e Afrewatch.

 

Uma “iniciativa muito válida, porque a economia está no fulcro das discussões políticas, culturais, sociais que têm de ser pensadas, também do ponto de vista ético – no qual os católicos têm também um papel”. É deste modo que a economista Maria João Marques, colunista do Público, olha para o encontro A Economia de Francesco, que terminou no sábado, coma publicação de uma declaração final e uma mensagem do Papa Francisco aos participantes.

No final de Agosto, Maria João Marques escreveu, na sua coluna semanal no jornal, que há “católicos prenhes de vontade de tornar o aborto no único assunto da política, promovendo uma política económica egoísta, bem como ódio a tudo o que é diferente e inovador” e que vários deles “partilham a propaganda dos mais populares sites de fake news de extrema-direita”.

Também por isso a economista valoriza a realização da iniciativa, mesmo admitindo que “só mais tarde se verão as consequências” que esta iniciativa possa vir a ter. E coincide com vários dos diagnósticos e propostas do texto conclusivo do encontro: “É preciso urgentemente mudar o actual paradigma do liberalismo, em que uma ínfima parte enriquece desmesuradamente, mesmo durante a pandemia. Começa a haver a noção de que o capitalismo desmesurado foi longe demais”, afirma a investigadora em declarações ao 7MARGENS.

A história recente ajuda a compreender onde chegámos: durante os últimos 40 anos, assistimos à afirmação de um “liberalismo crescente”, também porque “a economia britânica tinha muitas empresas nacionalizadas”.  O movimento de privatização que se iniciou chegou a um tal ponto “que agora estamos a viver o excesso de tudo isto”, com mercados “completamente desregulados”, apesar das algumas medidas tomadas na sequência da crise  de 2008.

O transporte de mercadorias deixa uma “grande pegada ecológica”, as grandes empresas “exploram populações” inteiras, os níveis de “desigualdade e pobreza crescem”, as “multinacionais abusam do poder que têm, que é um poder desmesurado”, perante o qual nem os governos têm “qualquer poder negocial”. Estamos num momento de “viragem do axioma económico”, conclui Maria João Marques.

 

Sobriedade e despojamento, muito contraditório com mundo actual

Obra de Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza: “É preciso pôr água na fervura de todo o consumismo, de querer tudo, de comprar barato…”  Foto © Paulo Bateira, cedida pelo autor.

 

Outro dos elementos em que muitas propostas do Papa e também o sentido do documento final do encontro coincidem com análises de cada vez mais economistas e pensadores é na ideia do despojamento e da sobriedade – no consumo, no estilo de vida: o despojamento esteve sempre no discurso católico, mas é “muito contraditório com o mundo actual”, diz a economista. “Mas é preciso fazê-lo: pôr água na fervura de todo o consumismo, da ideia de gastar, de querer tudo, de comprar barato… Este ciclo imparável do consumo tem de ser quebrado e é importante que o discurso da sobriedade seja feito, mesmo se não acredito que seja adoptado por muita gente.”

As pessoas “têm de começar a mentalizar-se que têm de consumir menos”, insiste Maria João Marques. “Não podemos consumir tudo, porque já estamos a roubar recursos às gerações vindouras” e por isso tem mesmo de haver mudanças grandes.”

De qualquer modo, avisa, esta é uma proposta boa “nas sociedades ricas ocidentalizadas; num país pobre em que pessoas só querem poder ter mais dinheiro para viver, não será fácil fazer este discurso”. O que as pessoas desses países querem é “que lhes encomendemos coisas para saírem da pobreza extrema e atentatória da dignidade humana”.

Mas também nos países mais desenvolvidos há outros âmbitos a merecer uma reflexão sobre o despojamento: “A quantidade de tempo que trabalhamos é insana e também aí devemos fazer um esforço de contenção.”

Neste quadro, e como forma de resolver estes problemas, deve haver, por isso, mais cooperação internacional – defende a economista. “Têm de se oferecer estímulos à economia para as pessoas comprarem, mas também desenvolvimento de competências na tecnologia, como no caso da Índia, por exemplo.”

Outro campo em que haverá ainda algum desenvolvimento é o do turismo: “Viajar faz bem e é importante. Mas o turismo continuará a crescer, possivelmente com meios de transporte mais sustentáveis. As pessoas continuarão a gastar dinheiro, mas a gastar menos em objectos que não retirem tantos recursos ao planeta”, antecipa. E em alguns casos, mesmo no Sudeste asiático (como no Laos) o turismo massivo está a dar lugar a um turismo mais em ligação com a natureza.

