Os dois papas. E o povo, pá?

| 24 Jan 20

Imagem do filme “Dois Papas”, de Fernando Meirelles

 

Os conservadores dizem que sem Bento não haveria Francisco e que eles são apenas diferentes no estilo porque, na substância, nada os diferencia de essencial. Os militantemente avessos a tudo quanto cheire a fé dizem que se engana quem dê importância demais aos gestos simbólicos de Francisco e que deles infira uma mudança de rumo porque, dizem, Bento e Francisco são só farinha do mesmo saco.

Esta estranha convergência entre os defensores da ortodoxia e os que a abjuram dá que pensar. Ambos desvalorizam Francisco, uns em nome dos dogmas e os outros em nome da crítica aos ditos. Eu, por mim, não desvalorizo as imagens partilhadas pela generalidade das pessoas, crentes e não crentes, de cada um deles. E essas imagens são imagens marcadamente diferenciadas, senão mesmo contrastantes. E isso não é fruto da distração ou da ilusão das pessoas, é fruto da sua sensibilidade e da sua compreensão da realidade das coisas.

Leonardo Boff, num importante comentário ao filme Dois Papas, de Fernando Meirelles, situou Francisco como “teólogo da libertação integral”. Ou seja, a vocação já adulta de Jorge Bergoglio levou-o a adotar os caminhos da vertente argentina da teologia da libertação (centrada no povo silenciado), um rumo apesar de tudo diferente da variante brasileira e peruana (centrada nas estruturas de injustiça social e na opressão histórica).

O “fim do mundo” a que o conclave o foi buscar foi esse da presença semanal do cardeal de Buenos Aires na favela Villa Miseria, junto dos pobres e dos seus dramas e esperanças concretos. A linhagem teológica e a trajetória de vida de Francisco são vincadamente diversas das de Joseph Ratzinger que, ao escolher Bento como nome papal, sinalizou bem o seu eurocentrismo e o seu foco na defesa da cristandade contra o secularismo europeu. E o facto de, antes de ser Bento, ter sido prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé centrou essa defesa da cristandade na depuração e vigilância doutrinárias contra os “desvios”.

São dois homens da mesma Igreja e isso une-os? Claro que sim. Mas não é só o estilo que os diferencia. Muito para lá da apropriação de um e de outro por terceiros, Bento e Francisco são, em si mesmos, rostos de modos diferentes de ser Igreja no mundo do nosso tempo. De um lado a representação da Igreja como uma cidadela cercada de inimigos que urge defender preservando a ortodoxia; do outro, a Igreja do limiar (como lhe chamou Yves Congar), que não descura a doutrina, mas renuncia a fronteiras que a entrincheiram e cuja única obsessão é a salvação das vidas concretas, as de fora e as de dentro. De um lado uma Igreja tabeladora dos comportamentos individuais, uma Igreja sobretudo de combate ao pecado da impureza pessoal e defensora de uma moral biologista; do outro, uma Igreja empenhada na denúncia das estruturas de pecado que geram pobres a quem, por o serem, é apoucada a humanidade e que, às tabelas de preceitos, contrapõe a consciência pessoal e o livre arbítrio como instâncias irredutíveis de decisão moral.

Por estes dias, especula-se sobre o alinhamento de bispos e cardeais com Bento ou com Francisco, como se estivéssemos em vésperas de um daqueles congressos partidários em que se contam barões de um lado e do outro para adivinhar quem vai ficar no poder. Para esse viés clericalista, ao povo – essa massa informe de não barões – resta assistir com aplausos e vaias ao jogo entre os príncipes. Ora, a conversão da Igreja à centralidade dos pobres pretendida por Francisco não terá como intérprete principal o clero, mas o povo.

Em vez de perguntarmos se os padres e os bispos estão com Francisco, perguntemos que palavras e que gestos estão a ter as comunidades de católicos para mudar a economia que mata e a política que a naturaliza. É aí que se jogará uma diferenciação que vá mesmo além do estilo. Quando a notícia for a de uma mobilização dos católicos em favor da transformação concreta das regras da economia que produzem pobres e destroem a nossa casa comum, então aí a mundividência de que Francisco é o rosto mais destacado terá ganho a hegemonia que agora disputa.

 

José Manuel Pureza é professor universitário e deputado do Bloco de Esquerda; este artigo foi inicialmente publicado na edição da revista Visão de 23 de Janeiro de 2020. 

Artigos relacionados

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Os donativos entregues por 136 leitores e amigos somaram, até terça, 30 de junho, €12.020,00. Estes números mostram uma grande adesão ao apelo que lançámos a 7 de junho, com o objetivo de reunirmos €15.000 para expandir o 7MARGENS ao longo do segundo semestre de 2020. A campanha decorre até ao final de julho e já só faltam menos de €3.000! Contamos consigo para a divulgar.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

CE volta a ter enviado especial para promover liberdade religiosa no mundo novidade

O cargo de enviado especial para a defesa da liberdade religiosa tinha sido extinto no ano passado pela presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, mas as pressões de inúmeros líderes religiosos e políticos para reverter essa decisão parecem ter surtido efeito. O vice-presidente da CE, Margaritis Schinas, anunciou que a função irá ser recuperada.

