
Justin Welby, na sua carta de demissão, afirmou “ser muito claro” que deveria “assumir a responsabilidade pessoal e institucional” pela resposta que deu depois de ter sido informado sobre os abusos”. Foto: Direitos reservados
A inédita e dramática demissão do arcebispo de Canterbury e líder da Igreja de Inglaterra, Justin Welby, anunciada na última terça-feira, 12 de novembro, deixa a Comunhão Anglicana diante de dois desafios: por um lado, definir uma estratégia eficaz para combater os abusos e o seu encobrimento e promover um ambiente de segurança dos fieis; e, por outro, escolher um sucessor, num quadro de grandes divisões internas.
Aparentemente, a demissão de Welby, ainda que importante, não será a única consequência do relatório. Há vários outros nomes de relevo no relatório sobre o caso que espoletou esta crise e algumas vítimas que reuniram esta quarta-feira com líderes da Igreja exigiram que rolassem outras cabeças, segundo refere a BBC.
Várias figuras do episcopado pronunciaram-se no messo sentido. A bispa de Gloucester citada pela mesma fonte, disse que é errado considerar que o trabalho está feito, com o gesto de Welby, uma vez que “quem participou do encobrimento deve ser responsabilizado”. O bispo de Dudley, por sua vez, acrescentou que não se sentiria confortável a trabalhar lado a lado de alguém que estivesse a encobrir.
A BBC cita ainda a bispa de Birkenhead, membro da direção da comissão eclesial para a salvaguarda, admitir que continue a haver abusos na Igreja de Inglaterra e que outras pessoas deveriam demitir-se. Contudo, “não deveriam ser bispos”, mas aqueles que “encobriram ativamente” os abusos, acrescenta o bispo de York, que entende que, para assumir a responsabilidade pelas “falhas institucionais”, basta a demissão do arcebispo de Canterbury. “A cultura do encobrimento tem sido parte do problema dos abusos graves há demasiado tempo”, acrescentou.
Na sua carta de demissão, como o 7 MARGENS noticiou, o arcebispo Welby afirmou “ser muito claro” que deveria “assumir a responsabilidade pessoal e institucional” pela resposta que deu depois de ter sido informado sobre os abusos (cf. 7MARGENS).
Note-se que, em 2020, o governo inglês tomou a iniciativa de criar uma equipa para investigar o abuso sexual de crianças. O relatório, publicado em 2022, referia, sobre a Igreja Anglicana, que ela “não tinha criado uma estrutura anti-abuso eficaz ao nível paroquial, diocesano e global”. Em resposta, Welby pediu à coordenadora desse estudo, a investigadora Alexis Jay, que aprofundasse tudo o que se referia à Igreja de que era responsável. Mas ainda recentemente, essa académica sugeria que o trabalho de salvaguarda fosse desenvolvido por uma entidade externa àquela entidade e, na última semana, lamentava que a Igreja estivesse a empatar o assunto.
Quanto ao segundo desafio que vive a Igreja Anglicana, o da escolha do sucessor de Welby, o processo não se prevê vir a ser fácil, até porque, além de bispo da sua diocese, ele (ou ela) assume vários outros papeis: primaz de toda a Inglaterra, membro da Câmara dos Lordes do Parlamento e chefe espiritual da Comunhão Anglicana.
Como a idade de aposentação está fixada nos 70 anos, isso exclui, ipso facto, alguns candidatos, mas mantém outros. Entre as possibilidades que já circulam, estão os bispos de York (que já era uma espécie de coadjutor de Welby), que só teria chances se o processo não se arrastar, uma vez que está a três anos da aposentação. Fala-se igualmente nos bispos de Leicester, Bath e Wells ou no de Southwell e Nottingham.
Caso a Comissão de propositura e nomeação (e, depois, o Governo e o Rei) se abram a nomes menos convencionais, correm os nomes da bispa de Newcastle, Helen-Ann Hartley ou da bispa de Chelmsford, Guli Francis-Dehqani. Saindo fora da Igreja de Inglaterra, o que em abstrato é possível, outros candidatos poderiam surgir. Mas as dificuldades a superar seriam maiores: como veria a sociedade um bispo africano a coroar o sucessor do rei Carlos III?
Não ficam por aí os problemas a enfrentar. Como refere uma análise da jornalista e documentarista Rosie Dawson, no site do Religion Media Centre, os 17 membros da Comissão irão fazer sondagens por toda a Igreja de Inglaterra e no âmbito da Comunhão Anglicana, no plano mundial, mas, faz notar, “as as divisões dentro de ambas são tão profundas e rancorosas que será difícil encontrar um consenso”. Os motivos são públicos: 12 províncias da Comunhão Anglicana declararam-se fora de comunhão com o arcebispo de Canterbury devido à posição que a Igreja de Inglaterra assumiu de abençoar as relações entre pessoas do mesmo sexo. E a própria Comissão não conseguiu recentemente nomear bispos para as sedes vagas de duas dioceses, “sendo as diferenças entre os seus membros sobre a mesma questão vistas como uma causa provável”.









