Os desafios dos bispos em França

| 26 Nov 21

“Ao padre que sabe muito e fala bem ainda lhe falta o coração e a humanidade.” Um bom mote do cardeal António Marto para alguns artigos meus anteriores e que abre caminho para aprofundar o que é “ter vocação” – e não só para sacerdote ou consagrado. É também uma boa maneira de abordar o tema da sexualidade perante os escândalos na hierarquia da Igreja Católica (não só, infelizmente).

No domingo, dia 7, assisti no canal France 2, ao “Desafio dos Bispos” de França, que se reuniram quase todos no santuário de Nossa Senhora de Lourdes, onde concelebraram perante uma comunidade atenta e impressionada. Antes da celebração eucarística, passaram algumas imagens expressivas de um debate em que cerca de uma dúzia de jovens enfrentavam o problema em questão. Já perto do altar, lia-se num grande cartaz:

Les victimes des violences sexuelles demandent:
Reconnaissance
Responsabilité
Réparation
Réforme.

(“As vítimas das violências sexuais exigem:
Reconhecimento
Responsabilidade
Reparação
Reforma”)

O bispo encarregue da homilia era de idade avançada e porte seguro. Nos seus olhos bem abertos lia-se vida e paz interior. Tomei algumas notas, apenas sintetizando, muito livremente, o que mais atingia os meus sentimentos. Começou assim:

Igreja, como eu te amo e como tu me entristeces. Quanto mal fazes no mundo e de quanto bem és a fonte.

É tempo de conversão. De não silenciar o que deve ser conhecido e desmascarar os impostores da piedade. Sem fechar os olhos às feridas que se causaram e aos escândalos que levam a vinganças.

É tempo de dar o que nos custa. Como é tempo de apreciar devidamente a cultura exemplar de muitos religiosos, sacerdotes e fiéis.

Temos de combater a sério um mundo de trevas e sermos exemplo aos olhos do mundo.

E não basta criticar. A responsabilidade nunca é só dos outros.

 

A homilia foi breve e incisiva, sem dureza, mas com nobre mágoa. Após largo momento de silêncio, professou-se o símbolo dos apóstolos da minha juventude (e não o credo de Niceia com as suas tentativas filosoficamente obscuras de explicar, como sendo a última palavra, o núcleo do “mistério de fé” – que tenho o prazer de ainda não ter ouvido neste programa).

A oração dos fiéis, como tenho visto ser costume, representa as preocupações fundamentais da grande comunidade a que se dirige – e que na realidade concretizam os modelos já gastos, despersonalizados e nem sempre oportunos dos formulários anexos aos missais. Também é significativo ouvir cada uma dessas preces por uma pessoa diferente, de idade e de figura. E assim se pediu a Deus e a todos os Homens de boa vontade:

Que não se permita a violência sexual nem qualquer acto de indignidade contra os seres humanos.
Que todos nos reconheçamos pobres de Deus.
Que a assembleia dos bispos promova e dê exemplo de estar ao serviço da justiça e caridade.
E que a Mãe de Jesus Cristo, Nosso Senhor, interceda por nós.

Na despedida final, o celebrante acrescentou:
Que o Espírito Santo nos encoraje
No caminho da verdade e da justiça.
E que o olhar de Deus nos acompanhe.
Ide na paz de Deus.

Noutro cartaz, presumo que à saída da igreja, uma citação evangélica:
“Desconfiai dos escribas que gostam de se exibir em vestes majestosas”.

O programa termina com uma comentadora a afastar-se de automóvel, mas levando pensamentos enriquecidos para a vida de todos dias.

 

Manuel Alte da Veiga é professor aposentado do ensino universitário.

 

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