Os Dias da Semana – Um mau poema suja o mundo

| 24 Fev 21

Joan Margarit, poesia, Espanha

Joan Margarit: “Pensei que me restava todavia / tempo para entender a profunda razão / de deixar de existir.” Foto: Direitos reservados, a partir da página do poeta na internet.

 

Na Quarta-feira de Cinzas, no dia em que os católicos foram instados a ter em conta com singular premência as palavras do livro do Génesis que lhes lembram que são pó e que ao pó hão-de tornar, o diário espanhol El País incluiu na página 30 uma breve meditação sobre a morte, da autoria do poeta Joan Margarit, falecido no dia anterior. Bons espíritos sustentam que a poesia ocidental fala quase exclusivamente de amor e de morte. Não seria, também por isso, de estranhar o tema do poema inédito de Joan Margarit, que poderá ter sido escrito no período em que o autor teve de enfrentar o cancro que o vitimaria.

O poema, que integrará o livro Animal de bosque, a publicar, intitula-se “Comovedora indiferença”: “Pensei que me restava todavia / tempo para entender a profunda razão / de deixar de existir. Comparava-o / com o desinteresse, com o esquecimento, / com as horas do sono mais profundo, / pensando nessas casas onde um dia vivemos / e às quais não voltamos nunca. / Pensava que o ia compreendendo, / que me ia libertando do enigma. / Mas estava muito longe de saber / que não me liberto. Liberta-me a morte, / permite, indiferente, / que me vá aproximando de alguma verdade. / Inexplicavelmente, isto emocionou-me.”

A poesia não é uma questão de rima, de ritmo ou de métrica, nem, menos ainda, do seu desprezo, escreve Joan Margarit na introdução a Novas cartas a um jovem poeta, incluídas no livro Un mal poema ensucia el mundo. Ensayos sobre poesía, 1988-2014 [1]. Crê o poeta que não há arte sem esforço e que nem o esforço para escrever um bom poema é suficiente. Acredita, em contrapartida, que mesmo uma pessoa que tenha lido pouco – “nem que seja apenas a imprensa” – se pode converter num bom leitor de poesia. “Mas isto não quer dizer que para ler um bom poema basta o mesmo esforço, a mesma tensão, a mesma atenção, que para ler a imprensa”. Para Joan Margarit, “como em todos os aspectos importantes da vida, na poesia nada é oferecido”.

Numa entrevista concedida ao diário ABC [2], o poeta referiu que há dois tipos de intempéries: a intempérie física, que não é particularmente ameaçadora no mundo ocidental porque a técnica a permite enfrentar, e a intempérie moral. “O que se passa se me abandona a pessoa que amo, se morre alguém querido, se fracassei em algo?”, pergunta Joan Margarit. “A ciência não o resolve, não existe um botão em que se carregue”. A resposta insuficientemente útil impõe outra interrogação: “Que ferramentas tenho para lutar contra a intempérie moral?” Joan Margarit indica-as: “A poesia, a música, a pintura, a filosofia e a religião para alguns. Apenas quatro ou cinco coisas”. E todas elas, acrescenta, têm “uma característica terrível” em comum. É que é necessário tê-las conhecido para que possam ser úteis. É por isso que considera ser imprescindível dar cultura às pessoas. Não entretenimento, mas cultura. A cultura é uma arma contra a intempérie moral. “Para isso serve a poesia. Não é um adorno”.

Joan Margarit, que também era arquitecto (integrou a equipa encarregada de concluir a construção da Sagrada Família, em Barcelona) e professor catedrático jubilado de Cálculo de Estruturas da Escola Superior de Arquitectura de Barcelona, manifesta o seu apreço pelos poemas que contribuem para o fazer melhor pessoa, que o ajudam na procura de um maior equilíbrio interior, que servem para o consolar ou que concorrem para o deixar mais próximo da felicidade, seja o que for que signifique ser feliz.

Joan Margarit, poesia, Espanha

“A vida para mim é esta rocha. / Carrego-a e conduzo-a até ao alto.” Foto: Direitos reservados, a partir da página do poeta na internet.

 

Misteriosamente feliz é, aliás, o título de um dos seus livros, publicado em Portugal em Novembro passado conjuntamente pela Flâneur e pela Língua Morta [3]. É uma obra excelente. Particularmente memorável é “Poesia”: “Como para Sísifo, / a vida para mim é esta rocha. / Carrego-a e conduzo-a até ao alto. / Quando cai volto a buscá-la / e, tomando-a entre os braços, / levanto-a outra vez. / É uma forma de esperança. / Penso que teria sido mais triste / se não tivesse podido arrastar uma pedra / sem outro motivo que não fosse o amor. / Levá-la por amor até ao alto.”

 

Notas
[1] Barcelona: Arpa y Alfil Editores, 2016
[2] “Joan Margarit: ‘El esfuerzo y el dolor que produce la verdad valen la pena’”. ABC. 9 de Junho de 2015
[3] Há uma edição anterior da Língua Morta, de 2015.

Este texto é também publicado no Diário do Minho.

 

Jorge Sampaio, um laico cristão

Jorge Sampaio, um laico cristão novidade

Já tudo, ou quase tudo, foi dito e escrito sobre a figura do Jorge Sampaio. Assinalando a sua morte, foram, por muitos e de múltiplas formas, sublinhadas as diversas facetas definidoras da sua personalidade nos mais diversos aspetos. Permitam-me a ousadia de voltar a este tema, para sublinhar um aspeto que não vi, falha minha porventura, sublinhado como considero ser merecido.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Escutar todos, com horizontes para lá das “fronteiras” da Igreja

Inquérito sobre o Sínodo

Escutar todos, com horizontes para lá das “fronteiras” da Igreja novidade

O Papa observava, no encontro sinodal com a sua diocese de Roma, no último sábado, 18, que escutar não é inquirir nem recolher opiniões. Mas nada impede que se consultem os cristãos sobre as “caraterísticas e âmbito” que “entendem dever ter a escuta que as igrejas diocesanas são chamadas a realizar, desde 17 de outubro próximo até ao fim de março-abril de 2022. Era esse o terceiro ponto da consulta feita pelo 7Margens, cujas respostas damos hoje a conhecer.

Nova estratégia de combate ao antissemitismo será apresentada em outubro

União Europeia

Nova estratégia de combate ao antissemitismo será apresentada em outubro novidade

A União Europeia (UE) deverá divulgar, no próximo mês de outubro, uma “nova estratégia de combate ao antissemitismo e promoção da vida judaica”. A iniciativa surge na sequência da disseminação do racismo antissemita em inúmeros países da Europa, associada a teorias da conspiração que culpabilizam os judeus pela propagação da covid-19, avançou esta quarta-feira, 22, o Jewish News.

Livrai-nos do Astérix, Senhor!

Livrai-nos do Astérix, Senhor! novidade

A malfadada filosofia do politicamente correcto já vai no ponto de apedrejar a cultura e diabolizar a memória. A liberdade do saber e do saber com prazer está cada vez mais ameaçada. Algumas escolas católicas do Canadá retiraram cerca de cinco mil títulos do seu acervo por considerarem que continham matéria ofensiva para com os povos indígenas.

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This