Os dias não têm 24 horas

| 18 Out 21

Tempo. Relógio. Leitura. Tecnologia. Computador

“É assustador olhar ao redor e perceber quantas horas se dorme, em média; quantos hábitos errados estão profundamente disseminados.” Foto © Kevin Ku / Unsplash

 

E se de repente nos viessem dizer que cada dia passaria a ter apenas 16 ou 17 horas? Com a falta de tempo de que sempre nos queixamos iríamos, decerto, apanhar um susto. Não saberíamos como resolver tamanho corte e, com imensa probabilidade, entraríamos em stresse, esse companheiro que nos boicota a vida num padrão que, como alguém disse, se traduz por excesso de presente.

Num mundo com tantas bizarrias que é este em que vivemos, o nosso único, o que conhecemos, nada parece impossível e, portanto, para os mais acutilantes leitores, provavelmente, já lhes surgiu a ideia de que vou desenvolver apenas mais uma tese peregrina e fora da caixa só com a intenção de me tornar uma personagem irrepetível ou apenas original. Mas não. Não é nada disso.

Os números de diversas proveniências e as pessoas que recebo na minha atividade profissional, vêm evidenciando diversos problemas, dos quais os mais prevalentes e graves, já que estão a ficar transversais a todas as gerações, são as perturbações de sono.

É assustador olhar ao redor e perceber quantas horas se dorme, em média; quantos hábitos errados estão profundamente disseminados; quantos psicofármacos e/ou outros modeladores ou apenas reparadores de sono são ingeridos, tantas vezes sem sucesso, que é como quem diz, sem que, como efeito mais ou menos imediato, ocorra um dormir regenerador e verdadeiramente bom, se assim pode ser dito.

Na prática ter um mau sono faz com que se acorde frequentemente cansado; faz com que a memória seja comprometida; faz com que a vida tenha uma qualidade inferior à que podia ter, caso se tivesse dormido bem.

É verdade que muitos ignoram os benefícios de um bom sono. Por isso, não é demais evidenciar pequenos e poucos pormenores, cujo conhecimento pode fazer a diferença. Poderíamos dizer que cada um de nós tem uma espécie de relação com o sono. Quem, por exemplo, se deita já com a preocupação de que não vai dormir bem ou não vai dormir o número de horas suficiente, com imensa probabilidade está a profetizar de forma autorrealizadora, que é como quem diz a fomentar que assim ocorra.

Apesar da grande importância que se sabe ter, hoje em dia, as pessoas estão cada vez mais indisciplinadas no que toca às rotinas que deviam adotar para alcançar o seu bem viver. Estamos a falar do sono, esse tesouro que, ultimamente parece estar a ser roubado a mais de metade da população.

Antes de prosseguir com a teoria do dia mais curto, vou evidenciar em jeito coloquial algumas práticas que, desde já, podem revelar-se úteis: não ir para a cama a fazer a digestão de alimentos ditos pesados; não beber bebidas estimulantes algumas horas antes de se deitar; “desligar” das preocupações ou dos temas do dia, pelo menos na última hora antes de tentar adormecer; não fazer exercício físico aproximadamente nas últimas três horas antes de ir dormir; não utilizar ecrãs para se embalar a ver se o sono chega; procurar deitar-se e levantar-se, aproximadamente às mesmas horas; enfim, não aproveitar o chegar à cama para ter conversas profundas, que podem ser intermináveis e encher as nossas cabeças de conteúdos relevantes.

Afinal, muito do que nos pode melhorar a vida está mesmo ao nosso alcance, embora não pareça. Ou seja, objetivamente, quando nos surgem compromissos extra; quando temos trabalhos que precisamos de realizar num mais curto espaço de tempo; quando procrastinámos numa atividade que, afinal, vamos mesmo ter de fazer; onde é que encontramos lugar? Nas horas que roubamos ao sono, naturalmente. Todos, em algum momento, fazemos ou fizemos isso. As famosas diretas para se preparar para um exame, para acabar uma tese, para concluir uma conferência ou um artigo são os mais clássicos exemplos.

Mas não será que nos andamos a enganar? Creio que sim. Ensinaram-nos e nós também ensinamos que cada dia tem 24 horas, mas esquecemo-nos de dizer que, em vigília, apenas deve ter 16 ou 17 para o ser humano adulto. Há uma biologia que temos de continuar a respeitar, a nossa natureza.

A minha proposta é que façamos contas aos nossos compromissos apenas depois de conhecermos bem as nossas necessidades, de nos conhecermos bem. Uns precisam de mais horas e outros de menos para acordarem capazes de iniciar o seu dia com as competências plenas. São muito poucas as pessoas de exceção que, com quatro ou cinco horas de sono, dizem sentir-se bem. Obviamente nem vou teorizar por aí, mas quero desafiar cada um e todos nós a que tenhamos a coragem e a humildade de encurtar os nossos dias.

Eu sei que muitas pessoas dizem que a vida é muito curta para se gastar um terço dela a dormir. No entanto, o que parece inegável é que, se não o fizermos, acabaremos por morrer precocemente. É uma questão de escolha.

Faz falta, para tudo, distinguir entre o possível e o desejável e, naquilo em que não coincidirem, fazer a opção certa, aceitando com humildade que o que seria desejável nem sempre é realmente possível.

É por isso que vale a pena começar pela decisão de que cada dia deixe de ter as clássicas e enganadoras 24 horas.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.

 

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