[Os dias da semana]

“Os Discípulos Pedro e João correndo para o Sepulcro na manhã da Ressurreição”

| 1 Abr 2024

“Os Discípulos Pedro e João correndo para o Sepulcro na manhã da Ressurreição”, Eugène Burnand, 1898

“Os Discípulos Pedro e João correndo para o Sepulcro na manhã da Ressurreição”, por Eugène Burnand, 1898.

 

A ressurreição de Jesus Cristo foi, ao longo dos séculos, levada para a pintura dos grandes mestres. O modo como cada artista trata o tema é deveras variável, apresentando cada quadro um universo inesgotável, mas, na maior parte das obras-primas sobre a ressurreição, Cristo encontra-se no centro da composição, saindo do túmulo, ascendendo em direcção ao céu. Entre as “ressurreições” mais fascinantes e, com certeza, mais famosas, não podem deixar de se incluir as de Fra Angelico, Piero della Francesca, Giovanni Bellini, Rafael, Perugino, Mathias Grünewald, Ticiano, Peter Paul Rubens, Tintoretto, Caravaggio, Rembrandt e William Blake.

Menos conhecido do que todos eles é Eugène Burnand (Suíça, 1850-París, 1921), um pintor que, ainda assim, conheceu uma certa notoriedade fundamentalmente por causa, quase exclusivamente, de uma obra: “Os Discípulos Pedro e João correndo para o Sepulcro na manhã da Ressurreição”. Datada de 1898, é um óleo sobre tela que se encontra no Musée d’Orsay, em Paris.

O que é surpreendente nesta pintura é que ela só é explicitamente religiosa no título, constatou Jérôme Cottin, professor da Faculdade de Teologia Protestante de Estrasburgo [1]. O que nos é dado observar é a parte superior do corpo de dois homens. O mais novo tem as mãos apertadas e encostadas ao peito, o mais idoso, de barba, tem a mão direita, pousada sobre o coração, ascendendo para a céu, enquanto a mão esquerda pende para o chão. A postura dos corpos e a disposição dos cabelos indica que seguem apressados ou a correr contra o vento, não havendo qualquer indício do rumo que tomam. Como também considerou Jérôme Cottin, o efeito dramático da imagem poderia ser perfeitamente profano.

É o Evangelho de João que refere a corrida dos discípulos de Cristo. Maria Madalena dirigiu-se ao túmulo de Jesus de madrugada, estava ainda escuro, e viu que a pedra que o tapava tinha sido retirada. Foi, a seguir, a correr, dar a notícia a Pedro e a João. “Tiraram do túmulo o Senhor e não sabemos onde O colocaram” [2], disse-lhes ela e eles correram em direcção ao túmulo. Começaram a correr juntos, mas João foi mais veloz do que Pedro e chegou primeiro. O quadro de Eugène Burnand, que com Léo-Paul Robert, pretendia fazer reviver a pintura protestante, fixa um momento desta correria.

O quadro é assaz original, mesmo que Eugène Burnand não tenha sido exactamente o primeiro a inspirar-se nesta passagem do Evangelho de João. O pintor francês James Tissot (1836-1902) tinha, não muitos anos antes (entre 1886-1894), pintado “S. Pedro e S. João correm para o sepulcro” (hoje no Brooklyn Museum), mas não há entre os dois quadros qualquer género de afinidade e, de resto, a obra de Eugène Burnand é bem mais fascinante.

Os rostos dos discípulos de Jesus são magnificamente tratados por Eugène Burnand. Neles parece confluir uma mescla de sentimentos fortes: aflição, temor, expectativa. Nos olhos não há apenas ansiedade. O pintor contou a Léo-Paul Robert que se levantava ao nascer do sol para estudar, no brilho dos olhos do seu modelo, o reflexo ardente do sol que desponta no horizonte, afirmando que na “condensação luminosa” convergem o sentido teológico, o realismo atmosférico e o respeito cronológico pelo momento em que aquele facto ocorreu [3]. Como assinala Giuseppe Frangi, jornalista e curador de exposições de artes plásticas, a luz do sol nascente que brilha particularmente na pupila dilatada de Pedro é um dos detalhes mais preciosos da obra [4].

O que aconteceu a seguir não o sabemos pelo quadro, mas pelo que revela o Evangelho: João, que tinha chegado primeiro ao sepulcro, “inclinando-se, viu os panos de linho no chão, mas não entrou”. O evangelista acrescenta que, entretanto, chegou também Pedro, que entrou no túmulo. “Viu os panos de linho estendidos no chão e o sudário que tinha sido usado para cobrir a cabeça de Jesus. Mas o sudário não estava, com os panos de linho, no chão; estava enrolado num lugar à parte”. Após Pedro, é o momento de entrar João, “que tinha chegado primeiro ao túmulo”. Depois, prossegue o Evangelho: “Viu e acreditou. De facto, ainda não tinham compreendido a Escritura que diz: “Ele deve ressuscitar dos mortos”. O quadro de Eugène Burnand ajuda a imaginar os novos rostos – e os novos olhares – de Pedro e de João depois de terem visto e acreditado. Rostos renovados, olhares transformados. Eis a Páscoa.

 

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