Os derrubadores

| 17 Jun 20

Quem anda a vandalizar e derrubar as estátuas de mercadores de escravos, colonizadores e até de missionários, como o padre António Vieira, não é moralmente superior aqueles que diaboliza, pela simples razão de que muitos dos que se notabilizaram por práticas hoje condenadas eram legais à época, socialmente aceites e apoiadas.

P. António Vieira. Estátua, Vandalismo

A estátua do padre António Vieira, vandalizada em Lisboa: “vVolta a sentir-se o calor e a ouvir-se o crepitar das fogueiras.” Foto: Direitos reservados.

 

Verifica-se hoje em todo o mundo uma perigosa tendência para o radicalismo e o extremismo. Porventura tal situação poderá ser explicada em parte pelo “empoderamento” das minorias e pela massificação da informação, que vão dando vazão a ressentimentos colectivos há muito reprimidos e a progressivas tomadas de consciência dos dominados ao longo da História. A onda de destruição de estatuária pública de figuras históricas está a varrer o mundo, potenciada pelas televisões, como é normal em todos os fenómenos de massas. De repente parece que alguma memória histórica dos povos passou a ser incómoda à luz do politicamente correcto.

Se é verdade que algumas figuras representadas nos espaços públicos se reportam a páginas negras do percurso de países e impérios, também é verdade que a hermenêutica histórica obriga a uma contextualização e capacidade de discernimento para se viver em comunidade. Jesus Cristo disse um dia: “E, se o teu olho te escandalizar, lança-o fora; melhor é para ti entrares no reino de Deus com um só olho do que, tendo dois olhos, seres lançado no fogo do inferno” (Marcos 9:47). Pois bem, além de não ser legítimo fazer uma leitura literal deste texto, a verdade é que, se levado à letra, seríamos há muito uma terra de cegos, pois todos nós já teríamos arrancado não apenas um, mas os dois olhos…

Quem anda a vandalizar e derrubar as estátuas de mercadores de escravos, colonizadores, descobridores e até de missionários, como o padre António Vieira, não é moralmente melhor do que aqueles que diaboliza, pela simples razão de que muitos dos que se notabilizaram por práticas hoje condenadas eram legais à época, socialmente aceites e apoiadas. Não esqueçamos que a escravatura persistiu durante séculos com o apoio dos próprios africanos, que colaboraram no sequestro e venda dos compatriotas. Ainda agora a polícia espanhola desmantelou uma organização internacional de tráfico de seres humanos comandada por um negro africano que vivia entre Portugal e a Alemanha.

O revisionismo histórico serviu sempre para fins inconfessáveis. Estaline mandou apagar Trotsky da célebre fotografia em que Lenine discursa às massas em Moscovo (1920), e mais tarde mandou “apagá-lo” da vida no México (1940).

Depois há a questão das multidões, que são tendencialmente acéfalas porque desprovidas da capacidade de raciocínio. Segundo uma interessante reflexão de David Cóias Raimundo “Søren Kierkegaard já nos ensinou que a multidão é falsidade (“the crowd is untruth”). Disse também que não existe nenhum lugar em que o ser humano seja mais facilmente corrompido do que na multidão. Neste sentido, Kierkegaard definiu o discipulado cristão como ‘a tarefa de nos tornarmos indivíduos’ (num sentido que, obviamente, não é sinónimo do individualismo dos nossos dias).”

René Girard desenvolve o pensamento de Kierkegaard ao descrever como, nos ciclos de violência mimética que caracterizam as sociedades humanas, a multidão age como um único indivíduo, de forma irracional, e irreflectida. E alerta-nos para o facto de que “a tensão intrínseca às nossas ‘rivalidades’ continua sempre presente na sociedade, procurando válvulas de escape ou ameaçando o colapso da própria sociedade. Não admira portanto que, havendo censura social a impedir que a multidão linche a pessoa, se procure em alternativa linchar a memória da pessoa. A grande alternativa, de acordo com Girard e de acordo com a fé cristã, é o perdão.” Seria bom que os derrubadores fizessem como Gandhi: “Aprendi a usar minha raiva para o bem… É uma energia que nos obriga a definir o que é justo e injusto.”

Se as multidões não fossem ignorantes e usassem a cabeça não teriam vandalizado a estátua de Matthias William Baldwin (1795-1886), em Filadélfia, um dos inventores da locomotiva a vapor, grande defensor dos direitos da população negra americana, e um dos pais do abolicionismo, tendo sofrido por isso na sua vida pessoal e empresarial, e sido perseguido pelas suas convicções. Se as multidões não fossem ignorantes e usassem a cabeça não tinham vandalizado uma estátua de Cristóvão Colombo em Miami, nem tinham destruído outra atirando-a a um lago em Richmond, Virgínia. Se as multidões não fossem ignorantes e usassem a cabeça não teriam vandalizado a estátua de Churchil, em Londres, o estadista a quem o mundo deve em grande parte a derrota do regime nazi e a liberdade. E se soubessem talvez não apreciassem lá muito uma das suas frases desconcertantes: “Os fascistas do futuro chamar-se-ão a si mesmo anti-fascistas”.

Se as multidões não fossem ignorantes e usassem a cabeça não teriam vandalizado a estátua do Padre António Vieira, em Lisboa, um mulato português ilustre, empenhado contra a exploração e escravização dos índios no território brasileiro, e perseguido pela Inquisição. Razão tem o padre jesuíta José Maria Brito: “Transformar António Vieira num extremista é um favor que fazemos aos extremistas que não deixarão de aproveitar a oportunidade para tentar legitimar o que não queremos que seja legitimado.” E agora? Talvez os italianos possam derrubar o Coliseu de Roma, os egípcios dinamitar as pirâmides ou os portugueses a Torre de Belém (e já agora a Ponte Salazar, embora rebaptizada). Idiotas…

Heinrich Heine, poeta do romantismo alemão, reflectindo sobre o passado escreveu profeticamente em 1820, mais de 100 anos antes do nazismo “onde se queimavam livros, ao final queimavam-se também pessoas.” Agora, quando se derrubam estátuas de figuras históricas em espaço público, volta a sentir-se o calor e a ouvir-se o crepitar das fogueiras. Por isso, há que impedir a todo o custo que os derrubadores derrubem a democracia e a liberdade.

 

José Brissos-Lino

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