Os extremismos são pasto dos fundamentalismos — religiosos e seculares

| 13 Dez 2023

Notícia 7MARGENS. Foto Direitos reservados

“A excessiva invisibilidade da religião na laïcité da República Francesa abre a porta à torrente de críticas a Emmanuel Macron.” Foto: Direitos reservados

 

Duas notícias publicadas no domingo na página inicial do 7MARGENS mostram cabalmente como os extremos continuam a tocar-se, esmagando a possibilidade de um caminho radical para um secularismo e uma laicidade que sejam cabalmente vividos, sem extremismos. Numa das notícias, o Presidente francês era criticado e atacado por todos – da extremíssima-direita à esquerda – por ter acolhido no palácio do Eliseu uma cerimónia do Hanukkah, ouvindo o que nunca Maomé terá dito do toucinho. Na outra notícia, o óbvio pedido por um lorde de separação entre a Igreja oficial do reino e a coroa do Reino Unido recebido com sarcasmo e um liminar “não” a qualquer discussão séria.

A excessiva invisibilidade da religião na laïcité da República Francesa abre a porta à torrente de críticas a Emmanuel Macron. O jornal Muslim Times notou a contradição, em tempo de conflito aberto entre Israel e o Hamas: o uso da abaya (um vestido longo, usado por muçulmanas) foi proibido nas escolas francesas, com o ministro da Educação francês a afirmar, sem qualquer nuance, que “a laicidade é a liberdade de emancipar-se através da escola”. Antes, Gabriel Attal tinha dito que ir à escola vestindo uma abaya era “um gesto religioso destinado a testar a resistência da República sobre o santuário secular que deveria ser a escola”. Este secularismo, acusa o jornal publicado no Reino Unido, só não é aparentemente posto em causa quando Macron assiste à missa com o Papa Francisco em Marselha e agora acende “uma vela religiosa” no Eliseu — “tudo isto não é muito coerente”. Ou mesmo nada.

No Reino Unido, uma proposta do lorde liberal-democrata Paul Scriven para “desestabilizar a Igreja da Inglaterra” foi acolhida com protestos dos seus pares na Câmara dos Lordes, a câmara alta do Parlamento britânico. Esta lei pretende separar oficialmente a Igreja e o Estado, no país onde o monarca é o chefe da Igreja. Scriven disse o óbvio, para quem vive num país como Portugal: “Numa sociedade moderna, pluralista e secular, é um privilégio religioso bastante arcaico e injustificável” ter uma instituição religiosa “implantada no coração da nossa constituição, no coração da organização e gestão do Estado”. “A separação entre a Igreja da Inglaterra e o Estado já deveria ter sido feita há muito tempo.” Pois já.

O caminho é óbvio: nem tanto ao secularismo, nem tanto à religião. Em Portugal, no dia em que a Liberdade Religiosa é celebrada nos espaços do Parlamento, sublinha-se o equilíbrio que alguns insistem em desequilibrar: a laicidade do Estado e o secularismo da sociedade não são postos em causa por apoios do Estado a eventos religiosos, nem a religião se vive enfiada na sacristia ou fica fechada no espaço dos cultos.

É óbvio que alguns poucos insistem em apropriar-se da religiosidade no espaço da política, invocando Jesus em debates políticos, quando a sua prática partidária e pública exclui o outro e ataca o pobre, o refugiado, o migrante, o asilado, o homossexual ou o transsexual. Se uma Igreja, como a católica, deve evitar colar-se a partidos, quaisquer que sejam, também deve ser clara e profética: apontando que estes que agora invocam Deus são vendilhões do templo, e apenas procuram o oportunismo do voto. (Sim, falo do Chega, que devia ser denunciado pelos bispos católicos, como fizeram de forma clara os bispos da Baviera, Alemanha, em relação aos neonazis da AfD.)

E também é óbvio que há outros que invocam uma espécie de neutralidade “enverhoxhista” (como o antigo ditador albanês que consagrou o ateísmo como “religião” de estado), como se a liberdade de expressão religiosa estivesse diminuída no espaço público.

A conclusão é necessária. Se a França laica e secular convivesse saudavelmente com as religiões, não berrava contra uma cerimónia religiosa no Eliseu, porque haveria pluralidade. (Assim, houve apenas um aproveitamento político de apoiantes de uma causa próxima da guerra.) Todos diferentes, e todos iguais — e esse caminho é o que o Reino Unido também devia seguir, recusando uma igreja oficial e oficializando antes a separação entre a Igreja e o Estado. Os extremismos são pasto dos fundamentalismos. Os religiosos e os seculares.

 

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Clero de Angra pede “incremento da pastoral vocacional” assente no “testemunho do padre”

Face a "descredibilização" dos presbíteros

Clero de Angra pede “incremento da pastoral vocacional” assente no “testemunho do padre” novidade

Reconhecendo que o contexto da Igreja universal “é caracterizado pela descredibilização do clero provocada por diversas crises, pela redução do número de vocações ao sacerdócio ministerial e pela situação sociológica de individualismo e de crescente indiferença perante a questão vocacional”, os representantes do Clero diocesano de Angra (Açores) defendem o incremento da “pastoral vocacional assente na comunidade, sobretudo na família e no testemunho do padre”.

Por uma transumância outra

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Este texto do Padre Joaquim Félix corresponde à homilia do Domingo IV da Páscoa na liturgia católica – último dia da semana de oração pelas vocações – proferida nas celebrações eucarísticas das paróquias de Tabuaças (igreja das Cerdeirinhas), Vilar Chão e Eira Vedra (arciprestado de Vieira do Minho).  

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