Assim, a cooperação internacional terá de passar pela reconversão de indústrias nos países ricos, por parar de poluir e pelo uso de métodos de produção mais verdes”. A dívida dos países pobres tem de ser anulada para que muitos dos recursos desses povos não se destinem ao pagamento da dívida, com isso impossibilitando o investimento em infra-estruturas básicas como escolas, esgotos ou acesso a água potável. “É indecoroso pagar dívidas aos países ricos.”

No caso em que muitas populações têm de andar quilómetros para ir buscar água, Maria João Marques diz que essa é uma questão que se relaciona muito também com a promoção da mulher: “Muitas meninas têm de fazer horas e não podem ir à escola.” Ou, quem diz água, diz a construção de fornos comunitários em aldeias, para cozer pão e outros alimentos: quando eles existem, as meninas não têm de caminhar quilómetros, podem frequentar a escola e evitam ficar expostas a violências, incluindo de cariz sexual.

Nestas, como em outras situações, o sucesso ou insucesso das mães é determinante também para o dos filhos, seja na escola, seja na criação de outras condições de vida: “Se a mãe não tem capacidade para ir procurar médicos, por exemplo, os filhos também não terão capacidade de procurar meios de crescer saudáveis ou se desenvolver.”

 

Vacinas, negacionistas, aborto e uniões homossexuais – e a missão de “proximidade” dos bispos

Papa regressou da Eslováquia

Vacinas, negacionistas, aborto e uniões homossexuais – e a missão de “proximidade” dos bispos novidade

O aborto é homicídio, mas os bispos têm de ser próximos de quem defende a sua legalização; os Estados devem apoiar as uniões de pessoas do mesmo sexo, mas a Igreja continua a considerar o sacramento do matrimónio apenas entre um homem e uma mulher; e as vacinas têm uma “história de amizade” com a humanidade, não se entendem por isso os negacionismos. Palavras do Papa a bordo do avião que o levou da Eslováquia de regresso a Roma.

Ator Mel Gibson cada vez mais contra a Igreja e o Papa

Enredado em movimentos tradicionalistas

Ator Mel Gibson cada vez mais contra a Igreja e o Papa novidade

São visíveis na Igreja Católica dos Estados Unidos da América, em especial nos últimos anos, movimentações de setores conservadores e tradicionalistas que, embora não assumindo o cisma, se comportam objetivamente como cismáticos. São numerosas as organizações que contam com o apoio de figuras de projeção mediática e que ostensivamente denigrem o Papa e uma parte dos bispos do seu país. Um nome aparece cada vez mais como elemento comum e de suporte: Carlo Maria Viganò, o arcebispo que foi núncio em Washington e que exigiu, em 2018, a demissão do Papa Francisco. Mais recentemente, outra figura de grande projeção pública que vem surgindo nestas movimentações é a do ator e realizador Mel Gibson.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Das trincheiras da Grande Guerra pode ter nascido este concerto sobre o mundo

Estreia na Igreja de São Tomás de Aquino

Das trincheiras da Grande Guerra pode ter nascido este concerto sobre o mundo novidade

“Os primeiros esboços deste texto terão surgido nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial”, explica o compositor Alfredo Teixeira, autor da Missa sobre o Mundo, obra para órgão e voz recitante que terá a sua estreia mundial absoluta no próximo sábado, 18 de Setembro, às 16h30 (entrada livre, sujeita ao número de lugares existentes). A obra, construída a partir de excertos do texto homónimo de Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), padre jesuíta e paleontólogo, abrirá a temporada de concertos na Igreja Paroquial de São Tomás de Aquino, em Lisboa.

42 anos do SNS: memória e homenagem espirituais

42 anos do SNS: memória e homenagem espirituais novidade

Hoje, 15 de setembro, celebro e comemoro e agradeço e relembro António Arnaut, o criador em 1979 do Serviço Nacional de Saúde, o SNS da sobrevida de tantos de nós, portugueses. Depois de ter passado um dia de quase dez horas como doente de oncologia em imenso espaço de hospital, entre variadas mãos, procedimentos, cuidados, não posso deixar vazio na data.

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This