Os filhos dos dias, de Eduardo Galeano

| 8 Nov 20

Fazer corresponder a cada dia do ano uma breve história ocorrida nesse dia em tempos mais ou menos recentes ou mais ou menos remotos é o propósito de Eduardo Galeano em Os filhos dos dias, editado em Outubro pela Antígona, que tem estado a publicar a obra do escritor uruguaio. Protagonizadas por todo o tipo de gente, anónima ou famosa, desprezível ou admirável, de múltiplos cantos do planeta (incluindo Portugal), as histórias oferecem um testemunho quotidiano, que pode ser também um ensinamento ou uma interrogação.

Em A urgência de chegar, recorda-se uma história passada nos Estados Unidos da América. Serve, se se quiser, para nos interrogar sobre aquilo a que entregamos a nossa atenção ou, se se preferir, sobre como dispomos o nosso tempo:

“Nesta manhã em 2007, um violinista deu um concerto numa estação de metro da cidade de Washington.
Encostado à parede, junto a um caixote de lixo, o músico, que mais parecia um rapaz do bairro, tocou obras de Schubert e outros clássicos durante três quartos de hora.
Mil e cem pessoas passaram por ele sem deter o seu passo apressado. Sete pararam durante pouco mais do que um instante. Ninguém aplaudiu. Algumas crianças quiseram ficar, mas foram arrastadas pelas mães.
Ninguém sabia que o violinista era Joshua Bell, um dos virtuosos mais prestigiados e respeitados do mundo.
O concerto tinha sido preparado pelo jornal The Washington Post. Foi a sua maneira de perguntar:
– Será que tem tempo para a beleza?

Outra história, envolvendo outro dos grandes diários dos Estados Unidos da América, mostra-se menos virtuosa. Uma efeméride oferece a Eduardo Galeano o pretexto para apresentar uma Receita para tranquilizar os leitores:

“Hoje é o dia internacionalmente consagrado ao direito humano à informação.
Talvez seja oportuno recordar que, um mês e pouco depois de as bombas atómicas terem aniquilado Hiroxima e Nagasáqui, o jornal The New York Times desmentiu os rumores que assustavam o mundo.
No dia 12 de setembro de 1945, esse jornal publicou, na primeira página, um artigo assinado pelo seu redactor de temas científicos, William L. Laurence. O artigo refutava as versões alarmistas e garantia que não havia radioactividade nessas cidades arrasadas, e que a tal radioatividade não passava de uma mentira da propaganda japonesa.
Graças a essa revelação, Laurence ganhou o prémio Pulitzer.
Algum tempo depois, soube-se que ele recebia dois salários mensais: o The New York Times pagava um, e o outro era coberto pelo orçamento militar dos Estados Unidos.”

As efemérides também podem suscitar evocações elogiosas. No “Dia da alfabetização”, o escritor uruguaio homenageia comoventemente um nome célebre da pedagogia:

“Sergipe, Nordeste do Brasil: Paulo Freire começa uma nova jornada de trabalho com um grupo de camponeses muito pobres, que estão a ser alfabetizados.
– Como está, João?
João cala-se. Aperta o chapéu. Um longo silêncio, e por fim diz:
– Não fui capaz de dormir. A noite inteira sem pregar olho.
Não lhe saem da boca outras palavras, até que murmura:
– Ontem, eu escrevi o meu nome pela primeira vez.

Outro texto assinala um conjunto de perdas. No “Dia dos desaparecidos”, no penúltimo dia de Agosto, Eduardo Galeano recenseia brevemente o que se foi tornando difícil ou impossível encontrar:

“Desaparecidos: os mortos sem sepultura, as sepulturas sem nome.
E também:
os bosques nativos,
as estrelas na noite das cidades,
o aroma das flores,
o sabor da fruta,
as cartas escritas à mão,
os velhos cafés onde havia tempo para perder tempo,
o futebol de rua,
o direito a caminhar,
o direito de respirar,
os empregos estáveis,
as aposentações estáveis,
as casas sem grades,
as portas sem fechadura,
o sentido da comunidade
e o bom-senso.”

 

Os Filhos dos Dias, de Eduardo Galeano.
Título original: Los hijos de los días; tradução: Guilherme Pires.
Ilustração da capa: Luís Henriques; ilustrações: Eduado Galeano
Ed. Antígona, 2020; 432 páginas

 

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