Papa assinala sete anos da viagem a Lampedusa com missa especial online

O Papa Francisco celebra esta quarta-feira, 8 de julho, o sétimo aniversário daquela que foi a primeira (e talvez mais icónica) viagem do seu pontificado: a visita à ilha de Lampedusa. A data é assinalada com uma eucaristia presidida por Francisco na Casa Santa Marta, a qual terá início às 10 horas de Lisboa, e será transmitida online através dos meios de comunicação do Vaticano.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Hospital pediátrico do Vaticano separa com êxito gémeas siamesas unidas pelo crâneo

Hospital pediátrico do Vaticano separa com êxito gémeas siamesas unidas pelo crâneo

O hospital pediátrico Bambino Gesú, em Roma, gerido pelo Vaticano, separou com êxito duas irmãs siamesas de 2 anos, que nasceram unidas pelo crâneo na República Centro Africana. A complexa operação, que durou 18 horas e contou com uma equipa de 30 profissionais de saúde, teve lugar no passado dia 5 de junho, mas o hospital só revelou todos os detalhes esta quarta-feira, 8 de julho, numa conferência de imprensa.

É notícia

Entre margens

Do confinamento às Minas novidade

Vestígios dos trilhos usados para o contrabando abundante nesta zona da raia. Algum complemento a um salário magro. Histórias de perigos, ousadia, dignidade, persistência e superação. Na aldeia de Santana das Cambas existe um Museu do Contrabando que soubemos estar encerrado.   
Curvo-me perante uma realidade que desconhecia, apenas intuía… Ao olhar para os mineiros envelhecidos e suas famílias passei a vê-los como heróis, príncipes daquela terra, figuras exemplares de cidadania e coragem.

A favor do argumento ontológico

A realidade é um extraordinário abismo de Ilimitado em todas as direções e dimensões. É isto o Absoluto. Não tendo na sua constituição nenhuma descontinuidade, nenhum vazio absoluto (pois nele o nada absoluto [ou Nada] não pode simplesmente ter lugar), o Absoluto é plenitude de Ser. A isto se chega pela simples consideração de que o Nada, precisamente por ser Nada, não existe nem pode existir, pelo que sobra “apenas” aquilo que existe de facto, que é Tudo.

Memórias do Levante

À ideia da raça superior sucedeu a ideia da cultura superior, quase tão maléfica como aquela. E escravizar os seres humanos “inferiores” deu lugar a desvalorizar ou mesmo destruir as culturas “inferiores”. O resultado é que, se ninguém ganhou com isso, a verdade é que a humanidade perdeu e muito

Cultura e artes

Aquilino e Bartolomeu dos Mártires: o “pai dos pobres e mártir sem desejos”

Aquilino Ribeiro, escritor de prosa escorreita, pujante, honrou a dignidade da língua portuguesa à altura de outros antigos prosadores de grande qualidade. Irmanado com a Natureza beirã: aves, árvores, animais e homens. Espirituoso e de fina ironia, é bem o Mestre da nossa Língua. Em “Dom Frei Bertolameu” faz uma espécie de hagiografia do arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590), canonizado pelo Papa Francisco a 6 de Julho de 2019.

Ennio Morricone: O compositor que nos ensinou a “sonhar, emocionar e reflectir”

Na sequência de uma queda em casa, que lhe provocou a ruptura do fémur, o maestro e compositor italiano Ennio Morricone morreu esta segunda-feira em Roma, na unidade de saúde onde estava hospitalizado. Tinha 91 anos. O primeiro-ministro, Giuseppe Conte, evocou com “infinito reconhecimento” o “génio artístico” do compositor, que fez o público “sonhar, emocionar, refletir, escrevendo acordes memoráveis que permanecerão indeléveis na história da música e do cinema”.

Teologia bela, à escuta do Humano

Pensar a fé, a vivência e o exercício do espírito evangélico nos dias comuns, é a tarefa da teologia, mais do que enunciar e provar fórmulas doutrinárias. Tal exercício pede atenção, humildade e escuta dos rumores divinos na vida humana, no que de mais belo e também de mais dramático acontece na comunidade dos crentes e de toda a humanidade.

Sete Partidas

STOP nas nossas vidas: Parar e continuar

Ao chegar aos EUA tive que tirar a carta condução novamente. De raiz. Estudar o código. Praticar. Fazer testes. Nos EUA existe um sinal de trânsito que todos conhecemos. Porque é igual em todo o mundo. Diz “STOP”. Octogonal, fundo branco, letras brancas. Maiúsculas. Impossível não ver. Todos vemos. Nada de novo. O que me surpreendeu desde que cheguei aos EUA, é que aqui todos param num STOP. Mesmo. Não abrandam. Param. O carro imobiliza-se. As ruas desertas, sem trânsito. Um cruzamento com visibilidade total. Um bairro residencial. E o carro imobiliza-se. Não abranda. Para mesmo. E depois segue.

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco