“Os Ilustríssimos e Reverendíssimos Cardeais hão mister ~ua ilustríssima e reverendíssima reformação.” (Documento)

| 9 Nov 19 | Cristianismo - Homepage, Igreja Católica, Últimas

Numa intervenção no Concílio de Trento, em 1562, frei Bartolomeu dos Mártires exprimiu a opinião de que, para concretizar a reforma da Igreja, era necessária a reforma do estilo de vida e missão dos cardeais. A sua frase “Os Ilustríssimos e Reverendíssimos Cardeais hão mister de uma ilustríssima e reverendíssima reformação” ficou célebre. É esse episódio que Frei Luís de Sousa conta, no Capítulo X de A Vida de Frei Bartolomeu dos Mártires, que leva o título “Das pregações que o Arcebispo ordenou esta Quaresma, e da instância que fez por que se tratasse da reformação pessoal do clero, e da liberdade com que votou nela.” É esse capítulo que aqui se reproduz, a propósito da cerimónia de leitura do decreto de canonização que neste domingo, 10 de Novembro, decorre em Braga, formalizando a existência de mais um santo português no calendário católico.

 

Entrou a Quaresma deste ano de 1562 e, ainda que as ocupações que todos tinham eram grandes e contínuas, quis o Arcebispo que os menos ocupados também de sua parte ajudassem, animando ao trabalho e acendendo em devação os que, com suor e fadiga contínua, cavavam na vinha do Senhor; e ordenou pera este efeito algumas pregações particulares dos Padres portugueses que havia em Trento.

Tocou o primeiro domingo da Quaresma ao Padre Fr. Anrique de S. Jerónimo, aliás de Távora, seu companheiro, e foi ouvido por essa rezão de grande parte dos Padres do Concílio. O sermão foi tal que redundou em honra da Ordem e do Arcebispo, a quem se davam os parabéns por muitos prelados, dizendo que bem se parecia o filho com o pai e o discípulo com o mestre. Não dissimulava o Arcebispo o contentamento que estas novas lhe davam pera dar graças a Deus, conforme ao que está escrito: Filius sapiens laetificat patrem. E não era adulação, que os de melhor voto afirmavam que até aquele dia se não ouvira naquele sapientíssimo senado outro sermão tão perfeito em todas suas partes.

Logo pera a terceira sexta-feira convidou o Arcebispo muitos prelados italianos e de outras nações pera ouvirem o sermão da Vinha, do Padre Mestre Fr. Francisco Foreiro (…). Acudiram a ele todos os espanhóis, pola fama de suas letras e eloquência, que este dia ficou de novo acreditada com a obra e foi causa de o fazerem continuar na Quaresma do ano seguinte, com extraordinário concurso e aplauso, e com uma clara confissão que andava em alto ponto, entre os portugueses, aquele santo ministério do púlpito.

 

Emendar o mundo, mas emendar primeiro a Igreja

Entretanto não se descansava em discorrer e ventilar em juntas quasi quotidianas as matérias que haviam de ser sojeito da futura sessão. Mas não eram as que o Arcebispo tinha assentado em seu ânimo que deviam ser as primeiras, porque lhe parecia que, como o fim principal daquela sagrada e gèral congregação era emendar o mundo e purificá-lo de vícios, convinha começar a obra pola parte mais grave dele, que era o eclesiástico, e pola melhor do eclesiástico, que eram os prelados; e daí passar às cousas de menos consideração e a tudo o mais que havia que remedear, e isto dizia que era proceder com ordem, e tudo o mais chamava prepóstero e desconcertado; mas achava votos contra si, que reformação em casa, inda que seja tomada com as próprias mãos, não é cousa saborosa e, como negócio em que os maiores e mais poderosos eram os mais interessados, dissimulavam todos e iam pegando doutras matérias, discutindo e difinindo, sem tratarem desta.

Porém o Arcebispo não mudou de ânimo e, tomando forças da mesma contrariedade, instava, rogava, persuadia e aconselhava, em público e em particular, que não gastassem em cousas de pouca importância uma tão preciosa ocasião como tinham entre mãos pera grandes efeitos; que começassem logo polo que mais convinha, que era alimpar e apurar o ouro da Igreja, que era o estado eclesiástico, que estava escurecido com costumes depravados de dilícias e pompas, e com muitos vícios que daqui brotavam; que, reduzido isto a bom termo, então se procederia ao mais, com ordem, e seria fácil o remédio em tudo; que, pois eram todos médicos e pera curar a Cristandade estavam ali juntos, curassem primeiro a si mesmos, que, em boa física, quando há mal no corpo, sempre é costume acudir primeiro aos membros mais nobres e, pois eles eram os principais do corpo da Cristandade, não perdessem tempo em curar o que menos importava; que assi persuadiriam eficazmente ao mundo, e aos hereges, o aos membros podres da Igreja que sofressem o ferro e o cautério onde fosse necessário, sem poderem dizer: Medice, cura te ipsum.

Venceu em fim que se entendesse neste ponto, em cabo de muitos dias que aporfiou; e tocando-lhe falar em junta, fez uma eloquentíssima invenctiva cheia de doutrina e zelo cristão, contra o fausto e vaidades com que viviam alguns prelados e outros eclesiásticos (e nomeou a nação em que mais se enxergava esta superfluidade). E procedendo, queixava-se com grande espírito de se quererem defender com título de fazerem por esta via mais venerável e respeitada a dignidade; e mostrava que era tão digna de reprensão a desculpa como a mesma culpa, e que usavam dela por não ter outra nenhuma a que pudessem arrimar-se. Em fim provava e concluía com vivas rezões e força de exemplos que muito maior é a autoridade e respeito que nos prelados e príncipes da Igreja cria e grangea a virtude e zelo da honra de Deus e da salvação das almas que, todo o que podem mindigar e aquirir por vaidades e meios humanos.

Procedeu-se na matéria e propôs-se aos Padres em primeiro lugar se era razão que as pessoas dos cardeais fossem na reformação comprendidas. (…)

Fr. Bartolomeu dos Mártires

 

Quando tocou dizer ao Arcebispo…

Começaram a votar os que por esta rezão ficavam precedendo e um após outro, nemine discrepante, foram dizendo com a cortesia costumada que os Ilustríssimos e Reverendíssimos Cardeais não haviam mister reformados. Quando tocou dizer ao Arcebispo, disse assi, aproveitando-se das mesmas palavras e termo dos que tinham votado, mas com liberdade e espírito de varão apostólico: Illustrissimi et Reverendissimi Cardinales indigent illustrissima et reverendissima reformatione [Os ilustríssimos e reverendíssimos cardeais precisam de uma ilustríssima e reverendíssima reformação.]

Palavras formais, que foram celebradas por toda a Cristandade com honra do Arcebispo, e o são inda hoje. E não tenho dúvida que, como o ouro e outras cousas boas que ganham fineza e valor com o tempo, serão mais estimadas quanto mais ao longe lembrarem, visto como o mundo cada dia se vai aventajando a si mesmo em criar nos que mandam ânimos mais imperiosos, e nos que obedecem espíritos mais cativos. Por isso vão postas como saíram da boca de quem as disse. A linguagem é:

– “Os Ilustríssimos e Reverendíssimos Cardeais hão mister ~ua ilustríssima e reverendíssima reformação.”

E logo, virando com muita segurança pera onde estavam os Cardeais Legados e fazendo uma mui cortês inclinação, disse, com voz grave e sonora:

– Vossas Senhorias Ilustríssimas são as fontes donde todos os prelados bebemos, e portanto convém que esta água esteja mui limpa e pura. Aqui se mostrou bem quanto poder tem reformar um homem primeiro em si o que pretende emendar nos outros.

Como era pública e conhecida a muita religião e rigor de vida do Arcebispo, não somente não causou alteração esta liberdade nos Cardeais Legados, mas antes se afirma que ficaram muito edificados dela.

Pera todos os mais Padres foi matéria de gravíssimo espanto e a que nenhum se atrevera. E não os admirou menos a confiança com que se declarou e, sobretudo, verem suas palavras não só toleradas, mas bem recebidas dos cardeais.

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